Pesquisa independente · LOGV ResearchArquivo
Global Macro · Diário

Global Macro — Queda do petróleo e alívio dos Treasuries não eliminam a inflação persistente nem a restrição monetária

Brent recua 8,67%, Treasury de dez anos cede a 4,90% após eleições americanas, mas inflação europeia atinge 4,0%, serviços dos EUA seguem pressionados e Copom mantém Selic em 13,75%.
Contexto
Descompressão financeira condicional após eleição parlamentar americana, com recuo acentuado do petróleo e dos juros longos, mas inflação resistente na Europa, pressão de preços em serviços dos EUA e política monetária restritiva no Brasil.
Risco principal
Confundir alívio dos futuros geopolíticos e alta diária das bolsas com normalização física da energia, desinflação duradoura ou política fiscal já implementada.
Indicadores principais
Payroll oficial americano de outubro previsto para 6 de novembro · Entregas físicas de petróleo, Ormuz e seguros marítimos · Revisões do HICP europeu e transmissão de energia · Preços pagos em serviços nos EUA e spreads de crédito · Expectativas Focus, execução fiscal e curva de juros brasileira
EXPLORAR PESQUISA

5 de novembro de 2026 · Edição da madrugada, horário de Brasília · Corte das informações: 01h58 BRT (04h58 UTC). Os preços financeiros citados são fechamentos de quarta-feira, 4 de novembro, e os indicadores econômicos são identificados pelo seu mês de referência. O pregão de 5 de novembro ainda não havia terminado — e, na maior parte das Américas, sequer começado — no horário de corte. [1][2][3]

A quarta-feira produziu um movimento expressivo: o petróleo Brent caiu 8,67%, para US$ 94,62 por barril; o Treasury norte-americano de dez anos recuou de 4,95% para 4,90%; o Dow Jones avançou 3,03%, enquanto o Ibovespa brasileiro recuperou 1,23%, aos 167.563,47 pontos. A mudança de direção sucedeu a vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas americanas, que passou a controlar as duas casas do Congresso. Os mercados passaram a atribuir maior probabilidade a fiscalização e negociação sobre o conflito com o Irã, mas uma nova composição parlamentar não equivale a cessar-fogo, trânsito marítimo reestabelecido ou mudança executiva já promulgada. [1][2][3][4]

O movimento financeiro, entretanto, não anulou as evidências de pressão inflacionária. O Eurostat estimou inflação de 4,0% em outubro na zona do euro, contra 3,8% em setembro, com alta anual de 20,8% para energia. Nos Estados Unidos, o índice ISM de serviços marcou 54,5 — expansão da atividade, mas preços pagos em 73,0. No Brasil, o Copom manteve unanimemente a Selic em 13,75%, interrompendo cinco reduções consecutivas. A tese central desta edição é a coexistência de alívio de preços financeiros sensíveis à geopolítica com persistência de custos, expectativas e restrições de financiamento. [5][6][7]

1. Quadro de indicadores: o que de fato foi observado

Dados da pesquisa
Dados da pesquisa
IndicadorFechamento ou mês de referênciaInterpretação e limite
Petróleo Brent4/11: US$ 94,62; −8,67%Futuro liquidado; não mede embarque físico entregue
Petróleo WTI4/11: US$ 88,12; −8,3%Referência norte-americana, contrato distinto do Brent
Treasury dos EUA, 2 anos4/11: 4,58%; 3/11: 4,61%Rendimento de mercado, não taxa básica definida pelo Fed
Treasury dos EUA, 10 anos4/11: 4,90%; 3/11: 4,95%Prazo longo; queda diária de cinco pontos-base
Treasury dos EUA, 30 anos4/11: 5,28%; 3/11: 5,32%Exposição maior ao prêmio de duração
Dow Jones4/11: +3,03%Variação de um índice, não do produto real americano
S&P 500 e Nasdaq4/11: +1,58% e +1,44%Avanços não uniformes entre setores
Ibovespa4/11: 167.563,47; +1,23%Recuperação após seis perdas consecutivas
Dólar comercial no Brasil4/11: aproximadamente R$ 5,45; −0,64%Fechamento cambial; não é cotação fixa de importação
Copom / SelicDecisão de 4/11: 13,75%, manutenção unânimeTaxa de política monetária prospectiva
Inflação anual da zona do euroOutubro: 4,0% (prévia); setembro: 3,8%Estimativa preliminar, sujeita à confirmação
ISM serviços dos EUAOutubro: PMI 54,5; preços 73,0Índices de difusão, não taxas de inflação
ADP emprego privado EUAOutubro: +86 mil empregosMedida independente, diferente do payroll oficial

