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BRICS, Pix e terras raras: o Brasil entre a autonomia monetária, a competição dos EUA com a China e a crise política de 2026

Investigação geoeconômica com 40 fontes sobre a moeda proposta por Lula no BRICS, a disputa americana sobre o Pix, as reservas revistas pelo USGS, a compra concluída da Serra Verde pela USAR, o contrato de 15 anos e as eleições brasileiras de 2026.
Contexto
Pressão comercial americana, pagamentos internacionais e cadeias minerais industriais convergem com crise política brasileira, mas alegações de condicionalidade exigem prova independente.
Risco principal
Confundir liquidação em moedas locais com moeda única dos BRICS ou associar acolhida de Flávio a concessões secretas sem documentação.
Indicadores principais
Interoperabilidade BRICS e volumes por moeda · Tarifas americanas Seção 301 por produto · Participantes e uso real do Pix · Refino de terras raras e contratos DFC no Brasil · Documentos negociadores Brasil–EUA
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30 de outubro de 2026 · Marginal Thinking · Sistema Global & Poder / Economia Política & Mercados · Investigação geoeconômica e institucional

O conflito entre Brasil e Estados Unidos em 2026 não cabe numa explicação única. De um lado, Washington instaurou e concluiu procedimento comercial que inclui, expressamente, o tratamento regulatório dispensado ao Pix; de outro, negociou tarifas e acesso a cadeias de minerais críticos, num momento em que a disputa industrial americana com a China transformou as terras raras em insumo de segurança econômica. Paralelamente, o BRICS discutiu pagamentos transfronteiriços em moedas locais, uma agenda menos ambiciosa do que a moeda única evocada por Luiz Inácio Lula da Silva em 2023. Em outubro, a reeleição de Lula e a ida de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos acrescentaram uma crise diplomática e eleitoral a negociações iniciadas antes do segundo turno. [1][2][3][10][15][19][20][21][24]

Há uma diferença decisiva entre reconhecer esses fatos e afirmar que a Casa Branca organizou a saída de Flávio para exigir concessões sobre terras raras, Pix ou BRICS. A primeira afirmação se apoia em documentos, decisões, notícias verificáveis e contratos. A segunda depende de evidências adicionais, como comunicações, exigências formais, cronogramas negociadores conectados ao episódio e testemunhos independentes; as fontes examinadas não demonstram uma troca política explícita entre a acolhida do ex-candidato e concessões minerais ou financeiras. A hipótese merece análise justamente porque a disputa comercial e o episódio político são reais, não porque sua conexão causal esteja comprovada. [21][23][24][25][26]

A investigação examina quatro engrenagens — moeda, infraestrutura de pagamentos, controle das cadeias minerais e barganha político-diplomática — e suas relações com o poder americano, os interesses brasileiros e a heterogeneidade interna dos BRICS. O corte informacional é 30 de outubro de 2026, no horário de Brasília. As datas de séries e documentos são preservadas: não há estimativas retroativas apresentadas como observações de outubro.

1. De Bretton Woods aos BRICS: a política dos pagamentos precede a moeda proposta

O sistema financeiro internacional contemporâneo é produto de escolhas políticas e de redes econômicas acumuladas. Bretton Woods, em 1944, organizou uma ordem monetária com paridades associadas ao dólar e instituições multilaterais. A ruptura da conversibilidade oficial do dólar em ouro, em 1971, não eliminou sua predominância. Mercados de títulos profundos, financiamento em dólares, redes bancárias correspondentes, faturamento de comércio, sistemas de compensação e a demanda por ativos considerados líquidos reforçaram mutuamente sua utilização. A moeda central não permanece central apenas porque um governo decreta sua primazia; ela se beneficia de uma infraestrutura difícil de reproduzir.

O fim da Guerra Fria e a integração das economias chinesa e indiana à produção mundial ampliaram o peso de países que nem sempre controlam as regras financeiras nas quais operam. Na crise financeira de 2008, uma instituição monetária americana pôde prover liquidez em dólar a bancos centrais parceiros por acordos de swap, destacando a relação entre moeda de financiamento e capacidade de resposta a crises. A política monetária dos EUA passou, assim, a ter efeitos de alcance mundial: juros mais altos podem aumentar o custo do financiamento externo, modificar taxas de câmbio e comprimir a capacidade de importar de países cuja dívida ou comércio estão denominados em dólares.

A inquietação brasileira antecede a presidência atual de Lula e não constitui invenção recente dos BRICS. O Brasil já utilizava mecanismos regionais de compensação comercial e acordos de pagamentos em moedas locais. A questão mudou de escala quando disputas geopolíticas, sanções financeiras e a expansão dos BRICS trouxeram novos governos interessados em alternativas operacionais ao financiamento e à liquidação centrados em moeda americana. A existência de razões legítimas para diversificação não implica que uma arquitetura alternativa esteja tecnicamente pronta. [29][30]

2. A origem dos BRICS e a distância entre tamanho econômico e unidade política

O acrônimo BRIC começou como categoria de análise econômica em 2001. Brasil, Rússia, Índia e China passaram a reuni-lo politicamente a partir de meados da década de 2000; a primeira cúpula ocorreu em 2009 e a África do Sul ingressou em 2011. A criação do Novo Banco de Desenvolvimento e do Arranjo Contingente de Reservas, em 2014, produziu instrumentos institucionais próprios. A ampliação posterior incorporou economias de perfis muito distintos, com exportadores de petróleo, importadores de energia, grandes manufaturas, economias agrícolas e países sujeitos a sanções.

Seu crescimento não formou uma união aduaneira, uma união monetária ou um sistema político único. China e Índia têm interesses estratégicos e industriais por vezes concorrentes; Brasil, Rússia e países do Golfo operam estruturas fiscais, cambiais e geopolíticas diferentes. Alguns membros dependem de comércio e finanças ocidentais, outros procuram alternativas sob restrições impostas por esses mercados. Por isso, a simples soma dos respectivos PIBs ou populações não revela capacidade de tomar uma decisão monetária unificada.

O BRICS oferece sobretudo uma plataforma de barganha e coordenação: permite articular posições em instituições financeiras, discutir financiamento ao desenvolvimento e elaborar iniciativas de pagamentos. Essa plataforma pode ser importante mesmo se nunca emitir uma moeda. A viabilidade de ações coletivas depende menos de slogans sobre multipolaridade e mais de compatibilidade de regras, garantias cambiais, capital bancário e incentivos nacionais.

3. Lula e a moeda: evolução entre 2023 e outubro de 2026

Em 2023, Lula defendeu publicamente a possibilidade de uma moeda de referência para trocas comerciais dentro dos BRICS e chegou a comparar o desejo de autonomia monetária à experiência europeia. Suas manifestações variaram: ora mencionavam uma moeda comum, ora uma unidade comercial que não substituiria as moedas nacionais. Na cúpula de Joanesburgo, falou-se em examinar mecanismos de referência para operações do grupo. Essas posições eram propostas políticas ou temas de estudo, não atos de criação de uma autoridade monetária. [2][32]

Em 2025, o sherpa brasileiro Maurício Lyrio afirmou que uma moeda comum não estava em debate naquele momento. Em fevereiro de 2026, o próprio Lula declarou, ao tratar de comércio com a Índia, que ninguém havia proposto criar uma moeda única dos BRICS naquele processo. O fato de o presidente ter apoiado uma ideia em 2023 não significa que ela fosse uma política institucional adotada em 2026. Ao contrário, o enfoque operacional tornou-se uso de moedas locais e redução dos custos de pagamento. [3][4]

A declaração de Nova Délhi, de 12 de setembro de 2026, é particularmente importante: no parágrafo 90, os líderes reconhecem os trabalhos sobre interoperabilidade de pagamentos e liquidação comercial em moedas nacionais, respeitando prioridades de cada membro. Não anunciam banco central compartilhado, nome de moeda, fórmula de emissão, conversibilidade ou cronograma para substituir o dólar. Um estudo de plataforma de políticas divulgado em 30 de outubro reforçou os obstáculos estruturais a uma moeda comum e considerou mais praticável aprofundar a interoperabilidade dos pagamentos. Documento de pesquisadores não equivale a decisão de cúpula. [1][28]

4. Quatro projetos confundidos no debate público

Dados da pesquisa
Dados da pesquisa
InstrumentoO que mudaInstituições necessáriasEstado verificável em outubro de 2026
Faturar em reais, rúpias ou yuansMoeda de contrato e pagamentoBancos, câmbio, compliance e liquidezPossível em relações e contratos específicos
Interoperabilidade de pagamentosA forma de transmitir e liquidar pagamentos transfronteiriçosBancos centrais, redes, regras de compensação e AMLObjetivo de trabalho dos BRICS, não rede única universal comprovada
Unidade de conta comercialReferência para calcular obrigações, possivelmente com cestaAcordo de conversão, preços e gestão de riscoIdeia debatida historicamente; sem unidade oficial adotada
Moeda única plenaSubstituição de moedas nacionais para ampla circulaçãoAutoridade monetária comum, regras fiscais, suprimento de liquidez e resolução de crisesNão aprovada pelos BRICS

Uma quinta categoria costuma surgir: moeda digital de banco central. Uma CBDC poderia transportar obrigações monetárias em formato digital, mas não define automaticamente a moeda usada para o contrato nem elimina necessidade de conversão cambial. Uma infraestrutura digital em reais continua sendo um sistema em reais; um pagamento em yuan permanece exposto à valorização ou desvalorização do yuan, ainda que seja instantâneo.

