Corte de evidências: 20 de setembro de 2026. A ordem de segurança europeia do pós-Guerra Fria passou de uma tentativa de acomodação institucional para uma estrutura duradoura de guerra, dissuasão e rearmamento. A reconstrução abaixo distingue responsabilidade jurídica, sequência histórica, percepções dos atores, capacidade material e explicações concorrentes.
O confronto atual resultou da acumulação de processos distintos: a Ucrânia consolidou-se como Estado independente e buscou progressivamente maior integração com instituições ocidentais; a OTAN se ampliou enquanto sustentava que Estados soberanos podiam escolher seus alinhamentos; governos russos passaram a tratar cada vez mais a ordem do pós-Guerra Fria e o deslocamento da OTAN para o leste como adversos à segurança e ao status da Rússia; a estrutura cooperativa OTAN–Rússia perdeu credibilidade; a ruptura de 2014 transformou divergência institucional em conflito territorial; e a invasão russa em larga escala de 2022 alterou segurança europeia, identidade ucraniana, planejamento militar, prioridades fiscais e política industrial.
Responsabilidade jurídica e reconstrução causal são questões distintas. A Assembleia Geral da ONU adotou a Resolução ES-11/1 em março de 2022 sob o título Agressão contra a Ucrânia, por 141 votos a 5 e 35 abstenções. Explicar as condições históricas que antecederam a invasão não transfere a responsabilidade pela decisão de usar a força para os países, instituições ou populações que fizeram parte dessa história.
O sistema não começou em 2022
A Ucrânia restabeleceu sua independência em 1991 e estabeleceu relações formais com a OTAN no mesmo ano. Em 1994 aderiu à Parceria para a Paz. Também em 1994, Ucrânia, Rússia, Estados Unidos e Reino Unido assinaram o Memorando de Budapeste no contexto da adesão ucraniana ao Tratado de Não Proliferação Nuclear. Esses arranjos pertenciam a um momento em que a segurança pós-soviética ainda parecia poder ser construída em torno de instituições sobrepostas, e não de blocos hostis fixos.
Em 1997, OTAN e Rússia assinaram o Ato Fundador sobre Relações Mútuas, Cooperação e Segurança. O texto afirmava que não se consideravam adversários e as comprometia com uma paz euro-atlântica inclusiva. Ao mesmo tempo, preservava a independência decisória de ambos e não concedia à Rússia veto sobre decisões da OTAN ou sobre futuras adesões.
A combinação entre liberdade soberana de alinhamento e ausência de veto russo produziu uma tensão estrutural. A ordem emergente defendia simultaneamente o direito soberano dos Estados de escolher seus arranjos de segurança e tentava integrar a Rússia sem lhe conceder controle sobre o alinhamento dos países vizinhos. Para muitos países da Europa Central e Oriental, a adesão à OTAN respondia às próprias experiências históricas e preferências de segurança. Para dirigentes russos, a ampliação passou cada vez mais a simbolizar uma ordem na qual Moscou tinha menos influência sobre o ambiente de segurança europeu do que esperava depois da Guerra Fria.
A tensão ficou explícita na Cúpula de Bucareste da OTAN, em 2008. Os aliados concordaram que Ucrânia e Geórgia se tornariam membros da OTAN, sem conceder naquele encontro um Plano de Ação para Adesão. Em 2010, a OTAN respeitou explicitamente a então política ucraniana de não alinhamento, mantendo ao mesmo tempo a decisão de Bucareste e o princípio de portas abertas. Isso produziu uma condição intermediária incomum: a adesão havia sido prometida politicamente em princípio, mas não estava programada operacionalmente, enquanto a própria Ucrânia oscilava entre não alinhamento e integração euro-atlântica conforme mudava a política doméstica.