As observações não compõem uma amostra sincronizada: as cotações são do dia 4, a inflação europeia é preliminar para outubro, o ISM e o ADP descrevem outubro, e o Copom define a taxa vigente após sua reunião. Dizer que as ações subiram porque a inflação caiu seria contrário à evidência disponível. [1][2][3][5][6][7][8]

Curva nominal dos títulos do Tesouro dos EUA americanos, 4 de novembro de 2026porcentagem ao ano; taxas de maturidade constante
2 anos
4,58
10 anos
4,9
30 anos
5,28
Ver dados
Curva nominal dos títulos do Tesouro dos EUA americanos, 4 de novembro de 2026
Indicador / períodoValor (porcentagem ao ano; taxas de maturidade constante)
2 anos4,58
10 anos4,9
30 anos5,28

A inclinação entre dez e dois anos foi de 32 pontos-base. A curva segue positivamente inclinada, embora a sessão tenha reduzido os rendimentos observados. A diferença entre maturidades não mede isoladamente expectativas de inflação: combina taxas futuras esperadas, prêmio de prazo e fatores de liquidez. [2]

2. Eleições americanas: mudança legislativa, não transformação automática do Executivo

A eleição de meio de mandato de 3 de novembro alterou o equilíbrio de poder em Washington. Os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, limitando a capacidade do presidente Donald Trump de obter legislação e dotações orçamentárias sem negociação. A reação inicial dos mercados foi favorável a ativos de risco e títulos do Tesouro, em paralelo à queda do petróleo. O mecanismo plausível é uma redução das expectativas de novas iniciativas fiscais, legislativas e de prolongamento da guerra. Trata-se, porém, de interpretação sobre expectativas de investidores, não de uma causalidade empiricamente identificada num único pregão. [4]

O Congresso dispõe de instrumentos de legislação orçamentária, apropriações, investigações, confirmações e fiscalização. Seu controle pela oposição aumenta a capacidade de condicionar gastos, investigar decisões e exigir informações. Não transfere automaticamente aos parlamentares a condução das Forças Armadas, a diplomacia ou decisões administrativas que dependem do Executivo. Vetos presidenciais, composição das comissões, disciplina partidária e prazos constitucionais podem limitar as mudanças. O calendário de posse e a capacidade de formar maiorias efetivas também importam; a vitória eleitoral não converte imediatamente cada proposta em lei.

A bolsa pode antecipar uma distribuição de probabilidades mais favorável, mas contratos de seguro marítimo, limitações operacionais de portos, risco de ataques e recomposição de estoques físicos dependem de eventos verificáveis. Para transformar o sinal legislativo em perspectiva estrutural é necessário acompanhar aprovações, execução orçamentária, negociação militar e dados de produção e entrega. A redução do preço do barril representa uma atualização de expectativas sobre a guerra, não prova do fim dela.

3. Petróleo: o preço cai rapidamente; as cadeias físicas reagem em outro prazo

O Brent fechou em US$ 94,62, após recuo de 8,67% no dia 4, e o WTI a US$ 88,12, com queda próxima de 8,3%. O movimento ocorreu depois da mudança do Congresso americano e de novas expectativas de aproximação diplomática. A queda nominal do Brent de US$ 103,60 no pregão anterior para US$ 94,62 equivale a US$ 8,98 por barril. Esse é um choque relevante para margens de produtores, inflação esperada, balanços comerciais e custos de transporte, mas não valida por si só recuperação da navegabilidade em Ormuz. [1][4][9]

Petróleo Brent — contratos futuros, fechamentos de 3 e 4 de novembro de 2026dólares por barril; dois pregões, mesma referência Brent
3 novembro
103,6
4 novembro
94,62
Ver dados
Petróleo Brent — contratos futuros, fechamentos de 3 e 4 de novembro de 2026
Indicador / períodoValor (dólares por barril; dois pregões, mesma referência Brent)
3 novembro103,6
4 novembro94,62