Confundir esses instrumentos dificulta a avaliação de poder. Transferir informações sem SWIFT não elimina a influência do dólar quando o financiamento, o proteção ou as reservas permanecem em dólares. Da mesma forma, reduzir a dependência de correspondentes americanos não obriga um país a aceitar o yuan como moeda dominante. Cada escolha distribui custos e riscos entre importadores, exportadores, bancos, bancos centrais e contribuintes.

5. Por que o dólar permanece central apesar da diversificação

O Banco de Compensações Internacionais registrou, na pesquisa de abril de 2025, o dólar presente em 89,2% das operações globais de câmbio; o euro apareceu em 28,9% e o renminbi chinês em 8,5%. Como toda troca envolve duas moedas, esses percentuais não somam 100%: medem a participação de cada moeda em pelo menos um dos lados da transação. O volume global de câmbio chegou a cerca de US$ 9,6 trilhões por dia. [5][6]

Participação das moedas em operações globais de câmbio, abril de 2025 (BIS)% das transações em que a moeda aparece; não somam 100%
Dólar americano
89,2
Euro
28,9
Renminbi chinês
8,5
Ver dados
Participação das moedas em operações globais de câmbio, abril de 2025 (BIS)
Indicador / períodoValor (% das transações em que a moeda aparece; não somam 100%)
Dólar americano89,2
Euro28,9
Renminbi chinês8,5

Essa participação revela que o dólar é mais do que uma unidade de faturamento. Mesmo duas empresas fora dos EUA podem converter moedas por meio de pares com dólar porque encontram maior liquidez e instrumentos de proteção nesse mercado. Para substituir o dólar de forma consistente, seria necessário criar profundidade semelhante nos mercados cambiais de moedas alternativas, instrumentos de proteção, regras previsíveis de entrada e saída de capital e ativos seguros suficientemente abundantes. Uma decisão presidencial não cria esses mercados instantaneamente.

Também há benefícios da diversificação: evitar conversões sucessivas, reduzir custos em corredores bilaterais líquidos e diminuir exposição a interrupções específicas. Mas uma moeda local pouco líquida pode aumentar a diferença entre preços de compra e venda, elevar o risco de não conversibilidade ou deixar um exportador com saldos que não consegue utilizar. A comparação econômica precisa considerar o custo total, inclusive capital de giro e proteção.

6. Sanções, infraestrutura e capacidade de coerção financeira

A capacidade de impor sanções econômicas depende de jurisdição, acesso ao dólar, instituições financeiras, tecnologia e alianças regulatórias. SWIFT é um serviço de mensageria, não a moeda e não o titular de todos os saldos. Reservas, contas correspondentes e sistemas de liquidação pertencem a camadas diferentes. A interrupção de mensagens ou o bloqueio de ativos têm efeitos distintos. Desenhar uma alternativa técnica é mais fácil do que criar confiança, acesso a liquidez emergencial e proteção jurídica para bancos que a operem.

Após 2022, as restrições contra a Rússia reforçaram o interesse por caminhos alternativos, mas também aumentaram o risco de sanções secundárias para instituições intermediárias. Para países como Brasil e Índia, uma rede de pagamentos transfronteiriços pode buscar redução de custos sem necessariamente aceitar o objetivo de permitir evasão de sanções. O grupo não tem consenso automático sobre o tratamento político de guerras, regimes de sanção ou compromissos de supervisão financeira.

O interesse dos EUA em preservar a centralidade de suas instituições e o acesso de suas empresas a mercados é compreensível como objetivo econômico. Não se deve, porém, equiparar toda inovação de pagamentos fora dos EUA a ameaça direta à moeda americana. A magnitude estratégica depende de escala transfronteiriça, substituição efetiva de financiamento e mudança do portfólio de reservas, não da popularidade de um aplicativo doméstico.

7. O Novo Banco de Desenvolvimento e o limite da autonomia financeira

O Novo Banco de Desenvolvimento, criado no ciclo de Fortaleza em 2014, é um instrumento de financiamento multilateral para infraestrutura e projetos de desenvolvimento. Empréstimos em moedas locais podem reduzir desencontro cambial entre receita do projeto e serviço da dívida. Se uma ferrovia arrecada em reais e deve em dólares, uma desvalorização eleva o custo da dívida; um financiamento em reais altera a distribuição desse risco. Entretanto, o banco também depende de capital, gestão de risco, classificação de crédito e acesso a mercados financeiros. [29][30]

O Arranjo Contingente de Reservas é um instrumento distinto, concebido para apoiar membros sob pressões de balanço de pagamentos. Não se confunde com um banco, um fundo soberano ou um Tesouro comum. A declaração de Nova Délhi mencionou avanços técnicos e possíveis ajustes para elevar sua operacionalidade, não uma transformação concluída em substituto integral ao FMI ou às linhas de liquidez em dólar. [1]

A viabilidade financeira de instituições alternativas depende da disposição dos membros para absorver perdas e aportar liquidez quando outros enfrentarem crises. Economias de grande porte podem apoiar mecanismos coletivos, mas exigir garantias e supervisão. O conflito não é apenas entre Sul Global e Ocidente: há disputas distributivas dentro do próprio grupo sobre quem financia, quem recebe, a que taxas e sob quais condições.

8. O que é o Pix e o que não é

O Pix foi lançado em 16 de novembro de 2020 pelo Banco Central do Brasil como arranjo de pagamento instantâneo. Sua infraestrutura envolve regras de participação, identificação de contas, liquidação no Sistema de Pagamentos Instantâneos e serviços de diretório para chaves. Usuários transferem reais entre contas participantes, normalmente a qualquer hora do dia, com rápida disponibilidade de recursos. Isso altera custos, concorrência e conveniência no mercado doméstico. [7][8]

O Pix não é uma criptomoeda, não é o Drex, não é uma moeda dos BRICS e não substitui automaticamente o sistema internacional de câmbio. Pode ser conectado, mediante estruturas regulatórias apropriadas, a serviços de conversão e pagamento transfronteiriço. Tal conexão exigiria verificação de identidade, controles de prevenção à lavagem de dinheiro, normas cambiais, contratos e provisão de liquidez em moedas estrangeiras. Não existe passagem automática de uma transferência local em reais para um sistema mundial independente do dólar.

O êxito do Pix decorre também de escolhas de infraestrutura pública: padronização técnica, ampla adoção por instituições financeiras e disponibilidade contínua. Seu efeito concorrencial ultrapassa o volume financeiro transacionado. Ao reduzir fricções em pagamentos entre pessoas e empresas, pressiona modelos de receita de transferências antigas e pode competir com determinados pagamentos de cartão. Os resultados variam conforme transação, setor, fraude, parcelamento e serviços de crédito associados.

