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Segurança energética do Brasil: Itaipu, Paraguai, influência dos EUA e a disputa pelos data centers de IA

Investigação histórica e estratégica sobre o Tratado de Itaipu de 1973, Anexo C, direitos paraguaios, influência documentada dos EUA, Crusoe–Araico, Pax Silica, REDATA, hidrologia e resiliência da rede.
Contexto
Ativo hidrelétrico binacional em renegociação tarifária; infraestrutura de IA ligada aos EUA pode elevar a demanda paraguaia e mudar opções comerciais, enquanto o Brasil enfrenta riscos hídricos, de rede e dependência digital.
Risco principal
Confundir uma opção futura de 280 MW de TI com consumo efetivo, cotas jurídicas com entrega de energia ou investimento americano documentado com interferência ilegal comprovada.
Indicadores principais
Texto final do Anexo C e tramitação jurídica · Tarifa da ANDE e contrato de conexão Crusoe–Araico · Construção, potência instalada e consumo medido do projeto · Hidrologia e disponibilidade de transmissão · Resultados do Redata e demanda efetiva de centros de dados
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A segurança energética do Brasil não se resume à quantidade de usinas instaladas nem à proporção de fontes renováveis na matriz elétrica. Ela depende da capacidade de produzir eletricidade quando e onde se precisa dela, transportá-la por redes resilientes, preservar contratos internacionais confiáveis, financiar a manutenção de instalações críticas e impedir que interesses comerciais sejam confundidos com decisões sobre soberania. A expansão de centros de dados e sistemas de inteligência artificial introduz novo elemento: eletricidade firme e conexão à rede passam a determinar a localização de infraestrutura digital e a apropriação da renda gerada econômico em uma competição cada vez mais intensa entre governos e empresas globais.

Itaipu ocupa posição singular nessa estrutura. A hidrelétrica foi concebida por Brasil e Paraguai sob ditaduras, por meio do Tratado de 26 de abril de 1973, e opera desde maio de 1984. Possui vinte unidades geradoras e capacidade instalada de 14 gigawatts, o que não deve ser confundido com energia efetivamente produzida ao longo de um ano. Em 2025, gerou 72.879.287 megawatts-hora, ou aproximadamente 72,88 terawatts-hora, aumento de 8,63% em relação a 2024. A Itaipu Binacional informa ter entregue 25.768 GWh à ANDE paraguaia em 2025. A produção está submetida ao regime binacional: não é propriedade exclusiva de Brasília nem uma mercadoria livremente cedida por Assunção fora das regras do tratado. [1][2][3]

O acontecimento de outubro de 2026 transformou uma discussão tradicional sobre tarifa e cessão de excedentes em disputa sobre a infraestrutura computacional das próximas décadas. Crusoe, companhia sediada nos Estados Unidos, e Araico, desenvolvedora paraguaia, anunciaram em 22 de outubro parceria para implantar capacidade de computação de IA próxima à subestação de Itaipu. O projeto prevê operação inicial em meados de 2027, capacidade de expansão de 106 MW de TI e opção de longo prazo de até 280 MW. Em 23 de outubro, o Paraguai aderiu à declaração norte-americana Pax Silica, cuja agenda conecta energia hidrelétrica, minerais críticos, IA e segurança de cadeias produtivas. Esses atos são documentados por empresas e órgãos paraguaios; não comprovam a transferência irregular da parcela brasileira da energia de Itaipu. [4][5][6]

A questão mais relevante é quem determinará o preço, o uso e o destino econômico da capacidade elétrica, e quais obrigações incidirão sobre novos consumidores de alta intensidade energética. Uma instalação de computação de 280 MW de carga de TI, funcionando ininterruptamente, representa aproximadamente 2,45 TWh de consumo anual de equipamentos de TI; a demanda elétrica total do campus pode ser maior por causa do resfriamento, das perdas e dos serviços auxiliares. Isso é uma conversão de potência em energia sob hipótese de utilização plena, não medição do empreendimento nem autorização já concedida de fornecimento. O mesmo cálculo corresponde a aproximadamente 3,4% da geração total de Itaipu em 2025, antes da energia adicional associada à infraestrutura do data center. O número permite dimensionar a disputa sem afirmar que a planta já consuma energia. [4]

1. A segurança energética como sistema, não como estatística de geração

Um país pode produzir muita eletricidade em determinado ano e enfrentar cortes localizados porque uma linha de transmissão foi danificada. Também pode dispor de capacidade instalada abundante e não conseguir atender à demanda de ponta porque as fontes disponíveis não geram naquela hora. Segurança energética abrange adequação do parque gerador, flexibilidade operacional, resiliência das redes, modicidade econômica, disponibilidade de combustíveis, proteção digital e capacidade de recuperar o serviço após eventos severos.

A infraestrutura brasileira integra fontes com características diferentes. Reservatórios hidrelétricos podem deslocar geração no tempo dentro de limites ambientais e hidrológicos; eólicas produzem conforme o vento; sistemas solares seguem radiação, meteorologia e horários; térmicas podem aumentar a disponibilidade despachável, mas dependem de combustível, contratos e preços. O armazenamento por baterias ou outras tecnologias pode ajudar a equilibrar curtos períodos, sem necessariamente substituir reservatórios em estiagens prolongadas.

A segurança da oferta é ainda uma função de organização institucional. O Operador Nacional do Sistema Elétrico coordena o despacho no Sistema Interligado Nacional; a EPE produz estudos de planejamento; a ANEEL regula segmentos; agentes de geração, transmissão e distribuição executam investimentos. Itaipu acrescenta governança internacional, na qual autoridades brasileiras não podem agir como se a parte paraguaia não existisse.

2. Matriz elétrica e matriz energética não descrevem a mesma realidade

A matriz elétrica refere-se às fontes que abastecem a eletricidade. A matriz energética total considera também combustíveis usados diretamente na indústria, nos transportes e em outras atividades. O Brasil pode possuir eletricidade predominantemente renovável enquanto parte de seu transporte e sua atividade industrial seguem consumindo derivados de petróleo ou gás. Confundir os dois indicadores infla avaliações de independência energética.

O Balanço Energético Nacional 2026, da Empresa de Pesquisa Energética, informa que as fontes renováveis representaram 86,6% da oferta interna de eletricidade em 2025, com 52,2% de participação hidráulica. A oferta interna atingiu 783,3 TWh, incluindo importações líquidas de 7,4 TWh; o consumo final de eletricidade foi 667,8 TWh. As diferenças entre oferta e consumo refletem conceitos contábeis, perdas e usos no sistema, não uma quantidade simplesmente disponível para novos centros de dados. [7]

O país possui vantagem comparativa em eletricidade de baixo carbono, mas enfrenta risco hidrológico, restrições de transmissão e necessidade de potência firme. Os dados nacionais agregados não garantem que 500 MW possam ser conectados sem custos a uma subestação específica. O significado de “energia abundante” deve sempre ser testado pela disponibilidade horária, no local e pelo horizonte de contratação.

3. O nascimento do sistema elétrico brasileiro e a disputa por financiamento

A eletrificação brasileira cresceu de forma fragmentada, inicialmente ligada a centros urbanos, indústrias, empresas concessionárias e recursos hídricos próximos aos consumidores. A construção de sistemas regionais exigiu capital, tecnologia e regras de concessão. O desenvolvimento industrial tornou indispensável ampliar geração e transmissão para regiões cada vez mais extensas.

No século XX, a criação de empresas públicas e sistemas de planejamento procurou reduzir o estrangulamento energético ao crescimento. A Eletrobras e suas subsidiárias exerceram papel decisivo no financiamento, engenharia e operação de grandes projetos. A eletricidade passou a ser compreendida não somente como serviço local, mas como infraestrutura estruturante de siderurgia, transportes, urbanização e indústria.

A dependência de financiamento estrangeiro e equipamentos especializados não significa que a eletrificação tenha sido conduzida inteiramente de fora. Agentes brasileiros tomaram decisões sobre prioridades, tarifas e investimentos. Contudo, a necessidade de importar tecnologia e captar recursos internacionais limitava escolhas em momentos de crise cambial, situação que permanece relevante para transformadores, equipamentos de controle e sistemas digitais contemporâneos.