| Ponto de inflexão | Mudança institucional observável | Por que importa para o sistema |
|---|---|---|
| 1991 | Independência ucraniana e relações formais com a OTAN | A Ucrânia passa a ser ator autônomo de segurança, não uma unidade administrativa soviética |
| 1994 | Parceria para a Paz e Memorando de Budapeste | Desarmamento nuclear e garantias de segurança entram na ordem pós-soviética |
| 1997 | Ato Fundador OTAN–Rússia | Cooperação e liberdade soberana de escolha são institucionalizadas ao mesmo tempo |
| 2008 | Declaração de Bucareste | A OTAN afirma que Ucrânia e Geórgia se tornarão membros, sem calendário |
| 2010 | Política ucraniana de não alinhamento é respeitada | O alinhamento permanece politicamente reversível enquanto a porta da OTAN continua aberta |
| 2014 | Crimeia é anexada pela Rússia e começa a guerra no Donbas | A disputa sobre a ordem torna-se territorial e militar |
| 2022 | Rússia lança invasão em larga escala | A segurança europeia passa de ordem contestada para guerra prolongada de alta intensidade |
| 2025–2026 | OTAN e países da UE elevam compromissos de defesa de longo prazo | A guerra passa a integrar planejamento fiscal, industrial e de infraestrutura |
Agência ucraniana e escolha de alinhamento
Análises centradas somente em Washington e Moscou podem apagar a agência ucraniana. A orientação de segurança da Ucrânia foi moldada por competição política doméstica, diferenças regionais, reforma institucional, experiências de coerção e guerra e mudanças na avaliação pública sobre quais arranjos externos poderiam proteger a soberania.
A posição de não alinhamento de 2010 mostra que o alinhamento ucraniano não ficou mecanicamente determinado depois da independência. A mudança posterior também não pode ser entendida apenas como um projeto externo: a tomada da Crimeia pela Rússia e o conflito armado iniciado em 2014 alteraram, dentro da Ucrânia, os custos percebidos da neutralidade e o significado de garantias de segurança. A invasão de 2022 intensificou esse processo.
O mesmo movimento institucional assumiu significados diferentes para os atores envolvidos. A OTAN pode compreender sua ampliação como adesão voluntária de Estados soberanos; formuladores de política russos podem interpretar o mesmo movimento institucional como deterioração de seu ambiente de segurança; ucranianos podem interpretar a integração como proteção contra coerção. Essas percepções não são logicamente equivalentes e não resolvem o status jurídico do uso da força, mas todas podem influenciar comportamento.
Rússia e a ordem de segurança europeia do pós-Guerra Fria
O conflito russo com a arquitetura de segurança europeia não pode ser reduzido a uma reação isolada a uma declaração de cúpula. A disputa envolve a distribuição de influência depois da dissolução soviética, o status da Rússia como grande potência, a geografia militar da Europa, a orientação política de Estados vizinhos pós-soviéticos e as regras que definem quem pode influenciar essas escolhas.
O Ato Fundador de 1997 demonstra que o confronto não era predeterminado: OTAN e Rússia formalizaram uma estrutura de cooperação. A deterioração posterior decorreu de mudanças em expectativas, ações e instituições, e não de uma hostilidade institucional permanente desde o início do período.
Segurança e controle sobre o ambiente de segurança são categorias analiticamente distintas. Um Estado pode buscar proteção contra ameaças militares; também pode buscar influência sobre o alinhamento externo de Estados vizinhos. Os dois objetivos podem aparecer juntos no discurso político, mas são analiticamente diferentes. O Ato Fundador preservava a independência decisória de OTAN e Rússia e reafirmava princípios de soberania. As disputas posteriores expuseram cada vez mais a incompatibilidade entre um sistema de alianças aberto à adesão e uma concepção russa de segurança que atribui grande importância à orientação estratégica dos países próximos.
Divergências de segurança entre aliados ocidentais
"O Ocidente" encobre diferenças relevantes. Estados Unidos, Alemanha, França, Polônia, Estados bálticos e Reino Unido não compartilham exatamente as mesmas memórias históricas, exposição geográfica, capacidades militares, relações econômicas com a Rússia ou preferências sobre autonomia estratégica europeia.
Para Polônia e região báltica, experiência histórica e proximidade geográfica tornam o poder militar russo uma variável mais imediata de segurança nacional. A Alemanha entrou na crise com conexões energéticas e comerciais mais profundas com a Rússia e uma cultura estratégica do pós-guerra que impunha limites maiores ao uso do poder militar. A França combina há décadas participação na OTAN com interesse em capacidade estratégica europeia. Os Estados Unidos fornecem capacidades que os Estados europeus ainda têm dificuldade de reproduzir rapidamente, ao mesmo tempo em que pressionam a Europa a assumir parcela maior do ônus de defesa.