9. Escala do Pix: o que revelam os dados do Banco Central

Em setembro de 2026, a página estatística do Banco Central indicava mais de 150 milhões de pessoas físicas que haviam usado o Pix no mês, aproximadamente 7,8 bilhões de transações e valor superior a R$ 3,8 trilhões. A autoridade monetária registrava pico de cerca de 318,1 milhões de transações num dia em setembro. Essas são métricas de atividade doméstica em reais, não de receita obtida pelo Banco Central, estoque de dinheiro ou participação no câmbio internacional. [7]

Dados da pesquisa
Dados da pesquisa
MedidaObservaçãoUnidade e interpretação
Pessoas físicas que utilizaram PixMais de 150 milhõesUsuários com utilização em setembro de 2026
Quantidade de operaçõesAproximadamente 7,8 bilhõesTransações efetuadas em setembro de 2026
Valor movimentadoMais de R$ 3,8 trilhõesSoma nominal das transferências do mês; não é PIB
Pico em um diaCerca de 318,1 milhõesOperações em 4 de setembro de 2026
Participação do Pix em pagamentos internacionais em dólarNão estabelecida pelas métricas acimaExige série transfronteiriça própria

O volume mensal elevado prova a importância da infraestrutura para a atividade financeira brasileira, mas não indica que 3,8 trilhões de reais tenham deixado de circular por bandeiras de cartões americanas. A maior parte das transferências inclui categorias e relações que não concorreriam diretamente com Visa ou Mastercard. Para calcular eventual perda de receitas de bandeiras ou intermediários seriam necessários dados desagregados de transações substituídas, taxas médias e comportamento contrafactual de consumidores e lojistas.

10. A disputa sobre Pix no processo comercial americano

Em 15 de julho de 2025, o USTR instaurou investigação da Seção 301 da lei comercial americana sobre um conjunto de práticas brasileiras: comércio digital, pagamentos eletrônicos, preferências tarifárias, propriedade intelectual, medidas anticorrupção, etanol e desmatamento ilegal. Em 1º de junho de 2026, concluiu que determinadas medidas eram injustificadas, discriminatórias ou restringiam o comércio americano e citou favorecimento regulatório ao sistema brasileiro de pagamentos. Em 15 de julho de 2026, anunciou tarifa de 25% sobre determinados bens do Brasil. Não é correto afirmar que todos os produtos brasileiros sofreram a mesma incidência, nem que a tarifa tinha apenas o Pix como fundamento. [9][10][11][12]

A tese americana, conforme documentos do USTR, é que regras estatais dariam tratamento preferencial a uma infraestrutura nacional, impondo desvantagem a empresas americanas concorrentes. Trata-se da posição de um órgão comercial interessado no litígio, não de decisão internacional independente que tenha demonstrado todos os efeitos alegados. É preciso examinar dispositivos concretos: obrigações de participação, apresentação ao usuário, preços, acesso ao arranjo e aplicação uniforme a entidades brasileiras e estrangeiras. [10][12][13]

O governo brasileiro contesta as premissas e as medidas tarifárias. Nota de agosto do MRE e do MDIC afirma que as justificativas do USTR não refletem as práticas brasileiras e defende solução negociada compatível com soberania e regras multilaterais. A controvérsia, portanto, não deve ser narrada apenas pela acusação americana ou pela defesa brasileira. Há conflito observável entre concepções de infraestrutura de interesse público, concorrência e acesso a mercados. [14]

11. Por que os interesses de empresas americanas são relevantes, mas não esgotam a questão

Bandeiras de cartão, provedores de carteiras, sistemas de pagamento e processadores competem em mercados parcialmente sobrepostos. Uma transferência instantânea com preço muito baixo pode deslocar algumas transações tradicionalmente intermediadas por serviços privados e diminuir receitas associadas a determinadas tarifas. Mas cartões também oferecem crédito, parcelamento, mecanismos próprios de contestação, programas de benefícios e integração internacional que o Pix não substitui de forma idêntica. A pressão competitiva depende de segmento e uso.

A participação de entidades estrangeiras no ecossistema Pix, seus critérios de acesso e o comportamento do regulador precisam ser examinados antes de concluir que se trata de proteção nacional discriminatória. Há um interesse público legítimo em pagamentos eficientes e interoperáveis, assim como há interesses legítimos em concorrência, proporcionalidade regulatória e segurança. O debate jurídico pergunta se as vantagens decorrem de padrões acessíveis a todos os participantes ou de privilégios exclusivos injustificáveis.

A defesa americana da concorrência pode coincidir com ganhos privados de empresas nacionais dos EUA. A existência dessa coincidência não demonstra captura de política pública. Evidências adicionais seriam atas de consultas, contribuições empresariais, documentação sobre custos e mecanismos de aplicação desigual. A investigação comercial mostra que o tema incomoda agentes relevantes da política econômica americana, mas não estabelece uma operação coordenada para encerrar o Pix.

12. Pix, SWIFT, CIPS, sistemas locais e moeda digital: uma comparação arquitetural

Cadeia de transmissão
  1. Pix doméstico em reais
  2. transferência instantânea e liquidação em reais
  3. eficiência no mercado brasileiro
  1. Comércio Brasil–Índia
  2. contrato e moeda de faturamento
  3. provedor de liquidez cambial
  4. mensagem e liquidação internacionais
  5. recebimento em rúpias
  1. BRICS Payment Task Force
  2. padrões e interoperabilidade em estudo
  3. potencial redução de custos sem moeda única

Um pagamento envolve várias perguntas: quem inicia, como a identidade é verificada, qual informação trafega, em que moeda o saldo é contabilizado, como se faz a troca cambial, quando a obrigação é liquidada e quem assume risco se uma contraparte falha. O Pix resolve alguns desses problemas para transferências domésticas em reais. SWIFT oferece mensageria financeira. Sistemas internacionais em renminbi, mecanismos africanos de pagamentos regionais e soluções de bancos correspondentes operam em contextos próprios. Não há equivalência entre simplesmente colocar seus nomes numa lista.

O projeto de interoperabilidade dos BRICS exige desenhos concretos para prevenção à lavagem de dinheiro, gestão de disputas, controle de capitais, formato das mensagens, conversão cambial e liquidação definitiva. Uma conexão direta entre sistemas domésticos poderia reduzir demora e comissões, mas criar riscos de concentração na infraestrutura de interligação. Segurança cibernética, recuperação de desastres e neutralidade de governança são componentes econômicos da infraestrutura, não detalhes adicionais. [1][29]

O sistema escolhido também altera a possibilidade de supervisão dos fluxos. A soberania tecnológica de um Estado pode aumentar quando depende menos de fornecedores externos, mas a autonomia dos cidadãos pode diminuir se houver vigilância excessiva. A análise deve confrontar eficiência, privacidade, direitos de contestação e resiliência operacional.

13. Interoperabilidade e o problema da conversibilidade

Considere, como exemplo hipotético, uma empresa brasileira que importa máquinas da Índia e paga em reais enquanto o fornecedor deseja receber rúpias. Um arranjo de liquidação direta poderia dispensar algumas etapas em dólar. Entretanto, alguém precisa oferecer rúpias contra reais, estabelecer preço, financiar o intervalo de liquidação e absorver variações cambiais. Se a demanda é assimétrica — um país compra muito mais do outro — o sistema acumula saldos de moeda estrangeira e precisa encontrar forma de reciclá-los.

Uma câmara de compensação pode reduzir transferências brutas quando há fluxos nos dois sentidos. Isso não elimina o risco de crédito quando uma entidade deixa de pagar seu saldo líquido; tampouco resolve mercados de câmbio ilíquidos. Liquidação pagamento-contra-pagamento pode reduzir risco de principal, mas requer coordenação legal e temporal. Confundir mensageria eficiente com conversibilidade ilimitada é erro recorrente na discussão da moeda dos BRICS.

O Brasil pode ganhar ao participar de soluções que funcionem com sua economia e sua estrutura comercial. O desenho precisa evitar transferência opaca de risco cambial para bancos públicos ou reservas internacionais e não pressupor que o mercado aceitará espontaneamente uma nova unidade de conta.

14. O eixo dólar–China–Brasil: relações comerciais diferentes

A China é compradora essencial de várias commodities brasileiras e fornecedora de insumos e bens manufaturados; os EUA são mercado relevante e fonte de tecnologia, serviços, investimento e instrumentos de financiamento. Reduzir a dependência de um não exige cortar relações com o outro. A diversificação pode aumentar a margem negociadora brasileira, mas escolhas de investimentos, padrões industriais e sanções podem transformar certas opções em conflitos concretos. [19][26][27]

O país também participa do Mercosul, que negocia seus próprios instrumentos externos. Uma iniciativa BRICS sobre pagamentos não é, por si só, acordo preferencial de tarifas; um tratado com os EUA sobre minerais pode afetar políticas ambientais, industriais e de investimento, mesmo sem alterar o estatuto dos BRICS. Essas agendas interagem, mas possuem mecanismos jurídicos e econômicos diferentes.

A política americana pode combinar aproximação comercial e pressões pontuais sem assumir como objetivo único afastar o Brasil da China. Da mesma forma, o governo brasileiro pode procurar investimento americano em minerais e manter relações com Pequim. A questão é a distribuição das capacidades produtivas, dos direitos sobre ativos e dos riscos futuros.