4. O rio Paraná e a geografia política anterior à usina

O rio Paraná pertence a uma bacia compartilhada que conecta Brasil, Paraguai e Argentina. Sua utilização para energia envolve não apenas potencial hidráulico, mas navegação, controle de vazões, segurança de populações ribeirinhas e direitos de estados a montante e jusante. Uma obra em trecho compartilhado pode alterar as opções disponíveis a outros governos.

A localização de Itaipu oferece proximidade a grandes centros de consumo brasileiros e posição crucial para a segurança energética paraguaia. Antes da usina, a região já era marcada por disputas de limites, desenvolvimento de fronteira e reivindicações sobre o Salto de Sete Quedas ou Salto del Guairá. A transformação do rio em ativo energético exigiu acomodar controvérsias territoriais e interesses nacionais distintos.

A hidrelétrica é, nesse sentido, um acordo materializado em concreto, linhas elétricas e instituições. Sua operação está associada a decisões internacionais duradouras. Romper ou alterar unilateralmente aspectos centrais do arranjo pode produzir custos diplomáticos e jurídicos, além de afetar planejamento físico e financiamento.

5. Guerra do Paraguai, memória nacional e assimetria de poder

A Guerra da Tríplice Aliança, entre 1864 e 1870, marcou profundamente relações entre Paraguai, Brasil e Argentina. Seus efeitos populacionais, econômicos e territoriais se prolongaram no Paraguai, que preservou uma memória coletiva de vulnerabilidade diante de vizinhos maiores. Essa herança não determina automaticamente cada negociação energética, mas ajuda a compreender por que controle de receita e autonomia na comercialização de Itaipu são temas sensíveis para a sociedade paraguaia.

Uma análise institucional não deve reduzir as demandas paraguaias a chantagem ou ingratidão. O Paraguai contribui para o aproveitamento do rio binacional, detém direitos estabelecidos no tratado e possui interesse legítimo em transformar eletricidade em indústria e serviços locais. O Brasil, por sua vez, financiou e organizou grande parte dos investimentos e construiu extensa infraestrutura de absorção da energia.

A assimetria entre as economias está no centro do conflito histórico: um parceiro dispõe de mercado consumidor, capital e indústria maiores; o outro valoriza renda em dólares, direitos contratuais e oportunidades de superar dependência econômica. O reconhecimento dessa assimetria aumenta a possibilidade de acordos duráveis.

6. A década de 1960: ditaduras, desenvolvimento e soberania hídrica

O projeto binacional tomou forma quando o Brasil estava sob a ditadura instalada em 1964 e o Paraguai era governado por Alfredo Stroessner. O planejamento de grandes obras atendia objetivos de crescimento industrial, segurança territorial e prestígio de regime. A ausência de competição democrática plena restringia debate público sobre impactos de longo prazo e redistribuição das receitas.

A criação de infraestrutura de grande escala pode produzir ganhos econômicos reais mesmo sob instituições autoritárias. Contudo, o processo decisório afeta quem suporta os custos, a transparência de contratos e a proteção de comunidades deslocadas. A análise histórica precisa registrar a eficiência de engenharia e, simultaneamente, as restrições de participação política sob as quais decisões fundamentais foram tomadas.

A presença do contexto de Guerra Fria importa porque os Estados Unidos possuíam extensa influência diplomática e econômica na região. Mas não há prova apresentada neste estudo de que Washington tenha redigido ou imposto o Tratado de Itaipu. A influência geral dos EUA sobre governos latino-americanos não deve ser convertida em uma operação específica sem documentos pertinentes.

7. O Tratado de 1973 e a natureza binacional do empreendimento

O Tratado entre Brasil e Paraguai foi assinado em 26 de abril de 1973 e entrou em vigor após a troca dos instrumentos de ratificação em 13 de agosto daquele ano. Criou entidade binacional com igualdade de direitos e obrigações e distribuição paritária das partes proprietárias. Seus anexos estabelecem estatuto, características técnicas e bases financeiras. Trata-se de arcabouço jurídico próprio, não de uma concessão unilateral brasileira. [8][9]

O tratado reconhece a divisão em partes iguais da energia produzida e regulamenta como a energia não utilizada por uma das partes é colocada à disposição da outra. A operação envolve entidades designadas dos dois países, com estrutura de governança compartilhada. Os volumes entregues aos dois países variam com consumo, contratação, frequência elétrica e transmissão, ainda que os direitos jurídicos permaneçam iguais.

A expressão “metade da energia” representa uma repartição de direitos, não a afirmação de que metade da eletricidade atravessou uma linha para cada lado em determinado exercício. A diferença entre alocação jurídica e utilização efetiva é central para compreender o Paraguai de 2026, que pretende utilizar localmente uma parcela maior da energia antes cedida.

8. Os anexos A, B e C e a arquitetura do preço

O Anexo A disciplina aspectos de organização institucional; o Anexo B descreve as instalações de aproveitamento; e o Anexo C fixa bases financeiras e de prestação de serviços elétricos. O pagamento não se resume a multiplicar energia produzida pelo preço de mercado. O arranjo tradicional envolve contratação de potência, custo de serviço, royalties, remuneração por energia cedida, custos administrativos e outras parcelas. [8][10]

O conceito de Custo Unitário do Serviço de Eletricidade, em dólares por quilowatt-mês de potência contratada, não pode ser comparado diretamente a um preço no mercado de energia medido em dólares por megawatt-hora. É necessário conhecer disponibilidade, fatores de utilização, energia contratada, encargos e período para converter unidades. Reportagens que colocam valores de categorias diferentes em uma única coluna podem induzir interpretações equivocadas sobre quem recebe vantagens.

O Anexo C prevê revisão após cinquenta anos da entrada em vigor do tratado, considerando, entre outros fatores, amortização da dívida da construção e potências contratadas. O marco chegou em 2023, mas a obrigação de revisão não fixa automaticamente qual deverá ser a tarifa final; exige decisão acordada pelas partes conforme os instrumentos jurídicos aplicáveis.

9. Engenharia: vinte unidades, frequências distintas e conversão de energia

Itaipu opera com 20 unidades geradoras de 700 MW, totalizando 14.000 MW de capacidade instalada. Parte foi concebida para 50 hertz, padrão paraguaio, e parte para 60 hertz, padrão brasileiro. A integração exige sistemas elétricos e conversão adequados, inclusive transmissão em corrente contínua onde aplicável. Essas escolhas refletem necessidades industriais e elétricas dos dois países.

Uma potência de 14 GW não significa produção constante de 14 GWh por hora durante todos os dias. Disponibilidade mecânica, vazão do Paraná, limites de transmissão, despacho e manutenção afetam a produção. O máximo teórico de 14 GW durante 8.760 horas corresponderia a 122,64 TWh por ano, mas esse valor é mero limite aritmético, não expectativa operacional. A produção real de 72,88 TWh em 2025 corresponde a fator de capacidade aproximado de 59,4%, sem que isso represente indisponibilidade equivalente das máquinas. [2]

A infraestrutura de conversão, interligação e comando deve ser analisada como ativo estratégico separado da barragem. Mesmo com água e turbinas disponíveis, falhas em estações conversoras ou linhas podem impedir a entrega de energia a consumidores específicos. A segurança depende de redundância, manutenção, proteção elétrica e planos de recuperação.

10. Sete Quedas e o custo ecológico do desenvolvimento

A formação do reservatório provocou impactos territoriais, ecológicos e culturais, incluindo o desaparecimento do conjunto de quedas conhecido no Brasil como Sete Quedas. Comunidades foram deslocadas, habitats alterados e uma paisagem de excepcional relevância transformou-se por decisão estatal. Grandes obras hidrelétricas não podem ser avaliadas apenas por geração acumulada, custo médio ou extensão de linhas.

O reservatório também criou condições para produção elétrica de escala inédita e alterou atividades econômicas no entorno. O balanço social inclui ganhos industriais e urbanos em regiões consumidoras e custos concentrados em pessoas que residiam perto da obra. Mecanismos posteriores de royalties e investimentos territoriais representam formas de compensação, sem anular perdas que não têm substituição econômica simples.

A história oferece paralelo para novos centros de dados e projetos de transmissão. Um investimento privado pode prometer empregos e receita, mas produzir demanda de água, solo e capacidade elétrica que afeta comunidades. Benefícios amplos não devem ser tratados como licença para externalizar custos locais sem transparência.