Existe uma cadeia econômica de transmissão: contratos futuros afetam preços de reposição e decisões de proteção; os preços da carga física dependem de entrega, qualidade, localização, frete e seguro; derivados dependem de refino, distribuição, estoques e impostos; inflação ao consumidor depende de reajustes efetivamente repassados. O tempo entre o primeiro e o último elo pode ser longo, e cada elo é influenciado pelo câmbio. Um país importador pode ganhar termos de troca, enquanto países exportadores e empresas produtoras veem menor receita esperada. [9]

Essa assimetria apareceu na B3. O mercado como conjunto subiu, mas Petrobras, PRIO e outras petrolíferas perderam valor acompanhando o choque na cotação internacional. Para uma companhia extrativa, menor Brent pode reduzir geração de caixa por barril; para transportadoras e setores consumidores de combustível, pode reduzir custos futuros se houver transmissão aos preços efetivos. O cálculo precisa considerar preços contratados, tributação, câmbio e estrutura de dívida, não apenas variações de ações. [3]

O teste decisivo para os próximos dias é físico e diplomático: número e volume de cargas, exportações, prêmio do seguro de guerra, estoques comerciais, operação das refinarias, disponibilidade de diesel e posição oficial das partes negociadoras. Sem tais evidências, uma alta ou queda subsequente dos futuros deve ser tratada como sinal de mercado, não como indicador direto de normalização energética.

Cadeia de transmissão
  1. Vitória legislativa e expectativa de maior fiscalização da guerra
  2. Redução do prêmio geopolítico nos futuros
  3. Alívio potencial para importadores e frete
  1. Mudanças verificáveis no acesso marítimo e seguros
  2. Fluxo efetivo de petróleo e derivados
  3. Preços na cadeia física
  4. Inflação ao consumidor com defasagem
  1. Queda dos rendimentos soberanos
  2. Redução potencial do custo de emissão
  3. Investimento e consumo, condicionados ao risco de crédito

4. Zona do euro: 4% de inflação em meio ao alívio das commodities

A prévia do Eurostat para outubro elevou a inflação harmonizada anual da zona do euro a 4,0%, frente a 3,8% em setembro. Energia avançou 20,8% em doze meses, depois de 18,9%; serviços foram de 3,2% para 3,3%; alimentos, álcool e tabaco passaram de 1,3% para 1,6%; e bens industriais não energéticos de 1,1% para 1,2%. A inflação excluindo energia, alimentos, álcool e tabaco alcançou 2,5%. São taxas anuais de componentes diferentes, não parcelas a serem somadas. [5]

A diferença entre inflação acumulada e variação diária do petróleo é essencial. A taxa de 4% compara níveis de preços de outubro de 2026 com outubro de 2025. Uma commodity que cai fortemente em 4 de novembro ainda não altera a medição de outubro. Ademais, a energia consumida pela indústria pode ter contratos antecipados; consumidores pagam tarifas e preços administrados; e salários e serviços ajustam em periodicidades distintas. Um declínio sustentado da energia pode contribuir para desinflação futura, mas é incorreto atribuir sua materialização imediatamente ao indicador divulgado.

Para o Banco Central Europeu, a combinação amplia o conflito de objetivos operacionais: reduzir restrições cedo demais poderia consolidar expectativas inflacionárias; manter juros elevados por muito tempo enfraqueceria demanda, atividade imobiliária e investimento. O resultado não depende exclusivamente da cotação do Brent. Oferta de gás, eletricidade, pressão salarial, câmbio do euro e diferenciais de produtividade entre países continuam relevantes. A média da zona do euro pode ocultar grandes diferenças de vulnerabilidade energética.

Importadores líquidos de energia e indústrias eletrointensivas teriam potencial benefício em cenário de estabilização do abastecimento. Países cujas empresas dependem de financiamento bancário podem continuar enfrentando custo elevado, mesmo após queda dos preços de energia. A política fiscal nacional, fragmentação financeira e transmissão bancária definem quanto do alívio se converte em produção e renda.