Distribuição geoeconômica de produção, demanda, capital e infraestrutura
Brasil
Reservas de terras raras e Pix doméstico em reais

Reserva não equivale a refino, nem Pix a liquidação internacional

Estados Unidos
Mercados de capitais, política comercial e financiamento mineral

Seção 301 e instrumentos DFC operam por marcos diferentes

China
Demanda por commodities e alta capacidade de processamento mineral

Posição industrial não deriva apenas de reservas geológicas

Índia e demais BRICS
Mercados e alternativas de pagamento ainda heterogêneas

Não existe moeda única nem política monetária comum

Europa
Mercado de destino, padrões e busca por cadeias de fornecimento mais diversas

Acesso e investimentos dependem de regulamentação e contratos

O mapa registra funções geoeconômicas por região; não localiza jazidas, instalações nem fluxos físicos específicos. A relação de cada país com o Brasil não tem uma direção única: uma economia pode financiar projetos, comprar matérias-primas e competir em produtos de maior valor agregado simultaneamente.

15. Terras raras: reservas no subsolo não são ímãs, ligas ou motores

O USGS publicou em fevereiro de 2026 a série Mineral Commodity Summaries, posteriormente revisada até a versão 1.3 de 27 de maio de 2026. A tabela atualizada e individual de terras raras estima reservas de óxidos equivalentes (REO) de 44 milhões de toneladas na China, 11 milhões no Brasil, 6,3 milhões na Austrália, 3,8 milhões na Rússia e 1,9 milhão nos Estados Unidos. A estimativa brasileira de 21 milhões de toneladas, reproduzida em versões anteriores da edição 2026, foi substituída pela revisão de maio; para um corte editorial em outubro não se deve reutilizar o número antigo. [16][33]

A mesma publicação apresenta produção mineira estimada para 2025 de 270 mil toneladas na China, 51 mil nos EUA, 29 mil na Austrália e 2 mil no Brasil. O quadro distingue explicitamente reservas geológicas de fluxo anual de extração, medido em REO equivalente. Mudanças de metodologia, novas informações oficiais e revisão de reservas não são equivalentes a perda física súbita de dez milhões de toneladas no subsolo. O dado atualizado não elimina a relevância da posição brasileira; exige, porém, rigor sobre a base estatística utilizada. [16][33]

Reservas estimadas de terras raras por país, USGS MCS 2026 v1.3 (maio)milhões de toneladas de óxido equivalente (REO)
China
44
Brasil
11
Austrália
6,3
Rússia
3,8
Estados Unidos
1,9
Ver dados
Reservas estimadas de terras raras por país, USGS MCS 2026 v1.3 (maio)
Indicador / períodoValor (milhões de toneladas de óxido equivalente (REO))
China44
Brasil11
Austrália6,3
Rússia3,8
Estados Unidos1,9
Produção mineira estimada de terras raras em 2025, USGS 2026mil toneladas de óxido equivalente (REO) por ano
China
270
Estados Unidos
51
Austrália
29
Brasil
2
Ver dados
Produção mineira estimada de terras raras em 2025, USGS 2026
Indicador / períodoValor (mil toneladas de óxido equivalente (REO) por ano)
China270
Estados Unidos51
Austrália29
Brasil2

A divergência entre a reserva brasileira e o pequeno fluxo de produção nacional demonstra que potencial geológico não equivale a poder de mercado. Teor do depósito, proporção de elementos pesados, autorização ambiental, recuperação metalúrgica, energia, reagentes, conhecimento químico, infraestrutura e contratos de venda determinam a escala industrial. O concentrado ou carbonato misto de terras raras (MREC) ainda demanda separação, refino, metalização e fabricação de componentes especializados.

Neodímio e praseodímio são centrais para determinados ímãs permanentes; disprósio e térbio podem ser relevantes para estabilidade a altas temperaturas. Um dado agregado de reservas em REO não informa sozinho a proporção recuperável de cada elemento, nem sua rentabilidade. O caso brasileiro deve ser analisado por jazida e etapa da cadeia, particularmente após o controle empresarial e o direcionamento de compras da Serra Verde em 2026. [34][35][36][37]

16. A importância da capacidade de refino chinesa

A Agência Internacional de Energia observa que a concentração de etapas de refino e transformação é um risco central da cadeia de minerais estratégicos. Controles chineses de exportação de elementos pesados introduzidos em 2025 pressionaram fabricantes que dependiam de pequenas quantidades de insumos muito especializados. No cenário técnico da IEA, uma implementação integral de determinadas restrições poderia atingir volumes muito elevados de produção industrial a jusante fora da China. Isso é um cenário de exposição, não uma medição de perdas efetivamente realizadas. [17][31]

O domínio de determinada etapa não depende exclusivamente de reservas naturais. Empresas podem adquirir insumos de vários países e concentrar tecnologia de separação, know-how, mão de obra treinada e contratos de fornecimento. A instalação de novas fábricas fora da China enfrenta custos, incerteza sobre preços futuros e necessidade de certificação de qualidade. Um programa de diversificação pode falhar se encontrar minério mas não assegurar compradores para óxidos, ligas e ímãs.

Essa diferença entre localização da rocha e controle da transformação é crucial para o Brasil. Uma concessão de lavra vinculada a compradores externos pode expandir exportações e emprego local, mas deixar atividades de maior valor agregado fora do país. Por outro lado, exigir verticalização imediata sem escala e tecnologia pode inviabilizar o investimento. A decisão depende de contratos, retornos e capacidades reais.

17. O financiamento americano existente: o caso Pela Ema

O caso Pela Ema, em Minaçu, Goiás, deixou de ser apenas um projeto potencial financiado pelos EUA. A sequência documental revela financiamento contratado, contrato de fornecimento de longo prazo, capitalização de comprador ligado ao governo americano e aquisição societária concluída. Confundir essas operações ou tratá-las como simples possibilidades futuras enfraquece a análise das opções de política industrial brasileira.

Primeira fase, 2025–fevereiro de 2026. A DFC americana havia indicado em 2025 um financiamento de US$ 465 milhões. Em 5 de fevereiro de 2026, a Serra Verde anunciou um pacote ampliado de US$ 565 milhões, com opção de participação acionária minoritária para o governo americano. Documento apresentado à SEC descreve uma linha sênior garantida de até US$ 565 milhões, formalizada em janeiro, com juros indexados à SOFR mais quatro pontos percentuais, garantias sobre ativos da operação e primeiro saque de US$ 325 milhões realizado em 6 de março. Portanto, limite contratado e recursos efetivamente sacados não são sinônimos. A apresentação à SEC também descreve warrants ligados à DFC, cujos direitos sofreriam tratamento na posterior combinação societária. [18][34][35]

Segunda fase, abril–agosto. Em 20 de abril de 2026, foi anunciado acordo de aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth (USAR). No mesmo ciclo foi estabelecido contrato de compra futura (offtake) por 15 anos, envolvendo 100% da produção da Fase I de minerais magnéticos contidos no carbonato misto produzido no Brasil, direcionado a uma sociedade de propósito específico (SPV) com participação do governo dos EUA e de capital privado. O acordo combina obrigações de retirada e pagamento (take-or-pay) com preços mínimos contratuais; a Serra Verde anunciou pisos de US$ 2.050/kg para térbio, US$ 575/kg para disprósio e US$ 110/kg para neodímio e praseodímio. Os números se referem ao arranjo contratual informado pela companhia, não a um preço mundial fixado pelo governo. [35][36][37]

Em 24 de agosto, USA Rare Earth e Serra Verde comunicaram a organização de um SPV de até US$ 1,55 bilhão para adquirir o produto da Fase I. Sua estrutura anunciada compreendia US$ 750 milhões de compromisso de aporte governamental, compromisso de linha bancária de até US$ 500 milhões, sujeito a condições, e compra futura por órgãos dos EUA de pelo menos US$ 300 milhões ao longo de cinco anos. Esses componentes não devem ser descritos como US$ 1,55 bilhão integralmente desembolsados em caixa no Brasil; distinguem-se capitalização, linha condicionada e obrigação comercial futura. A Serra Verde afirmou que o contrato entrara em plena eficácia para iniciar entregas previstas para o quarto trimestre de 2026. [36][37]

Terceira fase, setembro. A aquisição de Serra Verde pela USAR foi concluída em 3 de setembro de 2026, conforme anúncio do dia seguinte e documentação da SEC. A estrutura divulgada envolveu US$ 300 milhões em dinheiro e aproximadamente 126,85 milhões de ações USAR destinadas a vendedores e beneficiários dos direitos da empresa adquirida. A operação integrou a mineradora goiana ao grupo americano que pretende atuar da mina ao ímã, com unidades e projetos no Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e França. A expectativa de ampliar produção de TREO para cerca de 4 mil toneladas anuais até o final de 2026 é uma meta de capacidade, não produção já constatada. [38][39]

Essa cronologia mostra um fato mais forte do que a antiga hipótese de interesse: houve aquisição corporativa efetiva de uma produtora estratégica brasileira e forte vinculação de sua produção da Fase I a compradores associados a interesses americanos. Isso não transfere a soberania sobre o subsolo brasileiro aos EUA, não equivale à propriedade de todas as reservas do país e não demonstra, por si, vínculo com a acolhida posterior de Flávio Bolsonaro. Mas modifica concretamente o controle societário, os direitos de comercialização e as alternativas disponíveis à operação.