11. A Argentina e a negociação do Acordo Tripartite de 1979

A Argentina tem papel histórico decisivo na diplomacia de Itaipu, embora não seja proprietária da usina. Por estar a jusante, tem interesse em vazões, níveis do rio e compatibilidade hidráulica de projetos. Estudos acadêmicos demonstram que, nos anos 1970, Buenos Aires interpretou aspectos do projeto Brasil–Paraguai como desafio a seus interesses, utilizando argumentos técnicos e ambientais em uma disputa regional mais abrangente. [11]

A solução diplomática passou pelo Acordo Tripartite de 19 de outubro de 1979, entre Brasil, Paraguai e Argentina, que estabeleceu entendimentos de compatibilização sobre aproveitamentos hidráulicos e condições operacionais no Paraná. A própria cronologia histórica de Itaipu registra a importância do acordo para a conclusão política do empreendimento. [12]

A segurança energética de um sistema transfronteiriço depende de direitos e interesses de outros países da bacia, mesmo quando não participam da propriedade empresarial da usina. A comparação histórica demonstra que negociações difíceis podem ser resolvidas institucionalmente, reduzindo incentivos a conflitos duradouros.

12. Petróleo, crise de 1973 e planejamento de eletricidade

O tratado de Itaipu coincide com o primeiro choque do petróleo, que alterou a economia internacional e elevou a importância de fontes domésticas de energia. O Brasil investiu em hidrelétricas, exploração petrolífera, etanol e programas de infraestrutura enquanto enfrentava restrições externas. A política energética passou a ser componente da estratégia de industrialização e da capacidade de reduzir importações de combustível. [13]

O crescimento financiado por dívida também introduziu vulnerabilidades. Grandes projetos podem produzir ativos duráveis, mas a combinação de juros externos, inflação e cronogramas prolongados pode elevar obrigações financeiras acima das previsões originais. A América Latina experimentou forte expansão do endividamento externo nos anos 1970 e crise nos anos seguintes. [14]

A segurança de abastecimento não se confunde com maximizar investimentos independentemente do custo de capital. O planejamento precisa combinar capacidade física, tarifas viáveis e resiliência financeira para que obras necessárias não gerem restrições orçamentárias que inviabilizem manutenção futura.

13. Itaipu, endividamento e a distribuição de encargos

A construção de Itaipu exigiu financiamento volumoso ao longo de décadas. Um estudo do Columbia Center on Sustainable Investment descreve o papel de empréstimos brasileiros, incluindo grande contrato com a Eletrobras em 1975, além de financiamentos menores ligados a equipamentos internacionais. A dívida, revisões cambiais e condições de amortização influenciaram custos e debates distributivos entre os dois países. [15]

A história financeira contém diferentes interpretações sobre quais encargos deveriam recair sobre cada parceiro e como contabilizar o benefício de energia recebida. Argumentos paraguaios enfatizam a assimetria de industrialização e o direito de reter mais receitas. Argumentos brasileiros ressaltam financiamento, construção e a absorção inicial de eletricidade que o mercado paraguaio não demandava.

A amortização das obrigações históricas até o marco de revisão de 2023 modificou a negociação do Anexo C, mas não elimina despesas operacionais, manutenção, reinvestimento, transmissão nem encargos decorrentes de novos acordos. A expressão “dívida quitada” não significa “eletricidade sem custo econômico”.

14. Redemocratização e mudança no caráter da negociação

Com a redemocratização brasileira e o fim do regime de Stroessner no Paraguai, ambos os países passaram a discutir o legado do tratado em ambientes políticos mais abertos. Organizações sociais, parlamentos e imprensa ganharam maior capacidade de contestar termos financeiros e reivindicar transparência. A institucionalidade binacional permaneceu, mas a legitimidade de decisões anteriores passou a ser mais frequentemente questionada.

O crescimento do consumo interno paraguaio alterou gradualmente uma assimetria fundamental: um país que antes utilizava pequena parcela de seu direito passou a enxergar industrialização doméstica como alternativa crescente à cessão de excedentes. O Brasil, por outro lado, passou a diversificar seu sistema elétrico com eólicas, solares, térmicas e outras hidrelétricas, reduzindo parcialmente a concentração energética em uma única usina.

A evolução mostra que acordos internacionais de longa duração necessitam mecanismos de adaptação. Reabri-los, contudo, pode gerar riscos se as partes tratam ganhos e perdas de curto prazo como objetivos exclusivos. A confiança necessária à operação deve resistir a mudanças eleitorais e comerciais.

15. Lula e Fernando Lugo: a renegociação de 2009–2011

Em 2009, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Lugo firmaram entendimento destinado a alterar a remuneração pela energia paraguaia não utilizada localmente. O Congresso brasileiro aprovou em 2011 atos que permitiram triplicar o repasse anual, em termos de referência divulgados à época, de aproximadamente US$ 120 milhões para US$ 360 milhões. A comunicação oficial da Itaipu e os registros da Câmara descrevem o processo. [16][17]

Para o Paraguai, a mudança foi apresentada como avanço na distribuição de benefícios. Para o Brasil, implicou reconhecer a necessidade de preservar relação estratégica e a legitimidade da negociação, assumindo custos cujo repasse ao consumidor foi objeto de debate. A medida não extinguiu diferenças de poder, mas demonstrou que obrigações podem ser revistas mediante instrumentos bilaterais.

A interpretação dos valores precisa considerar moeda, preços, encargos e períodos. Um montante histórico de compensação não deve ser comparado diretamente com o custo atual de centros de dados sem deflação, classificação da tarifa e contratos. A variável estratégica não é apenas a soma anual transferida, mas como receitas energéticas financiam capacidade produtiva.

16. A dívida de Itaipu e a revisão aberta em 2023

A entrada em vigor do Tratado em 1973 deu origem ao marco de cinquenta anos atingido em agosto de 2023. O item VI do Anexo C prevê revisão de bases financeiras e de prestação de serviços. A Itaipu Binacional registrou oficialmente que essa função cabe aos dois governos, com assessoramento técnico da entidade. [9]

O novo ambiente econômico difere daquele em que a usina foi concebida. O Brasil possui matriz elétrica mais diversificada e demanda de novas tecnologias; o Paraguai consome parcela crescente de eletricidade e busca novos investimentos industriais. Os custos financeiros históricos foram substancialmente alterados por amortização, e o debate abrange tarifas, royalties, cessão e eventual maior liberdade de comercialização.

A revisão não constitui um leilão unilateral de energia paraguaia nem autorização automática para terceiros controlarem equipamentos binacionais. É negociação entre Estados que precisam preservar a segurança da operação e observar seus próprios instrumentos jurídicos. O valor de cada cláusula depende das alternativas econômicas disponíveis para ambos.

17. Tarifa 2024–2026 e interesses conflitantes de consumidores

O entendimento anunciado em 2024 estabeleceu US$ 19,28 por quilowatt-mês como referência do custo do serviço de eletricidade para 2024, 2025 e 2026. O governo paraguaio destacou aumento de recursos destinados a royalties, compensação de energia, investimentos sociais e retorno de capital. O governo brasileiro enfatizou preservação de tarifa ao consumidor e a perspectiva de mudanças estruturais a partir de 2027. [18][19]

Ambas as posições refletem incentivos legítimos, mas diferentes. O Paraguai, ao receber receitas e ampliar consumo interno, valoriza margem fiscal e crescimento industrial. O Brasil considera o efeito sobre milhões de consumidores, distribuidoras e indústrias, além da necessidade de assegurar a eletricidade contratada.

O número em dólares por quilowatt-mês não é preço direto de um projeto de computação, muito menos permite inferir que uma empresa pagará a mesma tarifa à ANDE. Para estimar custo efetivo de um campus é necessário conhecer contratação de potência e energia, transmissão, tributos, perdas, eventuais subsídios, qualidade do fornecimento e política tarifária nacional.

18. Negociações de março de 2026 e o que permanece aberto

Em 19 de março de 2026, os chanceleres Mauro Vieira e Rubén Ramírez Lezcano participaram de conversas em Assunção sobre revisão do Anexo C, com declarações públicas de avanços. O Ministério das Relações Exteriores do Paraguai deixou claro que não havia definição final da tarifa futura e que seria prematuro anunciar termos antes da conclusão da redação do acordo. [20][21]

Essa informação limita afirmações sobre “novo preço inevitável de Itaipu” em 2027. Declarações políticas de intenção de reduzir custos ou ampliar liberdade de mercado não substituem texto binacional concluído, aprovação exigida e regras operacionais. Cenários financeiros devem ser identificados como hipóteses enquanto não existem documentos finais.