As diferenças entre aliados influenciam sanções, política energética, produção de armamentos, postura de forças, regras fiscais e a durabilidade política do apoio à Ucrânia.
Interpretações concorrentes sobre a deterioração do pós-Guerra Fria
Cinco famílias interpretativas explicam dimensões diferentes da mesma trajetória histórica e produzem diagnósticos causais parcialmente sobrepostos.
| Lente interpretativa | O que ajuda a explicar | O que pode perder quando usada sozinha |
|---|---|---|
| Soberania e ordem jurídica | Por que integridade territorial, não uso da força e liberdade de alinhamento são centrais para Ucrânia e Estados da OTAN | Por que atores ainda podem perceber mudanças institucionais formalmente legítimas como ameaçadoras |
| Dilema de segurança / realismo | Como ampliação, geografia militar e incerteza podem gerar percepções recíprocas de ameaça | Agência ucraniana, direito internacional e mudança política doméstica |
| Esfera de influência / política de status | Por que a política russa atribui peso incomum aos Estados vizinhos e ao reconhecimento como grande potência | Preocupações de segurança que não podem ser reduzidas a prestígio ou preferência imperial |
| História institucional e dependência de trajetória | Como escolhas contingentes dos anos 1990 e 2000 se acumularam em uma ordem menos cooperativa | Decisões militares imediatas e ideologia nos momentos de ruptura |
| Construção nacional e identidade social | Por que a guerra pode alterar identidades públicas russas e ucranianas, percepção de ameaça e disposição para arcar com custos | Restrições materiais como munição, finanças, demografia e capacidade industrial |
Not One Inch, de M. E. Sarotte, é especialmente útil para a quarta lente porque reconstrói os anos 1990 com material de arquivo e entrevistas, mostrando como Estados Unidos, OTAN e Rússia se moveram de uma possível parceria para um impasse. Seu valor não está em fornecer um veredito único, mas em tornar a sequência de decisões difícil de reduzir a slogans.
A posição de Henry Kissinger sobre a Ucrânia mudou de forma material ao longo do conflito. Em artigo de 2014 no Washington Post, ele argumentou que a Ucrânia deveria funcionar como ponte, e não como posto avançado de um lado contra o outro, e se opôs à entrada ucraniana na OTAN. Em janeiro de 2023, depois da invasão em larga escala, afirmou publicamente que a adesão da Ucrânia à OTAN havia se tornado um desfecho apropriado porque uma Ucrânia neutra já não tinha o mesmo significado. A mudança acompanha uma alteração material do ambiente estratégico: a invasão em larga escala reduziu a viabilidade política e militar da neutralidade que Kissinger havia defendido em 2014.
Ordem Mundial, de Kissinger, fornece uma lente mais ampla. Uma de suas preocupações centrais é a coexistência de concepções distintas de ordem legítima e a necessidade de compatibilidade mínima entre distribuição de poder e regras aceitas. Na segurança europeia, essa lente chama atenção para o conflito entre princípios de soberania, expectativas de influência regional e diferentes concepções sobre quem possui autoridade legítima para definir arranjos de segurança.
Psicologia política: percepções coletivas e atitudes mensuráveis
O conflito transforma a população que o vivencia. Também modifica aquilo que sociedades consideram plausível, ameaçador ou tolerável. A camada psicológica relevante é, portanto, coletiva e observável: percepção de ameaça, memória histórica, identidade, confiança, expectativas e tolerância a custos.
As pesquisas de 2026 revelam combinações de atitudes que não cabem em categorias binárias como "pró-guerra" e "pró-paz".
O KIIS entrevistou 974 adultos residentes em território controlado pelo governo ucraniano entre 20 de julho e 3 de agosto de 2026. O instituto informa explicitamente que a amostra exclui moradores de territórios fora do controle governamental e cidadãos que deixaram o país depois de 24 de fevereiro de 2022. Sessenta por cento consideraram absolutamente inaceitável retirar tropas das áreas do Donbas ainda controladas pela Ucrânia em troca de garantias de segurança dos EUA e da Europa. Ao mesmo tempo, 59% disseram que poderiam aceitar um cessar-fogo na linha de frente atual se os territórios ocupados não fossem reconhecidos internacionalmente como russos e a Ucrânia recebesse amplo apoio financeiro e militar. Sessenta e um por cento disseram estar dispostos a suportar a guerra pelo tempo necessário.