A autoridade antitruste brasileira, Cade, informou em 11 de maio a abertura de procedimento para examinar a combinação e o fornecimento. Esse fato comprova atenção regulatória, não julgamento conclusivo de ilicitude ou conclusão de que a aquisição foi proibida. A investigação precisa acompanhar as decisões, a governança da operação, os contratos, as licenças, os direitos trabalhistas e ambientais, o cumprimento de compromissos locais e a localização efetiva das etapas de separação química. [40]

Cadeia de transmissão
  1. DFC 2025, proposta US$ 465 mi
  2. fevereiro de 2026, crédito contratado até US$ 565 mi
  3. março, primeiro saque US$ 325 mi
  1. Abril, aquisição e offtake anunciados
  2. agosto, SPV US$ 1,55 bi estruturado e offtake em vigor
  3. setembro, aquisição pela USA Rare Earth concluída
  1. Conseqüência operacional
  2. controle societário americano e Fase I contratada por 15 anos
  3. avaliação brasileira de concorrência, industrialização e limites jurídicos

A discussão de soberania deve, a partir daqui, diferenciar controle da empresa, direitos de compra de produto, garantias financeiras e jurisdição territorial. Um controle societário americano efetivo sobre a concessionária brasileira não é uma anexação da jazida; tampouco é mera possibilidade abstrata de investidor estrangeiro. O objeto estratégico é a alocação de produção e tecnologia em uma cadeia transnacional. [35][36][38][39][40]

18. O papel das eleições de 2026 na negociação comercial

O Brasil encerrou em 25 de outubro uma eleição presidencial apertada: o TSE registrou 64.256.232 votos para Lula (51,79% dos válidos) e 59.826.041 para Flávio Bolsonaro (48,21%). O resultado é um fato institucional, não um cenário. A Reuters havia registrado antes do segundo turno que o relacionamento com Washington e as negociações sobre tarifas e minerais poderiam mudar conforme a estratégia do governo eleito. Isso identifica riscos e preferências em disputa, não demonstra capacidade americana de determinar a escolha dos eleitores. [19][20]

Segundo turno presidencial brasileiro, 25 de outubro de 2026 (TSE)milhões de votos válidos
Lula
64,256232
Flávio Bolsonaro
59,826041
Ver dados
Segundo turno presidencial brasileiro, 25 de outubro de 2026 (TSE)
Indicador / períodoValor (milhões de votos válidos)
Lula64,256232
Flávio Bolsonaro59,826041

A proximidade ideológica de Flávio com a direita americana e o alinhamento mais forte de Lula com o multilateralismo alteravam expectativas de negociações. Nenhum deles, porém, poderia anular compromissos comerciais, contratos, órgãos regulatórios e posições do Congresso apenas por afinidade diplomática. Empresas, governos subnacionais, Forças Armadas, autoridades ambientais e tribunais também participam das decisões sobre investimentos e ativos estratégicos.

O mecanismo mais verificável de pressão é econômico: um país que impõe tarifas, restringe acesso a tecnologia ou oferece financiamentos condicionados altera o custo esperado das escolhas do parceiro. A conexão com resultados eleitorais exige prova adicional de condicionalidade, gasto político, ameaça documentada ou outra forma específica de intervenção. Preferência declarada por determinado candidato não é idêntica a manipulação do voto ou troca comercial vinculada ao resultado.

19. A sequência de agosto e setembro impede uma explicação eleitoral simplista

O MRE e o MDIC brasileiros documentaram uma reunião virtual com o USTR em 31 de agosto de 2026, após contatos entre Lula e Trump, para tratar de tarifas e divergências comerciais. Em 30 de setembro, houve outra reunião presencial em Milwaukee, com compromisso de criar grupo de trabalho para discutir possível acordo e troca de propostas sobre questões tarifárias e não tarifárias. Essas negociações precederam a votação decisiva de 25 de outubro. [14][15]

Essa cronologia não torna os eventos políticos irrelevantes. O resultado eleitoral modifica as expectativas sobre a equipe que assinará e implementará compromissos e pode alterar a disposição de negociação das partes. Mas impede sustentar, sem documentação adicional, que o diálogo comercial tenha começado como consequência da saída de Flávio em 28 de outubro. A agenda era preexistente, embora pudesse sofrer mudança de intensidade, conteúdo ou prioridade depois da eleição.

Cadeia de transmissão
  1. Investigação USTR em julho de 2025
  2. determinação comercial em junho de 2026
  3. tarifas selecionadas em julho de 2026
  4. grupo de trabalho de setembro de 2026
  1. Eleição brasileira de 25 de outubro
  2. vitória reconhecida pelo TSE
  3. saída de Flávio e acolhida americana relatada
  4. nova tensão diplomática
  1. Conexão causal entre acolhida e concessões minerais/Pix
  2. exige documento ou condicionalidade verificável
  3. não demonstrada nas evidências disponíveis

20. O episódio Flávio Bolsonaro: o que está documentado

Reportagens da Reuters de 27 e 28 de outubro descreveram a saída de Flávio Bolsonaro após derrota eleitoral e descumprimento de ordem judicial para entrega de passaportes, emitida no contexto de investigação que ele contesta. A cobertura relatou passagem pela Argentina e viagem rumo aos Estados Unidos. No dia 29, reportagem do New York Times, reproduzida pela Folha, atribuiu a autoridades americanas a informação de que Flávio e sua família haviam entrado nos EUA mediante parole humanitário, autorização migratória temporária. Em 30 de outubro, a Reuters noticiou que a administração Trump não tinha, naquele momento, plano de reconhecer a pretensão de Flávio de ser presidente eleito. [21][22][23][24]

É importante não apagar diferenças de natureza jurídica. Parole é forma de admissão temporária, não necessariamente asilo formal, status permanente ou reconhecimento de liderança política. A alegação do próprio Flávio de que teria vencido a eleição foi apresentada sem provas e não altera a proclamação do TSE. Sua contestação de procedimentos judiciais deve ser tratada como posição atribuída, não como comprovação de perseguição política ou de culpa criminal. [20][22][24]

A Reuters também registrou versões divergentes sobre a participação argentina na trajetória de saída, inclusive declarações não coincidentes de autoridades diplomáticas. Isso acrescenta uma dimensão regional e pode afetar as relações Brasil–Argentina, mas não constitui prova automática de uma operação multilateral de pressão sobre concessões comerciais. [25]

21. Por que a acolhida americana pode criar poder de barganha sem provar uma troca

A entrada de um candidato derrotado sob autorização de governo estrangeiro pode gerar custo político para relações bilaterais, influenciar discursos domésticos e mudar o cálculo de interlocutores. O país que acolhe pode escolher o grau de proteção e visibilidade concedidos; o país de origem pode adotar medidas diplomáticas ou judiciais. Essa assimetria cria possibilidades abstratas de barganha.

Contudo, há mais de uma explicação plausível. A Casa Branca poderia agir por solidariedade ideológica, razões migratórias declaradas, cálculo de apoio doméstico americano, tentativa de manter canais com a oposição brasileira ou desejo de preservar uma carta política. Também poderia considerar que apoiar uma contestação eleitoral não reconhecida prejudicaria sua própria negociação com um governo brasileiro que permanecerá no poder. A reportagem de 30 de outubro favorece a constatação desta última cautela naquele momento, sem excluir mudanças futuras. [23][24]

Transformar essa capacidade potencial de influência em afirmação de chantagem sobre terras raras exigiria documentação específica: referência explícita à família nas conversas comerciais; condicionamento de status migratório a acordo mineral; exigência de concessões em calendário ligado à crise; ou depoimentos convergentes e verificáveis. Nenhuma das fontes centrais examinadas estabelece tal troca. A hipótese pode ser investigada, mas não publicada como fato consumado.