A perspectiva de venda de excedente paraguaio em mercado mais aberto tem potencial para alterar competição e negociação. A abertura comercial ainda depende da capacidade de transmissão, dos contratos atuais e das regras do Tratado. A implementação demandará mecanismos regulatórios e coordenação entre ANDE, ENBPar, operadores e autoridades bilaterais.

19. A crise de espionagem brasileira revelada em 2025

Em abril de 2025, o governo paraguaio convocou seu embaixador e suspendeu negociações relacionadas a Itaipu após o Brasil reconhecer que uma operação de inteligência brasileira havia espionado autoridades paraguaias entre junho de 2022 e março de 2023. O governo Lula afirmou ter interrompido a operação ao tomar conhecimento dela. As informações foram acompanhadas por investigações e controvérsias sobre os alvos e métodos empregados. [22]

O episódio é uma interferência específica, documentada e politicamente relevante — praticada pelo lado brasileiro contra o Paraguai, não pelos Estados Unidos. Mostra que o valor econômico do tratado pode estimular práticas que comprometem confiança entre parceiros. A resposta paraguaia também demonstra que o país possui instrumentos diplomáticos de retaliação distintos do uso de força.

Não é lícito converter esse precedente em prova de que uma parceria de 2026 entre empresas de IA envolva espionagem ou violação de tratado. A analogia identifica risco institucional e necessidade de salvaguardas, mas cada evento exige evidência própria.

20. A influência norte-americana: distinguir contexto histórico de operação comprovada

Os Estados Unidos exerceram grande influência política, econômica e militar na América Latina ao longo do século XX, inclusive no período das ditaduras. O acesso a financiamento e tecnologia, a competição da Guerra Fria e a atuação de empresas norte-americanas afetaram decisões regionais. Isso faz de Washington um ator relevante na história do desenvolvimento de infraestrutura sul-americana.

Todavia, há uma diferença entre influência estrutural e interferência operacional demonstrada. O Tratado de Itaipu foi firmado por Brasil e Paraguai, e a documentação legal estabelece direitos entre esses dois Estados. Sem atas, ordens, correspondência diplomática ou registros financeiros específicos, não cabe atribuir aos EUA a autoria das cláusulas de cessão de energia ou a escolha da tarifa original.

Em 2026, a influência é muito mais verificável: visita diplomática de alto nível, anúncio público de parceria empresarial, adesão paraguaia à Pax Silica e conexão entre energia e estratégia de computação. O problema analítico desloca-se da suspeita genérica para a avaliação de contratos e decisões comprovados.

21. Christopher Landau e a agenda de outubro de 2026

A visita ao Paraguai do vice-secretário de Estado norte-americano Christopher Landau, entre 19 e 21 de outubro de 2026, foi acompanhada por anúncios de investimentos e cooperação. A agência pública paraguaia registrou a parceria entre Crusoe e Araico para infraestrutura de alto desempenho abastecida por Itaipu, além de agenda relativa a minerais, urânio e conversas sobre cooperação nuclear civil. [23]

A comunicação do governo paraguaio descreveu a cooperação com os EUA como alternativa a financiamentos considerados predatórios por concorrentes estratégicos. Essa linguagem revela preferência geopolítica do anúncio, mas não prova que os contratos apresentados sejam melhores para os consumidores paraguaios. A análise de seus efeitos precisa identificar investimento líquido, custo público, tarifas, direitos de dados e obrigações de execução.

O fato de o Brasil não ter participado do anúncio empresarial não significa, por si só, violação do tratado: o Paraguai possui direitos sobre sua parcela e pode buscar clientes e indústria dentro dos limites jurídicos aplicáveis. Mas o fato evidencia a possibilidade de a estratégia tecnológica norte-americana ganhar força por meio de Assunção, alterando a dinâmica bilateral de negociação.

22. Crusoe e Araico: a arquitetura industrial do acordo

A Crusoe anunciou em 22 de outubro de 2026 aliança estratégica com a Araico para desenvolver infraestrutura de computação de IA conectada a energia proveniente de Itaipu. A localização proposta é adjacente à subestação da hidrelétrica; a empresa norte-americana pretende oferecer serviços por sua plataforma de nuvem, inclusive a clientes dos Estados Unidos e da América Latina. O lançamento inicial foi projetado para meados de 2027. [4]

Os números informados distinguem 106 MW de capacidade de TI como escala de expansão e até 280 MW como opção de longo prazo. São planos empresariais, não demanda efetivamente medida ou autorização confirmada de conexão. “Capacidade de TI” também não equivale automaticamente ao consumo total do imóvel, pois sistemas de climatização, iluminação e distribuição interna acrescentam energia.

A divisão de responsabilidades é estratégica. A companhia local participa do desenvolvimento de infraestrutura, enquanto o operador estrangeiro pode concentrar software, hardware, contratos globais de nuvem, faturamento e know-how. O Paraguai poderá receber empregos, serviços e receitas, mas a quantidade de valor agregado retida depende de propriedade, tributos, capacitação local e quem controla modelos e dados.

23. Pax Silica e a energia incorporada à política externa de IA

Em 23 de outubro de 2026, o Paraguai tornou-se o 26º signatário da Declaração Pax Silica, em cerimônia no Departamento de Estado dos EUA. O Ministério das Relações Exteriores paraguaio informou que as partes pretendem aproveitar minerais críticos e energia hidrelétrica para desenvolver infraestrutura avançada de inteligência artificial nas Américas. [5]

O conceito de segurança econômica expresso na declaração conecta eletricidade, semicondutores, hardware, materiais e infraestrutura de dados. Ele mostra que a competição estratégica não gira mais apenas em torno de petróleo e gás. A energia renovável de um país relativamente pequeno pode tornar-se recurso para operar equipamentos de computação de grupos internacionais.

Pax Silica é iniciativa diplomática e de cooperação; a assinatura de declaração não corresponde automaticamente à transferência de propriedade da hidrelétrica, nem torna o Paraguai integrante de aliança militar voltada contra o Brasil. Para avaliar resultados devem ser examinados compromissos executáveis, regras de segurança digital, acesso a financiamentos e efeitos de mercado.

24. Cálculo material: quanto representa um data center de 280 MW?

Potência indica taxa instantânea de consumo ou fornecimento; energia resulta de multiplicá-la pelo tempo. Se equipamentos de TI operassem a 280 MW durante 8.760 horas por ano, consumiriam 2.452.800 MWh, equivalentes a 2,4528 TWh anuais. Para 106 MW, o limite correspondente seria 928.560 MWh, ou 0,92856 TWh anuais. Esses são exercícios aritméticos sob utilização integral, não previsão de consumo efetivo. [4]

A métrica PUE — Power Usage Effectiveness relaciona potência total da instalação com a potência dos equipamentos de TI. Hipoteticamente, um PUE de 1,20 elevaria um bloco de 280 MW de TI a 336 MW de demanda média total, equivalente a 2,94336 TWh por ano sob utilização contínua. Se o equipamento não operar em plena carga, se a expansão não for realizada ou se o PUE for diferente, o resultado muda. Nenhum desses valores é dado de contrato existente.

Comparado à geração total de 72,88 TWh de Itaipu em 2025, o limite de 2,45 TWh dos servidores corresponderia a 3,37%; a energia total hipotética com PUE 1,20 seria 4,04%. A comparação serve como escala, não como afirmação de que a obra comprometerá diretamente essa fração da parcela brasileira. O fornecimento jurídico e físico precisa ser conhecido antes de atribuir custo a qualquer dos dois países.

25. O novo significado de soberania: da energia exportada à computação importada

Energia barata pode atrair fabricantes, empresas químicas, indústrias metalúrgicas ou centros de dados. O resultado econômico para um país depende de intensidade de emprego, contratação de fornecedores, arrecadação, inovação e serviços produzidos. centros de dados de alta potência podem movimentar enorme capital por trabalhador e vender serviços para clientes externos, oferecendo ganhos que não se medem pela quantidade de empregos operacionais.