A pesquisa russa do Levada Center de maio de 2026, realizada com 1.607 adultos em 137 localidades, encontrou 74% de apoio às ações das forças armadas russas na Ucrânia. Ao mesmo tempo, aproximadamente seis em cada dez defendiam avançar para negociações de paz e 30% preferiam continuar as operações militares. Cinquenta e quatro por cento consideravam possível que a situação evoluísse para conflito armado entre Rússia e países da OTAN.
Os resultados descrevem populações, ambientes políticos e desenhos amostrais diferentes e, por isso, não são diretamente combináveis em um único índice. Ainda assim, evidenciam que apoio ao próprio lado, preferência por negociação, rejeição de concessões territoriais e temor de escalada podem coexistir dentro da mesma sociedade.
| Atitude medida | Ucrânia — KIIS, jul–ago 2026 | Rússia — Levada, mai 2026 | Cuidado metodológico |
|---|---|---|---|
| Apoio ao próprio lado / resistência continuada | 61% dispostos a suportar pelo tempo necessário | 74% apoiam as ações das forças armadas russas | As perguntas não são equivalentes |
| Preferência por mecanismo negociado de interrupção | 59% aceitariam cessar-fogo na linha atual com apoio de segurança | cerca de 60% defendem avançar para negociações | Os termos propostos são diferentes |
| Preocupação de segurança mais ampla | garantias de segurança são centrais nos dois cenários testados | 54% veem conflito Rússia–OTAN como possível | Os indicadores medem conceitos diferentes |
| Sensibilidade a concessão territorial | 60% rejeitam retirada da parte controlada do Donbas | não medido na pesquisa citada | Não existe comparação bilateral válida |
- dissolução soviética
- guerras e ocupações anteriores
- expectativas do pós-Guerra Fria
- soberania
- pertencimento nacional
- relação com Europa e Rússia
- proximidade militar
- perda territorial
- ampliação de alianças
- medo de guerra mais ampla
- baixas
- deslocamento
- inflação e tributação
- mobilização
- narrativas oficiais
- mídia independente e redes sociais
- censura e propaganda de guerra
- território
- garantias de segurança
- reconhecimento
- futuro status de alianças
Não existe uma "psicologia nacional" unitária. O que pode ser observado são distribuições de percepção de ameaça, identidade, confiança, expectativas e tolerância a custos, com variação entre grupos sociais e ao longo do tempo.
A guerra reorganizou a economia política europeia
Em 2026, o conflito deixou de ser apenas um tema de política externa. Ele está incorporado a orçamentos, política industrial, sistemas energéticos, infraestrutura e alocação de trabalho na Europa.
Dados da Agência Europeia de Defesa mostram o gasto de defesa da UE subindo de €343 bilhões em 2024 para €418 bilhões em 2025, com €454 bilhões projetados para 2026. O compromisso assumido pela OTAN em Haia, em 2025, vai além: os aliados aceitaram uma trajetória para 5% do PIB até 2035, com pelo menos 3,5% para requisitos centrais de defesa e até 1,5% para investimentos mais amplos relacionados a defesa e segurança, como infraestrutura crítica, resiliência e base industrial de defesa.
Ver dados
| Indicador / período | Valor (EUR bilhões) |
|---|---|
| 2024 | 343 |
| 2025 | 418 |
| 2026 projetado | 454 |
O efeito econômico não é simplesmente "mais gasto militar". Recursos mudam de uso. Compras de defesa podem elevar capacidade industrial, P&D e emprego, mas também competem por espaço fiscal, trabalho qualificado, metais, eletrônicos, energia, infraestrutura de transporte e capital. O resultado depende de o equipamento ser produzido domesticamente ou importado, de o gasto ser financiado por dívida ou tributação e de a nova capacidade produtiva gerar ou não efeitos civis.