5. Estados Unidos: emprego moderado e serviços ainda sujeitos a inflação

O levantamento ADP registrou 86 mil empregos privados adicionais em outubro, igual ao resultado de setembro após revisão. Os serviços concentraram 82 mil dessas vagas líquidas: comércio, transporte e utilidades acrescentaram 39 mil, educação e saúde 28 mil, enquanto serviços profissionais e empresariais perderam 27 mil. O resultado também separa o crescimento mediano anual da remuneração-base, 3,2%, da remuneração bruta, 4,7%, que inclui outros componentes. [7]

O ADP não deve ser equiparado à pesquisa oficial de empregos do Bureau of Labor Statistics. Fontes de informação, amostragem e procedimentos de revisão diferem; além disso, os empregos líquidos de empresas privadas não abrangem automaticamente o emprego público. Os 86 mil são compatíveis com expansão moderada, não constituem evidência suficiente de pleno emprego, aceleração salarial generalizada ou crescimento do PIB no mesmo ritmo. O relatório oficial de outubro ainda era futuro no corte desta edição.

O ISM de serviços confirmou expansão do setor: 54,5, abaixo dos 54,9 de setembro; pedidos novos 55,9, após 59,8; atividade de negócios 53,8, após 56,5; emprego 51,4, acima de 50,1. Simultaneamente, o índice de preços pagos permaneceu muito alto em 73,0. Um índice de difusão indica a prevalência de respostas que apontam aumento e não significa que preços tenham subido 73%. No levantamento, bens relacionados a memória e equipamentos computacionais figuraram entre as categorias sob pressão de preços ou oferta. [6]

ISM serviços dos EUA — índices de difusão de outubro de 2026pontos; 50 representa limiar convencional de expansão da atividade
PMI serviços
54,5
Atividade de negócios
53,8
Novos pedidos
55,9
Emprego
51,4
Preços pagos
73
Ver dados
ISM serviços dos EUA — índices de difusão de outubro de 2026
Indicador / períodoValor (pontos; 50 representa limiar convencional de expansão da atividade)
PMI serviços54,5
Atividade de negócios53,8
Novos pedidos55,9
Emprego51,4
Preços pagos73

Há uma contradição apenas aparente entre emprego moderado e preços elevados. Gastos e contratações podem desacelerar enquanto custos de insumos permanecem disseminados devido à oferta, cadeias de transporte, seguros e salários de contratos anteriores. Para o Fed, o dado de serviços sugere resistência da atividade e dificuldade de desinflação; o ADP, isoladamente, não dá autorização inequívoca nem para reduzir nem para aumentar os juros. O relevante é a trajetória combinada de emprego oficial, preços, salários reais, expectativas e crédito. [6][7][10]

6. Brasil: a pausa do Copom, o choque fiscal e a reação de ações e câmbio

O Banco Central manteve a Selic em 13,75% ao ano por unanimidade em 4 de novembro, após cinco cortes consecutivos. No comunicado, reconheceu moderação mais acentuada da atividade em setores cíclicos e alguma perda de vigor marginal do mercado de trabalho, mas destacou inflação mais elevada, expectativas desancoradas e riscos assimétricos para cima. No Focus citado pelo comitê, as expectativas para 2026 e 2027 estavam em 5,2% e 4,8%, respectivamente; a projeção de inflação para o horizonte relevante do segundo trimestre de 2028 alcançou 3,5% no cenário de referência. Expectativas de mercado, projeção do BC e inflação realizada são três variáveis distintas. [8][11]

A manutenção não é uma reversão automática para altas, nem promessa de retomar cortes na reunião seguinte. Quando câmbio se deprecia e agentes revisam expectativas fiscais, a taxa real necessária para ancorar preços pode continuar elevada. Juros de mercado incluem prêmios de prazo e risco que não são controlados unicamente pela Selic. Por isso, a redução dos títulos do Tesouro dos EUA no dia 4 representa alívio externo, mas não substitui credibilidade orçamentária, trajetória de dívida e funcionamento do mercado de crédito doméstico.