O Paraguai poderá reter parte do valor por meio de construção, serviços elétricos, impostos, formação de técnicos e negócios conectados, se houver regras e execução adequadas. Também poderá tornar-se local de consumo de eletricidade com hardware e software controlados fora do território, se não desenvolver capacidades próprias. O Brasil enfrenta dilema semelhante ao incentivar centros de dados nacionais.

A economia política deve comparar custo de oportunidade da eletricidade: qual seria o uso alternativo do bloco de potência, que investimentos na rede seriam necessários, que carga local pode deixar de ser atendida e como novas receitas financiarão benefícios duráveis? Sem esse exame, slogans de “soberania digital” podem encobrir simples subsídio a eletricidade de compradores muito capitalizados.

26. A ANDE, as tarifas paraguaias e o problema do contrato desconhecido

A Administración Nacional de Electricidad (ANDE) responde pelo fornecimento de energia aos consumidores paraguaios segundo normas nacionais e instrumentos ligados ao tratado. A tabela oficial de tarifas da instituição lista categorias de consumo intensivo, tarifas para indústrias eletrointensivas e grupos especiais, inclusive tecnologias avançadas. A existência dessas categorias mostra que a atração de grandes cargas não ocorre em vazio regulatório. [24]

Entretanto, a comunicação pública da parceria Crusoe–Araico até 25 de outubro de 2026 não forneceu conjunto completo de documentos capazes de determinar a tarifa efetiva do projeto, quem arcará com reforços de rede, garantias de potência, penalidades, eventual prioridade de despacho ou cronograma de carga. A imprensa paraguaia procurou informações da ANDE sem obter, naquele momento, resposta sobre os termos contratuais. Essa ausência pública de documentação não prova que exista ilegalidade, mas constitui lacuna importante para fiscalização. [25]

O foco institucional deve ser solicitar estudos de conexão, classificação tarifária, processo de aprovação e direitos dos consumidores existentes. Se um grande campus obtiver energia muito abaixo do custo incremental, alguém absorverá a diferença; se pagar tarifa que remunere rede e serviço e ainda gerar capacidade industrial, o projeto pode ser economicamente benéfico. Sem contratos, qualquer dos julgamentos é prematuro.

27. Energia barata, subsídios e a transferência indireta de riqueza

O preço da eletricidade inclui mais do que seu custo de geração em uma hidrelétrica amortizada. São necessários investimentos em transformadores, subestações, transmissão, reserva operativa, compensação de potência reativa, perdas e serviços de confiabilidade. Se um grande consumidor pagar apenas por energia e sua conexão exigir investimentos socializados, sua conta privada pode não refletir custo total ao sistema.

Também é possível que um consumidor de carga estável melhore utilização de infraestrutura ou viabilize investimento que não seria realizado sem contrato longo. O custo marginal pode variar segundo horários e localização; uma nova carga perto de uma usina não necessariamente dispensa rede robusta nem gera benefício automaticamente. O resultado depende de fluxo de potência, contingências e exigências de qualidade.

A política pública precisa publicar relação entre tarifas ofertadas, custos incrementais e receitas tributárias esperadas, sem revelar segredos comerciais desnecessários. Em empreendimentos internacionalizados, é igualmente importante acompanhar preços entre empresas relacionadas e onde os serviços digitais serão faturados. Eletricidade local pode produzir receitas no exterior quando propriedade intelectual e contratos globais pertencem a operador estrangeiro.

28. REDATA: a resposta industrial brasileira em 2026

O Brasil aprovou a Lei nº 15.504, de 15 de setembro de 2026, instituindo o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata). A lei concede incentivos tributários para equipamentos e exige contrapartidas em sustentabilidade, investimento e atendimento ao mercado nacional. O governo associa a política à atração de infraestrutura de IA e à redução da dependência de serviços digitais externos. [26][27]

Segundo o Ministério da Fazenda, os participantes devem direcionar em regra ao menos 10% da capacidade de serviços ao mercado interno, realizar investimentos correspondentes a 2% do valor de bens beneficiados, contratar ou autoproduzir energia limpa para atender sua demanda e observar indicador de eficiência hídrica de até 0,05 litro/kWh. A norma contempla adequações regionais e condições regulamentares específicas que não podem ser ignoradas em comparação de incentivos. [27]

O Redata não demonstra que o Brasil superará automaticamente o Paraguai na atração de centros de dados. Tarifas efetivas, custo dos equipamentos, disponibilidade de energia firme, tributos, latência de comunicação, segurança jurídica, conectividade e custo de capital continuam decisivos. A comparação também não deve presumir que todos os projetos paraguaios recebam incentivos idênticos aos brasileiros.

29. A demanda potencial de centros de dados e a diferença entre pedido e consumo

A EPE informou que os projetos com solicitação de conexão à rede brasileira somavam aproximadamente 9 GW até 2035, segundo levantamento de setembro de 2024, e cresceram para cerca de 15,7 GW até 2037 na atualização de fevereiro de 2025. A expansão das solicitações revela interesse, mas não equivale a usinas de computação contratadas, construídas e operando em carga nominal. Parte dos projetos pode ser revista, cancelada ou competir pelo mesmo acesso. [28]

Se hipoteticamente 15,7 GW fossem consumidos de maneira contínua, a energia correspondente seria 137,5 TWh anuais, escala materialmente relevante diante dos 667,8 TWh de consumo final de eletricidade do Brasil em 2025. Esse é limite aritmético, não previsão da EPE de consumo realizado. Eficiência energética, fatores de utilização, etapas de implantação e diferenças entre potência solicitada e carga de TI mudariam o cálculo. [7][28]

A concentração regional também importa. Uma nova instalação pode demandar subestações, linhas e geração de suporte justamente onde a rede já enfrenta restrições. A simples abundância nacional de parques eólicos no Nordeste não garante entrega instantânea a centros de dados em São Paulo. O planejamento deve relacionar localização, carga horária e custo de transmissão.

30. centros de dados como consumidores inflexíveis e infraestrutura crítica

Uma operação de nuvem e IA precisa assegurar continuidade para preservar contratos e integridade dos serviços. Alguns trabalhos podem ser deslocados entre regiões ou horas de preço baixo, mas processamento em tempo real e aplicações de baixa latência exigem padrões de disponibilidade mais rígidos. Uma instalação pode combinar tarefas flexíveis e inflexíveis; tratá-la como carga inteiramente adaptável seria imprudente.

Do ponto de vista do sistema elétrico, a demanda contínua pode ajudar a absorver geração renovável em certos horários, mas também aumentar pressão durante escassez hidrológica e períodos de ponta. Sua participação em programas de resposta da demanda, armazenamento e autoprodução pode reduzir custos, desde que a flexibilidade seja verificável e remunerada de forma transparente.

A segurança do data center exige redundância elétrica, resfriamento, proteção contra incêndio, fibras, sistemas cibernéticos e reservas de equipamento. O consumo de energia não constitui seu único impacto; água, geradores de emergência, descarte de calor e equipamentos eletrônicos também geram custos locais e riscos operacionais.

31. Inteligência artificial e competição por eletricidade de baixa emissão

Modelos de linguagem, simulações científicas e serviços de nuvem usam processadores cujo desempenho e consumo dependem de hardware, arquitetura, técnicas de treinamento e taxa de utilização. A demanda mundial de computação incentiva empresas a buscar países com energia relativamente barata, baixa intensidade de carbono e disponibilidade de terreno e infraestrutura.

Um data center perto de Itaipu oferece narrativa comercial atraente: eletricidade hidrelétrica associada a um empreendimento de grande escala. Contudo, contratos e medições precisam confirmar a origem e o impacto marginal do fornecimento, especialmente em sistemas interligados nos quais deslocar energia de um consumidor pode induzir geração por outra fonte. O selo de energia renovável não resolve automaticamente emissões adicionais do sistema.

A proximidade da fonte também não garante soberania digital ao país anfitrião. Empresas podem manter controle do software, das chaves de criptografia, do treinamento de modelos e das receitas de nuvem fora do território. O governo deve distinguir localizar computadores no país de adquirir autonomia científica, tecnológica e jurídica sobre sistemas que deles dependem.