O World Economic Outlook de abril de 2026 do FMI dedica capítulos separados a gasto de defesa e à macroeconomia dos conflitos e da recuperação. A análise internacional destaca que guerras produzem perdas persistentes de produto nas economias onde os combates ocorrem e efeitos sobre outros países, enquanto as consequências macroeconômicas do gasto militar variam com financiamento e alocação. Na Europa, o gasto de segurança funciona simultaneamente como insumo estratégico e como realocação político-econômica.
Reconstrução e deslocamento ucranianos como variáveis estruturais europeias
Banco Mundial, governo ucraniano, Comissão Europeia e Nações Unidas estimaram em fevereiro de 2026 que as necessidades de reconstrução e recuperação da Ucrânia, medidas até 31 de dezembro de 2025, alcançavam quase US$ 588 bilhões ao longo da década seguinte — quase três vezes o PIB nominal ucraniano estimado para 2025.
O deslocamento populacional é igualmente estrutural. O Eurostat registrava, no fim de julho de 2026, 4,43 milhões de cidadãos de países não pertencentes à UE que haviam fugido da Ucrânia e mantinham status de proteção temporária na União Europeia. A Alemanha acolhia aproximadamente 1,29 milhão e a Polônia cerca de 953 mil. Quase 29,4% dos beneficiários eram menores de idade.
O deslocamento ucraniano produz efeitos que ultrapassam os orçamentos humanitários, alcançando oferta de trabalho, escolas, habitação, finanças municipais, serviços linguísticos, política de integração, remessas, demografia e as condições futuras de retorno e reconstrução. Os sistemas sociais de Alemanha e Polônia integram diretamente o mecanismo de transmissão da guerra por meio de mercado de trabalho, habitação, educação, finanças locais e política de integração.
- Guerra em larga escala
- destruição e insegurança
- deslocamento + necessidade de reconstrução
- habitação, escolas, mercados de trabalho e sistemas fiscais europeus
- adaptação política e social
- Guerra + percepção de ameaça de longo prazo
- compromissos maiores de defesa
- demanda por compras + infraestrutura + P&D
- capacidade industrial e realocação de trabalho
- novos trade-offs fiscais e políticos
- Sanções + resposta de segurança energética
- mudança em comércio e fornecimento
- investimento em substituição, estoques, infraestrutura e novos fornecedores
- novas dependências e estruturas de custo
Da segurança cooperativa à dissuasão
A transformação mais importante é institucional. Em 1997, o objetivo declarado era uma relação OTAN–Rússia na qual nenhum dos lados considerava o outro adversário. Em 2025–2026, a arquitetura de planejamento e gasto da OTAN trata explicitamente o ambiente de segurança como exigindo capacidade de defesa muito maior e de longo prazo, enquanto a Rússia segue envolvida na guerra na Ucrânia.
A transição apresenta forte dependência de trajetória. Quando governos constroem forças, fábricas, corredores logísticos, estoques e compromissos fiscais em torno de uma ameaça de longo horizonte, esses investimentos criam capacidades, expectativas e grupos interessados que sobrevivem a episódios diplomáticos individuais. O mesmo vale para adaptação a sanções, instituições militares ucranianas e produção russa de guerra. Um cessar-fogo poderia interromper determinadas formas de combate sem restaurar automaticamente as condições institucionais dos anos 1990.
A escalada não é inevitável, mas a desescalada depende de mudanças que ultrapassam o campo de batalha, incluindo expectativas estratégicas, instituições e mecanismos de segurança.
Trajetórias de escalada e mecanismos de contenção
Uma contagem regressiva única ou uma probabilidade percentual sem modelo empírico não descreve adequadamente o risco de confronto OTAN–Rússia. A escalada pode ser decomposta em mecanismos observáveis que aproximam ou afastam o sistema de um choque direto.
- Incidente militar envolvendo forças russas e da OTAN
- atribuição e resposta inicial
- consulta da aliança + proteção de forças
- decisão sobre retaliação
- contenção OU escalada recíproca
- Cessar-fogo ou acordo negociado
- mecanismos de monitoramento e cumprimento
- redução do contato operacional
- restauração de comunicação militar
- menor risco de erro de cálculo
- Rearmamento de longo prazo
- forças + estoques + infraestrutura maiores
- dissuasão mais forte, mas maior proximidade militar
- resultado depende de doutrina, comunicação, implantação e gestão de crise
Indicadores individuais podem produzir efeitos opostos. Capacidade militar adicional pode elevar a dissuasão ao aumentar o custo de um ataque, mas mobilizações e exercícios também podem elevar proximidade, ambiguidade e oportunidades de incidentes. A avaliação de escalada pode ser desagregada em postura convencional, sinalização nuclear, consulta de alianças, comunicação diplomática, controle de armas, incidentes cibernéticos e espaciais, mobilização industrial e expectativas públicas.