22. Quais seriam as concessões materiais em uma barganha mineral

A cronologia da Serra Verde fornece um caso observado de barganha mineral materializada antes da eleição brasileira de outubro. Já existem crédito contratado, aquisição societária e compromissos sobre a produção. O debate não deve voltar ao tempo condicional para esses fatos: uma empresa americana concluiu a combinação com a operadora goiana, e um veículo capitalizado com apoio público americano contratou 100% do produto da Fase I por quinze anos. [34][36][37][38][39]

Outras concessões possíveis continuam em discussão: investimento em separação química no Brasil, transferência tecnológica, facilitação de novos financiamentos e licenciamento, acesso prioritário a outros depósitos, incorporação de fornecedores nacionais e cooperação em padrões ambientais. Essas possibilidades não devem ser confundidas com direitos já adquiridos pela USA Rare Earth na operação específica de Pela Ema.

O contrafactual brasileiro deve comparar três arranjos, sem pressupor a resposta: exportação contratada de MREC para processamento externo; instalação de plantas brasileiras de separação e refino com parceiros; e desenvolvimento gradual de uma cadeia de metalização e fabricação de ímãs. Em cada modalidade importa medir emprego qualificado, transferência de conhecimento, margens, receita tributária, estabilidade de demanda, riscos de preços e compromissos socioambientais.

Uma reserva em território brasileiro permanece sujeita às instituições e leis brasileiras, mas o controle societário e comercial da empresa que a explora pode situar-se fora do país. Essa diferença é central para a geoeconomia: concessão de lavra, ações da companhia, dívida garantida, contrato take-or-pay e propriedade do minério extraído são direitos distintos. Também torna inadequado afirmar que os EUA precisariam esperar uma fuga política em outubro para assegurar presença num ativo que já haviam adquirido em setembro. [38][39][40]

23. Incentivos internos do Brasil: políticas industriais e custos do desenvolvimento

A industrialização de terras raras requer energia competitiva, reagentes, licenciamento ambiental, escala de processamento, equipamentos, pesquisadores, engenheiros e compradores que aceitem certificar novos fornecedores. Há riscos socioambientais em mineração, rejeitos e processamento químico que precisam ser avaliados por projeto. Definir exigências ambientais robustas não é, por si só, oposição ao desenvolvimento; ignorar seus custos e prazos também pode inviabilizar investimentos necessários à diversificação industrial.

O argumento protecionista sustenta que exportar minério sem desenvolver processamento perpetua posições de menor valor agregado. O argumento liberal enfatiza que exigências excessivas podem impedir que qualquer projeto saia do papel e privar regiões de renda e infraestrutura. A comparação correta examina projetos alternativos, taxas de retorno, capacidade tecnológica, incentivos fiscais, riscos públicos e compromissos contratuais verificáveis. Não há uma fórmula única que sirva a toda jazida.

Uma política mineral vinculada exclusivamente a tensões com os EUA corre o risco de negligenciar interesse de investidores europeus, asiáticos e brasileiros. A diversificação de compradores pode melhorar a margem negociadora, mas contratos devem evitar prometer capacidades industriais inexistentes. O horizonte de construção de uma planta de separação não é o mesmo de um ciclo eleitoral.

24. O comércio com a China e a disputa sobre valor agregado

A presença chinesa na demanda por commodities brasileiras oferece receita, escala de produção, investimentos e oportunidades de exportação. Ao mesmo tempo, a concentração de compras numa grande economia pode elevar vulnerabilidades a mudanças de política, preço e padrões técnicos. A dependência relevante precisa ser mensurada por produto e etapa da cadeia: compradores de soja, fornecedores de fertilizantes, fabricantes de máquinas e refinadores de minerais não formam um único mercado. [27]

Em minerais estratégicos, um contrato com cliente chinês pode ser economicamente atrativo, mas também preservar o processamento fora do Brasil. Um contrato com cliente americano pode gerar outra estrutura de dependência. O objetivo de diversificação industrial exige mais do que escolher entre Washington e Pequim: necessita elevar capacidade nacional de participar de etapas tecnológicas lucrativas, inclusive com parceiros diferentes.

A geopolítica contemporânea não implica que todos os atores operem em dois campos fechados. A Índia negocia com ambas as potências e mantém interesses próprios, países europeus procuram diversificar cadeias e companhias privadas adquirem minerais segundo contratos e políticas de risco. O Brasil pode usar essa pluralidade para negociar, desde que monitore incompatibilidades de sanções, financiamento e exportação de tecnologia.

25. O Mercosul e as pressões regionais

A relação Brasil–Argentina é relevante tanto para integração industrial quanto para gestão diplomática. Uma controvérsia sobre a passagem de Flávio pela Argentina, na qual há versões contraditórias, pode agravar fricções políticas existentes sem necessariamente alterar regras comerciais do Mercosul. O bloco permanece uma união aduaneira incompleta, com instituições de consenso; ele não governa o status migratório de um parlamentar num terceiro país nem a decisão de um tribunal brasileiro. [25]

No plano econômico, negociações brasileiras com EUA sobre minerais e pagamentos coexistem com acordos e obrigações regionais de comércio. Um investidor pode comprar terras raras brasileiras sem que isso implique tarifa comum menor; já concessões gerais de importação a parceiros externos podem exigir coordenação dentro do Mercosul. Distinguir comércio de minerais, tarifas e política migratória evita apresentar todas as questões como um único acordo jurídico.

A pressão geoeconômica sobre o Brasil também pode ter repercussões para Paraguai e Uruguai, devido à infraestrutura de energia, logística e cadeias industriais. Entretanto, demonstrar tais efeitos exige dados de transporte, comércio intrabloco e investimento — não apenas proximidade entre governos.

26. Como avaliar a hipótese de pressão americana sem confundir correlação e causalidade

Dados da pesquisa
Dados da pesquisa
EvidênciaConstatação sustentadaAnálise que não se pode fazer automaticamente
USTR, investigação e tarifa em 2025–2026Disputa comercial formal, incluindo PixTarifa exclusivamente motivada por moeda dos BRICS
Documentação DFC, SPV e aquisição da Serra VerdeCrédito US$ 565 mi, 15 anos de offtake da Fase I e compra societária concluída em setembroTransferência automática de soberania sobre todas as reservas ou vínculo provado com a saída de Flávio
Grupo de trabalho comercial em setembroNegociação bilateral iniciada antes da eleiçãoAcordo de outubro exclusivamente causado pela fuga
Resultado do TSE em 25/10Vitória eleitoral oficial de LulaReconhecimento de Flávio como presidente alternativo
Entrada de Flávio nos EUA após 28/10Acolhida migratória relatada por múltiplas fontesCompromisso secreto já provado sobre Pix ou minerais
Declaração BRICS em setembroDiscussão sobre interoperabilidade e moedas locaisMoeda única BRICS aprovada ou Pix convertido em moeda global

Uma investigação de pressão deve buscar mecanismo, sequência e condicionalidade. Mecanismo identifica quem poderia fazer o quê: aplicar tarifa, condicionar crédito, restringir tecnologia, oferecer segurança migratória ou influenciar negociações. Sequência estabelece quando a decisão ocorreu, antes ou depois de cada evento político. Condicionalidade mostra o vínculo causal entre uma concessão e uma contrapartida. Se houver apenas proximidade de datas, a hipótese permanece inconclusiva.

Também é necessário formular explicações alternativas e observações capazes de contrariá-las. Se propostas americanas de minerais já existiam antes da eleição e da saída de Flávio, elas enfraquecem a tese de que a fuga originou o interesse mineral, embora não excluam barganhas posteriores. Se um acordo futuro não mencionar o episódio, isso não prova inexistência de pressão informal; mas impede afirmá-la como fato sem evidências independentes.

27. Quatro cenários para 2027–2030, sem probabilidades inventadas

Cenário A — negociação comercial pragmática. Brasil e EUA encontram ajustes setoriais em tarifas, concorrência, investimentos e cooperação mineral, sem alteração fundamental do Pix ou da postura brasileira nos BRICS. O teste seria um acordo publicamente verificável com obrigações claras, renovação dos canais diplomáticos e manutenção da infraestrutura de pagamentos.