32. Curtailment: por que energia excedente pode ser desperdiçada em um país renovável

O Brasil enfrenta episódios de restrição de geração eólica e solar, conhecidos como curtailment. O Operador Nacional do Sistema e a ANEEL passaram a aperfeiçoar regras para gerenciar excesso de geração, limitações de escoamento e requisitos elétricos. Em outubro de 2026, a ANEEL aprovou nova ordem para cortes obrigatórios associados, entre outras causas, à sobreoferta energética. [29][30]

Quando o sistema precisa limitar geração em determinado horário, a energia potencial que não foi produzida não fica automaticamente armazenada para o período noturno. O valor de novas cargas dependerá de sua capacidade de consumir justamente em áreas e horas com excesso. centros de dados que funcionam continuamente não solucionam, por si só, o descompasso sazonal ou horário sem armazenamento e flexibilidade.

O fenômeno demonstra que abundância de fontes renováveis pode coexistir com custos elevados e restrições operativas. A solução envolve transmissão, controle de tensão, resposta da demanda, armazenamento, previsão meteorológica e desenho tarifário coerente. Conceder energia barata a um campus que não alivie a restrição relevante pode piorar o resultado econômico.

33. Hidrologia do Paraná: segurança contra estiagem e excesso de chuva

A geração de Itaipu depende da vazão que chega ao reservatório, da operação das usinas a montante e das condições da bacia. Alterações climáticas e de uso do solo podem modificar riscos de estiagem, extremos pluviométricos e erosão. Um reservatório hidrelétrico não produz água; converte parte de sua energia potencial em eletricidade conforme condições físicas e operativas.

Em 23 de outubro de 2026, a Itaipu Binacional informou ações de redução estratégica do nível do reservatório diante de previsão de chuvas intensas e possibilidade de acumulados superiores a 300–350 mm em pontos da bacia. O objetivo comunicado era moderar defluências e reduzir risco de coincidência dos picos de cheia do Paraná e do Iguaçu. Trata-se de risco de inundação e gestão hidráulica, não de escassez de energia nem ataque estrangeiro. [31]

A segurança energética precisa conciliar geração, prevenção de cheias, manutenção de barragens e proteção de ribeirinhos. Em determinados momentos, verter água é obrigação de segurança e não desperdício causado por incapacidade industrial. O planejamento deve evitar interpretações que punam operadores por priorizar vida humana ou estabilidade hidráulica.

34. As secas, a complementaridade das fontes e a resiliência do SIN

Secas regionais podem reduzir produção hidrelétrica, elevar custos marginais e exigir maior despacho térmico. Uma matriz majoritariamente hídrica apresenta vulnerabilidade à hidrologia, mitigada parcialmente pela diversidade geográfica de reservatórios, integração de sistemas e outras fontes. Eólicas e solares reduzem consumo de água dos reservatórios em certos períodos, mas não substituem automaticamente potência firme no pico noturno.

A expansão de armazenamento, linhas de interligação e gerenciamento da demanda pode reduzir exposição a eventos climáticos. A complementaridade de eólicas do Nordeste, solar e hidrelétricas deve ser avaliada em séries temporais e eventos extremos, não somente em médias anuais. O custo de uma alternativa depende de sua contribuição à segurança em horas críticas.

A crescente carga de centros de dados exige atenção especial à coincidência com períodos hidrologicamente difíceis. O planejamento de Itaipu, as regras nacionais e a programação de novos empreendimentos precisam considerar cenários de vazão baixa e alta demanda, e não assumir repetição da produção favorável observada em 2025.

35. Transmissão como infraestrutura tão estratégica quanto a barragem

A energia de Itaipu chega ao Brasil mediante sistemas de transmissão interligados e estações adequadas às diferentes frequências. O aproveitamento do potencial depende dessas linhas, transformadores, sistemas de compensação e dispositivos de proteção. Falha em um corredor de transmissão pode ter efeito amplo mesmo que as turbinas permaneçam operacionais.

A construção e modernização de linhas exigem licenciamento, servidões, aço, transformadores e equipamentos de controle frequentemente sujeitos a mercados globais. A dependência de componentes importados é forma de exposição geopolítica distinta do contrato de energia entre Estados. Ela pode tornar prolongada a recuperação de falhas quando equipamentos possuem longos prazos de entrega.

Redundância deve ser calculada para contingências plausíveis, equilibrando custo e segurança. Duplicar toda a infraestrutura sem critério não é economicamente eficiente; operar sem peças críticas ou planos de reposição também é perigoso. Reguladores e operadores precisam acompanhar confiabilidade, manutenção e disponibilidade real.

36. Eventos climáticos extremos e quedas de torres em 2026

Em outubro de 2026, o ONS comunicou que tempestades associadas ao El Niño haviam danificado extensamente torres de transmissão em várias regiões desde o inverno. Informações divulgadas à imprensa apontaram mais de 290 estruturas afetadas, com concentração no Sul; apesar das ocorrências, o operador avaliou que a resposta do sistema preservou a maior parte do atendimento. [32]

Esse evento demonstra a diferença entre vulnerabilidade física e apagão sistêmico. Uma rede resiliente pode perder elementos e ainda abastecer consumidores por rotas alternativas, desde que proteções e reservas operem adequadamente. Por outro lado, os custos de recuperação, segurança do pessoal e reposição de equipamentos permanecem relevantes.

A análise de ameaças deve dar prioridade a fatores observados — tempestades, incêndios, manutenção, vandalismo e falhas técnicas — sem negligenciar sabotagem ou ataques deliberados quando existirem evidências. Atribuir cada falha a ingerência externa não melhora a proteção e pode induzir políticas de defesa mal dimensionadas.

37. Segurança cibernética de usinas, subestações e centros de dados

Infraestrutura elétrica moderna utiliza sistemas de supervisão, proteção, comunicação e automação que ampliam eficiência e controle. Também aumenta a superfície potencial de ataque digital se redes corporativas, fornecedores e operações industriais não estiverem devidamente segmentados. Um incidente pode afetar disponibilidade ou integridade das informações sem causar necessariamente perda física da geração.

A criticidade de Itaipu exige atenção a gestão de acesso, atualização controlada, verificação de fornecedores, recuperação offline, monitoramento de anomalias e coordenação entre equipes binacionais. Essas práticas devem ser implantadas sem expor detalhes operacionais sensíveis em materiais públicos. A segurança industrial é responsabilidade contínua, não simples aquisição de software.

A presença de centros de dados amplia conexões comerciais e tráfego digital próximos à infraestrutura energética, mas não prova que computadores empresariais serão conectados aos sistemas de controle da usina. O projeto deve manter separação física e lógica adequada entre rede elétrica, automação da geração e serviços privados de computação.

38. O Exército Brasileiro e a proteção de infraestrutura estratégica

As Forças Armadas possuem missão constitucional de defesa do território e podem integrar planejamento de contingências para instalações de importância nacional. Isso não transforma todo contrato elétrico em matéria militar nem afasta competências de autoridades civis, reguladores e operadores. A segurança cotidiana depende de proteção física, inteligência, coordenação com polícias e resposta a emergências.

A presença de Itaipu na fronteira exige cooperação de Brasil e Paraguai para evitar incidentes e proteger trabalhadores e população. Uma operação unilateral em território do outro país teria consequências jurídicas e diplomáticas graves. A lógica de defesa preventiva deve privilegiar comunicação e protocolos bilaterais.

Interesses norte-americanos em centros de dados não devem ser confundidos com mobilização de tropas contra a barragem. Risco armado interestatal exigiria evidência de intenções e meios militares que não aparece nos anúncios de outubro de 2026. A prioridade verificável inclui resiliência da rede, segurança física, controle de acesso e preparação para catástrofes naturais.

39. A política energética como instrumento de influência econômica

Um país ou empresa pode exercer influência por financiamento, tecnologia, contratos de fornecimento, padrões de operação, comércio ou presença de clientes industriais. Essas formas de poder são reais e podem modificar decisões nacionais sem uso de força. No caso paraguaio, a capacidade de atrair centros de dados norte-americanos pode ampliar incentivos para destinar mais energia a novos negócios e aumentar o valor econômico da parcela que antes era cedida ao Brasil.

Para Washington, diversificar locais de computação sob empresas de sua esfera econômica pode reduzir exposição a custos de energia e criar novos corredores de infraestrutura digital. Para Assunção, oferece investimento e promessa de modernização. Para Brasília, altera a comparação entre comprar excedente e desenvolver alternativas domésticas.