Condições que alterariam o quadro atual
Algumas observações exigiriam revisar a interpretação atual de uma ordem de segurança militarizada e duradoura:
- um acordo político sustentado, com implementação e monitoramento críveis, que reduza materialmente o contato operacional Rússia–OTAN;
- restauração de mecanismos duradouros de controle de armas e redução de risco militar;
- reversão sustentada das premissas de planejamento de forças e da expansão industrial de defesa nos principais Estados europeus;
- mudanças significativas nas percepções públicas russas e ucranianas de ameaça, sustentadas por evidências longitudinais comparáveis;
- um arranjo institucional que concilie soberania e segurança ucranianas com uma estrutura europeia de segurança mais estável.
No sentido oposto, incidentes diretos que superem mecanismos de contenção, nova erosão de arranjos de controle de armas, expansão de operações para território reconhecido de aliança ou institucionalização adicional da produção de guerra de longo prazo reforçariam a avaliação de que o conflito está incorporado ao sistema europeu.
Questões estruturais ainda em aberto
A durabilidade do novo ciclo europeu de rearmamento dependerá de financiamento, capacidade industrial, disponibilidade de trabalho qualificado, estoques, infraestrutura e continuidade política. Um cessar-fogo, por si só, não determina se esses investimentos serão revertidos ou incorporados de forma permanente ao planejamento de defesa.
A legitimidade de um acordo dentro da Ucrânia continuará condicionada por território, garantias de segurança, reconstrução, retorno de deslocados e expectativas sobre futuras relações com a Rússia e com instituições euro-atlânticas. Na Rússia, a evolução das percepções de ameaça, dos custos econômicos e das expectativas sobre a OTAN também seguirá influenciando o espaço político para acomodação ou prolongamento do confronto.
O terceiro eixo permanece institucional: sem mecanismos estáveis de comunicação militar, controle de armas, verificação e gestão de incidentes, uma redução da intensidade dos combates pode coexistir com um ambiente estratégico ainda militarizado e vulnerável a novas crises.
Fontes e notas metodológicas
Fontes primárias e institucionais:
- United Nations Treaty Collection — Memorando de Budapeste (5 de dezembro de 1994)
- OTAN — Relações com a Ucrânia: cronologia
- OTAN — Ato Fundador sobre Relações Mútuas, Cooperação e Segurança com a Rússia (1997)
- OTAN — Declaração da Cúpula de Bucareste (2008)
- OTAN — Declaração da Cúpula de Lisboa (2010)
- Assembleia Geral da ONU — ES-11/1, Agressão contra a Ucrânia
- Agência Europeia de Defesa — gastos de defesa 2025–2026
- OTAN — investimento em defesa e compromisso de 5%
- Banco Mundial — RDNA5 da Ucrânia, fevereiro de 2026
- Eurostat — 4,43 milhões sob proteção temporária em julho de 2026
- FMI — World Economic Outlook, abril de 2026
Fontes de opinião pública não são tratadas como equivalentes:
- Kyiv International Institute of Sociology — atitudes sobre guerra e paz, julho–agosto de 2026
- Levada Center — conflito com a Ucrânia, maio de 2026
Fontes interpretativas:
- Henry Kissinger — “How the Ukraine crisis ends”, Washington Post, 2014
- Henry Kissinger — *World Order*, descrição da editora
- M. E. Sarotte — *Not One Inch*, Yale University Press
- Posição de Kissinger em Davos, em 2023, sobre adesão ucraniana à OTAN, registro contemporâneo
A base empírica é mais sólida para decisões institucionais datadas, gasto público e resultados de pesquisas de opinião. O peso causal relativo da ampliação da OTAN, das preferências russas de status e segurança, da agência doméstica ucraniana, das falhas institucionais pós-soviéticas e de outros fatores de longo prazo permanece disputado na literatura e depende de análise histórica.