Antes do anúncio do Copom, o Ibovespa fechou em 167.563,47 pontos (+1,23%) após seis perdas; o dólar comercial recuou cerca de 0,64%, para R$ 5,45. O comportamento foi influenciado pelo ambiente internacional, mas não constitui plebiscito sobre a nova política fiscal. O fechamento da B3 ocorreu antes da decisão monetária, de modo que não se pode atribuir a valorização do pregão ao comunicado posterior. A alta do índice também não impediu a queda de petrolíferas, atingidas pela retração do Brent. [3]

A decisão ocorre após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e em meio à discussão sobre regras fiscais, composição econômica e espaço para despesas obrigatórias. O custo dos juros aumenta a sensibilidade da dívida pública a Selic elevada e a prêmios exigidos por financiadores. A deterioração das expectativas pode criar um mecanismo de retroalimentação: câmbio mais depreciado, preços importados maiores, maior persistência inflacionária, custo de financiamento elevado e atividade mais lenta. Esse mecanismo não é inevitável; anúncio fiscal credível, execução demonstrável e queda sustentada de inflação podem quebrá-lo. [8][11]

Também há distribuição desigual dos efeitos. Consumidores endividados, microempresas e construção civil respondem diretamente ao crédito caro; exportadores de commodities podem ganhar com câmbio depreciado, mas perder receita internacional se o preço do produto cair; famílias de baixa renda ficam expostas ao preço da cesta básica e do transporte. A análise do PIB ou da bolsa não substitui uma avaliação de renda disponível, emprego formal e condições de financiamento.

7. Geografia do choque: quem ganha e quem continua exposto

Exposições regionais ao novo choque de petróleo, inflação e política monetária
Estados Unidos
Reprecificação fiscal e geopolítica

Congresso dividido entre Executivo e oposição, petróleo em queda e curva Treasury de dez anos a 4,90%

Brasil
Juros altos e recomposição parcial do mercado

Selic mantida em 13,75%; bolsa sobe antes do comunicado, com penalização de petrolíferas

Zona do euro
Inflação anual resistente

Estimativa preliminar de outubro de 4,0% com energia a 20,8% em doze meses

Austrália
Política monetária restritiva

RBA elevou taxa a 4,85% em 3 de novembro, contrariando hipótese de flexibilização mundial sincronizada

Oriente Médio
Risco físico de transporte e produção

Queda dos futuros não comprova recomposição dos embarques por Ormuz

Ásia importadora de energia
Termos de troca e logística

Menor Brent pode aliviar importações, sujeito a câmbio, seguros, estoques e demanda

A posição de um país na cadeia de energia importa tanto quanto o preço de referência. Importadores de petróleo podem se beneficiar de menor conta externa se a redução persistir e alcançar a carga entregue. Exportadores e orçamentos dependentes da receita petrolífera podem sofrer perda de arrecadação e financiamento. Países com elevada dívida em moeda forte têm exposição adicional à taxa longa americana. O ganho de uma empresa de aviação, por exemplo, depende do preço do querosene, do proteção, da ocupação e da dívida, não de uma transformação automática de cada dólar de queda do Brent em lucro.

A Austrália fornece uma comparação útil: seu banco central elevou juros para 4,85% em 3 de novembro, enquanto o Brasil interrompeu cortes e os mercados americanos reduziram juros de títulos na sessão seguinte. Não existe uma trajetória comum obrigatória. Cada banco central enfrenta estrutura de inflação, demanda, mercado imobiliário, câmbio e expectativas próprias. [10][11]

8. Três cenários testáveis para as próximas semanas

Descompressão energética com transmissão real. Se negociações diplomáticas avançarem, os volumes de embarques se recuperarem e seguros e preços de derivados caírem, o choque de energia poderá favorecer importadores, consumo e desinflação futura. Queda adicional dos juros longos e fechamento de spreads de crédito reforçariam a expansão. Esse cenário perde força se os futuros recuarem sem correspondente melhoria em frete, entregas e estoques.

Rali financeiro sem desinflação efetiva. Se o petróleo cair rapidamente mas a inflação europeia permanecer acima da meta, o ISM continuar mostrando preços pagos altos e as expectativas brasileiras seguirem distantes da meta, bancos centrais podem manter política restritiva. Nesse caso, bolsa e títulos podem celebrar a redução momentânea da incerteza enquanto empresas e famílias ainda enfrentam financiamento oneroso. A hipótese enfraquece diante de quedas sucessivas de núcleos inflacionários e de taxas reais efetivamente cobradas.

Renovação da pressão fiscal e geopolítica. Um bloqueio legislativo prolongado ou novas hostilidades no Oriente Médio podem devolver prêmio de risco a energia e ativos soberanos. O caminho oposto também existe: compromisso fiscal verificável no Brasil e deliberações estáveis nos EUA podem reduzir prêmio de risco sem alterar instantaneamente o estoque de dívida ou a inflação passada. Discursos políticos, intenção de voto ou uma sessão de preços não bastam para aferir a execução dessas políticas.