A palavra interferência deve ser empregada com precisão. Diplomacia comercial transparente é influência legítima; pressão econômica pode ser contestada segundo suas circunstâncias; operações clandestinas requerem prova própria; violação de direitos binacionais depende dos instrumentos do tratado. O simples fato de um empresário norte-americano negociar no Paraguai não demonstra irregularidade.

40. O valor estratégico de 2027: energia paraguaia no mercado brasileiro

O acordo anunciado pelo governo brasileiro em 2024 contemplou a perspectiva de abertura de mercado para excedentes paraguaios a partir de 2027. Sua implementação depende de negociações do Anexo C e regras complementares. A presença simultânea de potenciais clientes digitais no Paraguai pode reduzir a quantidade disponível para exportação se a demanda local crescer, sob o regime jurídico efetivamente aplicável. [19]

Isso pode modificar preços e fluxos, mas não prova perda de segurança de abastecimento do Brasil em proporção idêntica à capacidade de TI anunciada. O sistema brasileiro possui outras fontes, e cada incremento de demanda exige análise física. O Paraguai também deve avaliar a estabilidade de sua oferta doméstica e investimentos de rede caso grandes clientes se concentrem próximos à fronteira.

As alternativas de política brasileira incluem diversificação de geração e transmissão, contratos de longo prazo, negociação bilateral e maior integração energética regional. Nenhuma é gratuita. O ganho resulta de comparar custos de garantia de suprimento, impactos sobre consumidores e benefícios de relações políticas estáveis.

41. Paraguai, mineração de criptoativos e precedentes de consumo intenso

A disponibilidade relativa de hidreletricidade estimulou interesse paraguaio em atividades de grande consumo elétrico, incluindo mineração de criptoativos. A comparação com centros de dados de IA exige atenção: ambos podem empregar equipamentos digitais intensivos em energia, mas possuem cadeias de receita, requisitos de disponibilidade, emprego e impactos financeiros diferentes.

A presença de grandes consumidores pode ajudar a utilizar infraestrutura em períodos favoráveis, mas também criar pressão para tarifas especiais. Reguladores precisam proteger consumidores residenciais e empresas existentes contra subsídios cruzados não transparentes. Contratos mal desenhados tornam o Estado dependente de operadores cuja atividade pode se deslocar rapidamente conforme lucratividade.

O programa de IA anunciado para 2027 deve ser examinado por seus próprios fluxos: contratos de nuvem, uso local, transferência de conhecimento, licenciamento e investimentos complementares. Transferir conclusões econômicas de criptoativos para IA apenas porque ambos usam eletricidade produziria diagnóstico deficiente.

42. Brasil, Argentina, Uruguai e a integração elétrica sul-americana

O Brasil possui experiências de intercâmbio e interligação com Argentina e Uruguai, além de Itaipu e outros sistemas de fronteira. A integração pode reduzir custos quando países possuem excesso e escassez em momentos diferentes. Ao mesmo tempo, depende de regras comerciais, linhas de transmissão e coordenação diplomática.

A Argentina ilustra risco de conflito sobre aproveitamento de águas compartilhadas, resolvido em parte pelo Acordo Tripartite de 1979, e o potencial de intercâmbio de eletricidade em sistemas com complementaridade sazonal. O Uruguai oferece outro modelo de cooperação, com escala de mercado e parque gerador distintos.

Uma política sul-americana de segurança energética não deve buscar dependência exclusiva de um vizinho. Deve diversificar intercâmbios, assegurar reservas e organizar mecanismos previsíveis de negociação. O risco geopolítico se reduz quando os países possuem incentivos econômicos compartilhados e regras para resolver disputas.

43. Comparação global: Quebec, Noruega e centros de dados energointensivos

Regiões com eletricidade hidrelétrica e temperaturas favoráveis procuram atrair serviços computacionais por benefícios de energia, resfriamento e baixo carbono. Quebec e Noruega são exemplos de ambientes em que governo, concessionárias e empresas precisam equilibrar desenvolvimento digital com necessidades de indústria e consumidores. A vantagem relativa pode ser limitada por falta de linhas, competição por potência ou ausência de mão de obra especializada.

A comparação não autoriza assumir que basta uma barragem para criar uma economia de inteligência artificial. Energia é insumo relevante, mas produção de hardware, redes de fibra óptica, pesquisa em algoritmos, segurança dos dados e instituições contratuais também determinam localização e apropriação da renda gerada.

Paraguai e Brasil podem competir por investimentos, mas diferem em escala de mercado doméstico, estrutura de tarifas, tributação, demanda digital e conectividade. O investimento com maior benefício nacional pode não ser necessariamente o de maior capacidade anunciada.

44. Escenarios de poder: investimento, dependência e maior autonomia

No cenário de integração produtiva, o Paraguai usa energia de sua parcela contratual para atrair computação com tarifas adequadas, investimento de rede e programas de qualificação. O Brasil mantém diálogo eficaz sobre o Anexo C, amplia capacidade nacional de IA e diversifica fontes de energia firme. A eletricidade binacional sustenta novas cadeias sem prejudicar direitos contratuais nem consumidores.

No cenário de dependência digital, o Paraguai disponibiliza energia barata a operadores cujo lucro, tecnologia e faturamento permanecem predominantemente no exterior. O Brasil responde com incentivos fiscais pouco avaliados, elevando custos públicos sem desenvolver capacidade científica significativa. Grandes anúncios não se convertem em inovação local.

No cenário de contencioso tarifário, desacordos sobre preço, uso do excedente e investimentos de transmissão degradam a relação política. Empresas enfrentam incerteza e podem adiar projetos. No cenário de choque físico ou climático, estiagem severa, falha de transmissão ou eventos extremos tornam a segurança do abastecimento mais importante que metas de expansão de computação. Os cenários são condicionais, não previsões probabilísticas.

45. A matriz de riscos específicos para o Brasil

A exposição hidrológica permanece elevada pela importância da água nos custos e na flexibilidade da eletricidade nacional. A exposição de transmissão envolve eventos extremos, necessidade de expansão e equipamentos críticos. A exposição financeira deriva de tarifas, encargos e possíveis subsídios a grandes consumidores. A exposição contratual externa aparece na renegociação com Paraguai e nos efeitos da captura de cargas industriais de alta potência.

A exposição digital envolve dependência de provedores de nuvem, chips, sistemas de automação e segurança de dados. A exposição político-diplomática é ilustrada pela suspensão de negociações após a crise de espionagem de 2025. A exposição socioambiental abrange cheias, secas, reservatórios e impactos de grandes projetos.

Uma ameaça militar norte-americana para tomar Itaipu não apresenta evidência pública equivalente às exposições listadas. Sua consideração em planejamento de contingências requer sinais concretos de escalada, não a nacionalidade da Crusoe ou declarações genéricas sobre segurança econômica.

46. Custos de oportunidade: eletricidade para indústria ou para serviços digitais

O custo de oportunidade de uma unidade de energia depende de alternativas reais, não de preferências abstratas por determinado setor. Produção de aço, fertilizantes, hidrogênio, alumínio ou computação pode usar eletricidade e gerar diferentes volumes de empregos, exportações, impostos e competências. A comparação deve considerar a produtividade marginal, recursos complementares e competitividade global de cada cadeia.

O data center tem vantagens de implantação escalável e forte demanda internacional por serviços, mas pode produzir menos empregos diretos por megawatt do que algumas atividades industriais. Por outro lado, sua presença pode desenvolver ecossistema de serviços digitais, desde que haja formação, empresas locais e clientes. A avaliação não pode reduzir benefício a empregos de obra nem ignorar pesquisa, tributos e infraestrutura compartilhada.

O Brasil deveria exigir de projetos incentivados metas verificáveis de uso local, eficiência elétrica, disponibilidade de água e formação tecnológica. O Paraguai pode adotar critérios próprios. O objetivo não é ditar escolhas a Assunção, mas negociar efeitos binacionais e evitar que consumidores nacionais absorvam externalidades de decisões privadas.

47. Indicadores para acompanhar Itaipu e a indústria de IA

A monitorização deve distinguir energia total produzida, energia entregue a cada país, cota cedida, potência contratada, tarifas efetivas, royalties e custos de operação. Todos precisam ter período, unidade e origem identificados. A diferença entre direito de 50% e energia fisicamente entregue deve permanecer explícita.