Cenário B — competição financeira com interoperabilidade gradual. Os BRICS desenvolvem corredores de pagamento em moedas locais para contratos específicos; o dólar continua predominante em financiamento internacional e os participantes conservam autonomia monetária. O teste seria o volume efetivo liquidado por moedas e sistemas, não anúncios ou logotipos.

Cenário C — fragmentação e pressão cruzada. A disputa dos EUA com a China intensifica restrições de tecnologia e minerais, elevando custos para empresas brasileiras dependentes de mais de um mercado. O Brasil adapta contratos e políticas industriais. O teste seria a incidência de restrições concretas, mudanças de preço, interrupção de equipamentos e alteração da localização de investimentos.

Cenário D — crise política bilateral prolongada. O episódio de Flávio produz atritos adicionais, com contestações diplomáticas e acusações recíprocas, enquanto negociações comerciais se tornam mais lentas. O teste é a interrupção documentada de reuniões, convocação de diplomatas, decisões judiciais, medidas administrativas e comunicação explícita de vinculação entre as agendas.

Geoeconomia Brasil–EUA–BRICS
Pagamentos e moeda
  • Pix doméstico
  • Moedas locais no comércio
  • Gestão de câmbio e liquidez
Minérios críticos
  • Reservas brasileiras
  • Capacidade de separação e refino
  • Contratos de financiamento e compra
Diplomacia
  • Tarifas da Seção 301
  • Relações com China e Índia
  • Eleição e acolhida de Flávio
Futuros condicionais
  • Negociação pragmática
  • Interoperabilidade gradual
  • Fragmentação industrial
  • Crise diplomática prolongada

Nenhum cenário equivale a previsão eleitoral ou atribuição de intenção secreta a autoridades. O resultado dependerá de decisões futuras, respostas do Congresso, da Justiça, de empresas e de parceiros multilaterais.

28. Arquiteturas econômicas: o que é realmente capaz de reduzir dependência

A independência comercial plena é conceitualmente ilusória numa economia de produção distribuída. O objetivo operacional pode ser reduzir pontos de dependência de fornecedor único e aumentar opções confiáveis. Em pagamentos isso significa múltiplos canais, câmbio líquido e regras interoperáveis; em minerais, capacidade de extrair, separar, refinar, certificar e industrializar; em diplomacia, relações com mais de um parceiro; em finanças, acesso diversificado a crédito e proteção de balanços.

Autonomia não é sinônimo de isolamento. Produção doméstica de tudo seria cara e, em muitos setores, impossível. O Brasil pode aumentar poder negociador quando demonstra condições críveis de substituir determinado fornecedor ou preservar sua capacidade operacional durante uma crise. Reservas minerais sem refino, contratos em moedas locais sem proteção e discursos multilaterais sem mecanismos de execução produzem autonomia apenas formal.

O desenho institucional brasileiro precisa compatibilizar iniciativas do Banco Central, política industrial, ministérios econômicos, diplomacia, órgãos ambientais, fiscalização e controle público. As políticas de longo prazo devem continuar operacionais durante mudanças de governo. Segurança jurídica, transparência de contratos e prestação de contas são componentes de poder econômico, não obstáculos exteriores à soberania.

29. Indicadores de acompanhamento: o que permitiria mudar esta avaliação

Dados da pesquisa
Dados da pesquisa
IndicadorFonte ou documentação necessáriaMudança interpretativa possível
Volume de comércio BRICS liquidado fora do dólarDados de bancos centrais e documentos de compensaçãoMostrar substituição operacional, não apenas intenção
Taxas, tempo e falhas em pagamentos internacionaisDados por corredor e moedaMedir benefício real de interoperabilidade
Participação de empresas estrangeiras no PixRegulamento e dados de operadoresTestar alegação de discriminação por nacionalidade
Incidência tarifária dos EUA sobre bens brasileirosAtos de implementação USTR e alfândegaIdentificar setores efetivamente atingidos
Produção de óxidos separados e ímãs no BrasilProdução auditada, licenças e contratosDiferenciar minério de industrialização
Condições de financiamento e offtakeContratos DFC, concessionárias e investidoresIdentificar controle de comercialização e riscos públicos
Posição oficial americana sobre FlávioAtos migratórios e diplomáticos verificáveisDistinguir acolhida, asilo e reconhecimento político
Condicionalidade cruzada entre agendasMinutas, comunicados e relatos independentesTestar hipótese específica de pressão política

O valor desses indicadores é impedir que uma mudança narrativa seja confundida com transformação material. Uma reunião pode sinalizar prioridade, mas não demonstra investimento executado. Um documento de intenções pode anteceder licenças, financiamento e produção por anos. Um conflito diplomático pode dominar a imprensa sem modificar um único contrato comercial.

30. Síntese: o conflito pela infraestrutura da autonomia

Há competição objetiva por normas de pagamento, cadeias minerais, mercados e legitimidade diplomática. O BRICS oferece ao Brasil um fórum para negociar alternativas de financiamento e instrumentos de pagamentos, mas não dispõe de moeda comum aprovada. O Pix provou ser infraestrutura doméstica de escala expressiva e tornou-se objeto de acusações comerciais oficiais dos EUA; isso não faz dele substituto do dólar no mercado global. As reservas brasileiras constituem potencial estratégico, mas o caso Serra Verde mostra que o controle de empresas e offtakes já molda a cadeia antes mesmo da expansão industrial: sua aquisição por companhia americana ocorreu em setembro e sua Fase I está contratualmente vinculada por quinze anos. [1][7][10][16][17][36][38]

A reeleição de Lula em 25 de outubro e a saída de Flávio Bolsonaro acrescentaram tensão política real a relações Brasil–EUA que já continham tarifas, consultas e negociações minerais. Há evidências de atuação americana na acolhida migratória relatada por fontes jornalísticas; não há, nas fontes analisadas, prova direta de que Washington tenha condicionado essa acolhida a uma entrega de terras raras, mudança do Pix ou abandono de projetos BRICS. Aceitar a primeira constatação e recusar a segunda como fato não diminui a importância da investigação; delimita seu padrão de prova. [14][15][20][23][24]

O poder brasileiro dependerá, em larga medida, de como transforma esses conflitos em capacidades: eficiência regulatória sem exclusões arbitrárias, integração internacional segura de pagamentos, financiamento diversificado, exploração mineral com processamento competitivo e instrumentos diplomáticos capazes de preservar negociações mesmo sob divergência política. As disputas de 2026 mostram que autonomia é simultaneamente uma questão de dinheiro, tecnologia, contratos, instituições e controle democrático.

Método, categorias de evidência e restrições da análise

Fatos observados: atos do USTR, documentos do governo brasileiro, declaração BRICS de setembro, registros do Banco Central, TSE, tabelas USGS e instrumento de financiamento DFC. Posições atribuídas: alegações do USTR sobre discriminação, defesa brasileira, declarações de Lula e Flávio, declarações de representantes americanos e argentinos. Inferências condicionais: efeitos econômicos esperados de interoperabilidade, de diferentes contratos minerais e de pressões diplomáticas. Cenários: quatro alternativas sem atribuição de probabilidades.

As reportagens sobre deslocamento internacional de Flávio dependem de declarações de fontes e cobertura independente; atos migratórios completos não foram apresentados como publicamente disponíveis. O relatório técnico de terras raras traz estimativas para 2025, não contagem física de outubro de 2026. Os dados do BIS medem presença de moeda em transações cambiais e somam mais de 100% por envolverem dois lados; dados do Pix medem atividade nacional, não substituição de receitas internacionais. A documentação DFC, da Serra Verde, da USAR e da SEC comprova crédito e primeiro saque, acordo de compra e conclusão de aquisição societária em fases e datas distintas; esses fatos não autorizam generalização para todas as jazidas brasileiras. A causalidade entre o acolhimento de Flávio e concessões geoeconômicas permanece não demonstrada.