O monitoramento prioritário combina as publicações do emprego oficial americano em 6 de novembro, o acompanhamento das entregas e estoques de petróleo, as revisões do Eurostat, os próximos dados de preços e expectativas no Brasil, a inclinação da curva americana e os atos concretos do novo Congresso. Os riscos devem ser reavaliados com dados subsequentes e revisões estatísticas, sem atribuir probabilidades numéricas arbitrárias.

9. Avaliação do regime macrofinanceiro

O dia 4 mostrou uma queda ampla dos preços de energia e dos rendimentos de títulos longos, acompanhada por recomposição de ações no Ocidente. Ao mesmo tempo, os principais dados de outubro e a decisão brasileira recordaram que o alívio de mercado antecede a transmissão à economia real. A inflação europeia acelerou, os preços de serviços americanos continuam disseminadamente pressionados e o Brasil optou por interromper a flexibilização. Nenhum desses fatos anula o outro.

A principal distinção analítica é temporal. O mercado atualiza probabilidades em minutos; a política monetária responde à persistência de indicadores; cadeias de suprimento e contratos corrigem lentamente; e governos alteram efetivamente sua política por meio de decisões jurídicas e execução. Transformar expectativas de paz em paz consumada, ou a recuperação de um dia da bolsa em estabilização fiscal, seria ultrapassar os limites da evidência. O quadro de 5 de novembro é de descompressão financeira condicionada, ainda não de normalização inflacionária global.

Fontes

  1. Reuters, fechamento global de ações, rendimentos, câmbio e petróleo de 4 de novembro: https://www.reuters.com/world/china/global-markets-wrapup-1-2026-11-04/
  2. Tesouro dos EUA, curva diária de juros de novembro de 2026: https://home.treasury.gov/resource-center/data-chart-center/interest-rates/TextView?field_tdr_date_value_month=202611&type=daily_treasury_yield_curve
  3. B3 Bora Investir, fechamento dos mercados do Brasil em 4 de novembro: https://borainvestir.b3.com.br/noticias/mercado/ibovespa-b3-sobe-123-com-externo-e-a-espera-do-copom-dolar-cai-a-r-545/
  4. Reuters, reação dos mercados à eleição legislativa americana: https://www.reuters.com/world/china/global-markets-wrapup-1-2026-11-04/
  5. Eurostat, inflação harmonizada preliminar da zona do euro de outubro: https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-euro-indicators/w/2-04112026-ap
  6. Institute for Supply Management, PMI de serviços de outubro de 2026: https://www.ismworld.org/supply-management-news-and-reports/reports/ism-pmi-reports/services/october/
  7. ADP Research, criação de emprego privado nos EUA em outubro: https://mediacenter.adp.com/2026-11-04-ADP-National-Employment-Report-Private-Sector-Employment-Increased-by-86%2C000-Jobs-in-October
  8. Comunicado integral do Copom de 4 de novembro reproduzido por Broadcast: https://www.broadcast.com.br/ultimas-noticias/veja-a-integra-do-comunicado-do-copom-com-manutencao-da-taxa-selic-de-1375/
  9. Reuters, decisão do BC do Brasil e contexto de inflação e política fiscal: https://www.reuters.com/world/americas/brazils-central-bank-ends-run-rate-cuts-after-lula-election-win-2026-11-04/
  10. Federal Reserve, decisão monetária de 28 de outubro: https://www.federalreserve.gov/newsevents/pressreleases/monetary20261028a.htm
  11. Reserve Bank of Australia, decisão de 3 de novembro: https://www.rba.gov.au/media-releases/2026/mr-26-30.html
  12. Banco Central do Brasil, expectativas de mercado Focus: https://www.bcb.gov.br/publicacoes/focus
Autoria

Christian Rafael de Souza Silva

Autor · Pesquisador · Marginal Thinking · LOGV Research

christian@marginalthinking.org
Como citar

Silva, Christian Rafael de Souza. “Global Macro — Queda do petróleo e alívio dos títulos do Tesouro dos EUA não eliminam a inflação persistente nem a restrição monetária.” Marginal Thinking / LOGV Research, 2026-11-05.

Fonte Markdown →