Referências e documentos de pesquisa

[1] Declaração de Nova Délhi, cúpula BRICS 2026, parágrafos 89–97: https://www.pmindia.gov.in/en/news_updates/brics-new-delhi-declaration-building-for-resilience-innovation-cooperation-and-sustainability-september-12-2026/

[2] Discurso e entrevista oficial de Lula, moedas regionais e BRICS, 2023: https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/entrevistas/entrevista-do-presidente-da-republica-luiz-inacio-lula-da-silva-em-ocasiao-da-reuniao-com-presidentes-dos-paises-da-america-do-sul

[3] Reuters, Lula esclarece ausência de proposta de moeda única no BRICS, 20 fev. 2026: https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2026/02/20/lula-defende-comercio-em-moeda-local-com-india.htm

[4] Agência Gov, posição do sherpa brasileiro sobre moeda comum, 2025: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202502/dirigente-brasileiro-no-brics-destaca-prioridades-no-bloco-e-desmistifica-criacao-de-nova-moeda

[5] BIS, pesquisa trienal de câmbio, abril de 2025: https://www.bis.org/media-releases/20250930-global-fx-trading-hits-96-trillion-day-april-2025-and-otc-interest-rate-derivatives-surge-79

[6] BIS, comentário de 2025 sobre participação do dólar e do renminbi: https://www.bis.org/publications/202509-commentary-otc-derivatives

[7] Banco Central do Brasil, Pix em números, setembro de 2026: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/estatisticaspix

[8] Banco Central do Brasil, histórico e desenho institucional do Pix: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/pix/perguntas-frequentes

[9] USTR, abertura da investigação comercial sobre o Brasil, 15 jul. 2025: https://ustr.gov/about/policy-offices/press-office/press-releases/2025/july/ustr-announces-initiation-section-301-investigation-brazils-unfair-trading-practices

[10] USTR, determinação de práticas contestadas, inclusive pagamentos, 1 jun. 2026: https://ustr.gov/about/policy-offices/press-office/press-releases/2026/june/ustr-section-301-determination-brazils-unreasonable-acts-policies-and-practices

[11] USTR, tarifa de 25% sobre determinados bens brasileiros, 15 jul. 2026: https://www.ustr.gov/about/policy-offices/press-office/press-releases/2026/july/ustr-section-301-action-brazils-unreasonable-acts-policies-and-practices

[12] USTR, ficha de fatos sobre sistemas de pagamento e Pix, 2026: https://ustr.gov/node/14362

[13] Agência Brasil, cobertura do argumento americano sobre Pix, 2 jun. 2026: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-06/eua-atacam-pix-para-favorecer-empresas-de-pagamentos-estadunidenses

[14] MRE e MDIC, posição brasileira sobre tarifas e diálogo, 31 ago. 2026: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2026/agosto/retomada-do-dialogo-comercial-brasil-eua-2013-nota-conjunta-mre-mdic/

[15] MDIC, reunião de negociação comercial com USTR, 30 set. 2026: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2026-periodo-eleitoral/setembro/reuniao-presencial-brasil-eua-sobre-temas-comerciais

[16] USGS, Mineral Commodity Summaries 2026, ficha de terras raras atualizada na versão 1.3 de maio (11 Mt REO para Brasil): https://pubs.usgs.gov/periodicals/mcs2026/mcs2026-rare-earths.pdf

[17] IEA, Global Critical Minerals Outlook 2026, sumário executivo: https://www.iea.org/reports/global-critical-minerals-outlook-2026/executive-summary

[18] DFC, notificação do financiamento SVRE/Pela Ema, US$ 465 milhões, 2025: https://www.dfc.gov/sites/default/files/media/documents/Board%20Notational%20Vote%20Notification%20%28August%2012%2C%202025%29.pdf

[19] Reuters, eleição e tarifas/minerais críticos no Brasil, 9 out. 2026: https://www.reuters.com/world/americas/brazil-election-reshape-trade-with-us-with-tariffs-minerals-stake-2026-10-09/

[20] TSE, proclamação do resultado presidencial de 25 out. 2026: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/presidente-do-tse-anuncia-reeleicao-de-lula-e-faz-balanco-do-2o-turno-das-eleicoes-2026

[21] Reuters, saída de Flávio, decisão judicial e vistos americanos, 27 out. 2026: https://www.reuters.com/world/americas/brazil-wonders-where-earth-is-flavio-bolsonaro-2026-10-27/

[22] Reuters, Flávio se declara presidente eleito sem provas, 28 out. 2026: https://www.reuters.com/world/americas/flavio-bolsonaro-declares-himself-rightful-president-elect-brazil-2026-10-28/

[23] The New York Times via Folha, Flávio nos EUA sob parole, 29 out. 2026: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/flavio-bolsonaro-teve-ajuda-de-trump-e-do-governo-americano-para-fugir-para-os-estados-unidos.shtml

[24] Reuters, governo Trump sem plano atual de endossar pretensão de Flávio, 30 out. 2026: https://www.reuters.com/world/americas/trump-not-planning-back-bolsonaros-ativo ou direito financeiro-be-brazils-leader-sources-say-2026-10-30/

[25] Reuters, divergências sobre participação argentina na saída de Flávio, 30 out. 2026: https://www.reuters.com/world/americas/brazil-summons-argentine-diplomat-over-role-bolsonaros-flight-us-sources-say-2026-10-30/

[26] Congressional Research Service, relações Brasil–EUA, versão 29 out. 2026: https://www.everycrsreport.com/files/2026-10-29_R46236_423f4844cafb269256f325c62aa917910f1254d1.html

[27] Reuters, commodities brasileiras, minerais e comércio com China após eleição, 29 out. 2026: https://www.reuters.com/world/china/soy-rare-earths-fuels-how-brazil-vote-impacts-global-flow-resources-2026-10-29/

[28] Reuters, estudo de pagamentos BRICS+ e obstáculos à moeda comum, 30 out. 2026: https://www.reuters.com/world/africa/brics-payments-system-feasible-common-currency-faces-hurdles-report-says-2026-10-30/

[29] Banco Central, condução da trilha financeira do BRICS e pagamentos transfronteiriços, 2025: https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/20532/noticia

[30] MRE, discurso de Mauro Vieira sobre instituições monetárias e BRICS, 7 fev. 2025: https://www.gov.br/mre/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/discursos-artigos-e-entrevistas/ministro-das-relacoes-exteriores/discursos-mre/mauro-vieira/discurso-ministro-mauro-vieira-outorga-do-premio-fundacao-getulio-vargas-rio-de-janeiro-07-de-fevereiro-de-2025

[31] IEA, versão 2026 do relatório de minerais críticos com enfoque na América Latina: https://www.iea.org/reports/global-critical-minerals-outlook-2026

[32] Reuters, discursos de Lula na cúpula BRICS, agosto 2023: https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2023/08/24/lula-sauda-expansao-do-brics-e-diz-que-bloco-criou-grupo-para-estudar-moeda-de-referencia.htm

[33] USGS, histórico de versões das Mineral Commodity Summaries 2026 (v1.3 revisada em 27 maio): https://pubs.usgs.gov/publication/mcs2026

[34] Serra Verde, comunicado de financiamento DFC de US$ 565 milhões (5 fevereiro 2026): https://www.serraverde.com/2026/02/serra-verde-secures-us565-million-financing-from-us-international-development-finance-corporation/

[35] SEC, documentação de crédito DFC, saque de US$ 325 milhões e acordo de fornecimento: https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1970622/000121390026055508/ea0290028-01.htm

[36] Serra Verde, offtake de quinze anos, preços pisos e capitalização SPV (24 agosto): https://www.serraverde.com/2026/08/serra-verde-announces-finalization-of-us-government-offtake-agreement-with-mrec-deliveries-to-commence-by-this-year/

[37] USA Rare Earth, capitalização e compromissos do SPV US$ 1,55 bilhão (24 agosto): https://investors.usare.com/news-releases/news-release-details/usa-rare-earth-nasdaq-usar-announces-completion-upsized-155

[38] USA Rare Earth, fechamento da combinação com Serra Verde em 3 setembro: https://investors.usare.com/news-releases/news-release-details/usa-rare-earth-completes-combination-serra-verde-group

[39] SEC, registro de transação concluída com US$ 300 milhões e 126,85 milhões de ações: https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1970622/000121390026097756/ea0304148-s3_usarare.htm

[40] Cade, apuração de combinação societária e contrato de fornecimento (11 maio): https://www.gov.br/cade/pt-br/assuntos/noticias/cade-apura-acordos-de-combinacao-e-de-fornecimento-em-terras-raras

Autoria

Christian Rafael de Souza Silva

Autor · Pesquisador · Marginal Thinking · LOGV Research

christian@marginalthinking.org
Como citar

Silva, Christian Rafael de Souza. “BRICS, Pix e terras raras: o Brasil entre a autonomia monetária, a competição dos EUA com a China e a crise política de 2026.” Marginal Thinking / LOGV Research, 2026-10-30.

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