Para centros de dados, indicadores relevantes incluem potência de TI, potência total do campus, conexão elétrica autorizada, consumo mensal medido, PUE observado, eficiência hídrica, tarifa, investimentos de rede, disponibilidade, clientes nacionais e empregos qualificados. A iniciativa Crusoe–Araico deve ser acompanhada em marcos de licenciamento, construção, energização e operação comercial, em vez de contabilizada como 280 MW instalados no momento do anúncio.

Para segurança energética nacional, devem ser acompanhados níveis de reservatórios, riscos climáticos, perdas de transmissão, cortes de geração renovável, importações de combustíveis, reservas operativas e recuperação após incidentes. Um painel com séries históricas comparáveis vale mais que uma sucessão de declarações políticas sem métricas.

48. O que o Brasil pode negociar sem violar a soberania paraguaia

A política externa brasileira pode exigir cumprimento de direitos contratuais, transparência sobre efeitos de novos projetos na operação binacional e previsibilidade de entrega. Pode negociar regras para intercâmbio, recomposição tarifária, investimentos comuns e solução de controvérsias. Não deve reivindicar controle absoluto sobre a parcela paraguaia apenas porque empresas estrangeiras poderão utilizar parte da energia.

Também é legítimo propor cooperação industrial, pesquisa energética conjunta e infraestrutura digital binacional com distribuição transparente dos ganhos. A coordenação pode ser mais produtiva que disputa de soma zero quando investimentos de rede e novos consumidores oferecem receitas adicionais.

Por outro lado, a ausência de participação brasileira em cerimônia empresarial não constitui autorização para afirmar que o Tratado foi violado. A evidência decisiva estaria no fornecimento efetivo, em cláusulas contratuais incompatíveis com regras vigentes ou em decisões unilaterais da entidade binacional sem competência. Nenhuma dessas conclusões decorre automaticamente dos anúncios examinados.

49. A lição histórica de Itaipu para o século da computação

Itaipu surgiu da combinação de engenharia, autoridade estatal, necessidades de industrialização e assimetrias regionais. A obra mudou a segurança energética de dois países, exigiu negociação com um terceiro e deixou legados econômicos e socioambientais. O Tratado de 1973 e o Anexo C continuam determinando a distribuição de direitos em contexto que seus autores não poderiam prever: a eletricidade passou a ser insumo para sistemas avançados de inteligência artificial.

O Paraguai tem direito de desenvolver indústria e serviços com energia dentro do quadro jurídico acordado. O Brasil possui interesse legítimo em modicidade tarifária, previsibilidade do abastecimento e proteção da estrutura binacional. Os Estados Unidos buscam infraestrutura digital confiável e ampliam sua influência por empresas, diplomacia e cooperação econômica. Esses objetivos podem coexistir ou entrar em conflito, conforme os contratos e as instituições.

A soberania efetiva não é medida pelo número de anúncios governamentais ou por acusações sem prova. Ela está na capacidade de assegurar rede elétrica resiliente, negociar tarifas justas, preservar direitos internacionais, desenvolver tecnologia própria e impedir que custos privados sejam transferidos silenciosamente à população.

50. O futuro até 2040: energia como fundamento da autonomia política e digital

A transição elétrica e digital será condicionada por hidrologia, disponibilidade de capital, tecnologias de armazenamento, linhas de transmissão e sistemas computacionais. Países capazes de combinar energia firme, manufatura, educação técnica e governança de dados capturarão parcela maior do valor criado. A dependência de uma única fonte ou de um único comprador pode reduzir autonomia mesmo quando a eletricidade consumida é renovável.

O desafio do Brasil é aproveitar vantagem em fontes limpas sem sacrificar modicidade ou confiabilidade para famílias e indústrias. Itaipu oferece instrumento de integração regional valioso, mas sua governança deve adaptar-se a novos usos econômicos, inclusive centros de dados. O investimento estrangeiro não é ameaça automática nem garantia de benefício; sua qualidade depende de contratos, concorrência e aprendizagem doméstica.

No século XXI, a política energética deixa de ser apenas política de eletricidade. Ela define onde serão construídos computadores, quais sociedades controlarão serviços digitais, que receitas permanecerão localmente e quanto espaço Estados terão para escolher parceiros. A disputa por Itaipu será decisiva se orientar essa transformação para prosperidade compartilhada e segurança durável, e não para um novo ciclo de dependência.

Quadro comparativo de indicadores e documentos

Dados da pesquisa
Dados da pesquisa
IndicadorPeríodoValorSignificado e ressalva
Itaipu, capacidade instaladaEstrutura atual14 GWPotência máxima nominal, não energia produzida
Itaipu, unidades geradorasEstrutura atual20Máquinas de 700 MW cada
Itaipu, produção anual202572,879 TWhDado final binacional
Itaipu, produção anterior202467,089 TWhDado final binacional
Itaipu, fornecimento à ANDE202525,768 TWhEnergia efetivamente entregue ao Paraguai
Itaipu, energia cedida da cota paraguaia ao Brasil202510,455 TWhDados comunicados ao Legislativo brasileiro
Itaipu, energia destinada ao Brasil202546,679 TWhDados comunicados ao Legislativo brasileiro
Brasil, oferta interna de eletricidade2025783,3 TWhBEN 2026, inclui importações líquidas
Brasil, consumo final de eletricidade2025667,8 TWhBEN 2026, conceito diferente da oferta
Brasil, renováveis na oferta elétrica202586,6%BEN 2026
Brasil, fonte hídrica na oferta elétrica202552,2%BEN 2026
Itaipu, custo unitário do serviço acordado2024–2026US$ 19,28/kW-mêsNão é preço direto por MWh de data center
Crusoe–Araico, escala projetada de TIFuturo106 MWCapacidade de expansão anunciada
Crusoe–Araico, opção de longo prazoFuturoaté 280 MWNão é projeto completo já em operação
280 MW de TI em uso contínuoHipótese aritmética2,4528 TWh/anoNão é consumo medido
280 MW de TI, PUE 1,20Hipótese aritmética2,9434 TWh/anoDemanda total de campus hipotético
Solicitações de conexão de centros de dados no BrasilAtualização 2025, até 203715,7 GWSolicitações; não carga construída

Visualizações analíticas

Itaipu, geração anual em TWhTWh
2024
67,089
2025
72,879
Ver dados
Itaipu, geração anual em TWh
Indicador / períodoValor (TWh)
202467,089
202572,879
Energia entregue em 2025 por Itaipu, segundo país de destinoTWh
Brasil
46,679
Paraguai
25,768
Ver dados
Energia entregue em 2025 por Itaipu, segundo país de destino
Indicador / períodoValor (TWh)
Brasil46,679
Paraguai25,768
Dimensão anual de um data center de 280 MW em uso contínuoTWh por ano
Equipamentos de TI
2,4528
Instalação completa com PUE 1,20
2,94336
Ver dados
Dimensão anual de um data center de 280 MW em uso contínuo
Indicador / períodoValor (TWh por ano)
Equipamentos de TI2,4528
Instalação completa com PUE 1,202,94336
Cadeia de transmissão
  1. Tratado de 1973
  2. propriedade e direitos iguais
  3. Anexo C e comercialização
  4. revisão após 2023
  5. contratos e usos econômicos a partir de 2027
  1. Parcela energética paraguaia
  2. ANDE e clientes locais
  3. novos investimentos em computação
  4. valor industrial local ou dependência de operadores externos
  1. Segurança brasileira
  2. hidrologia e geração
  3. linhas e conversores
  4. tarifas e contratos
  5. continuidade do fornecimento
Infraestrutura e interesses da segurança energética regional
Usina de Itaipu, Foz do Iguaçu, Paraná, Brasil
Hidrelétrica binacional

Produção partilhada por tratado

Hernandarias, Alto Paraná, Paraguai
Infraestrutura da margem paraguaia

Conexões elétricas e acesso de consumidores

Yguazú, Alto Paraná, Paraguai
Campus digital em desenvolvimento

Projeto de computação Crusoe-Araico na região

Assunção, Paraguai
Governo paraguaio e ANDE

Direitos contratuais, regulação e negociação do Anexo C

Brasília, Distrito Federal, Brasil
Governo, MME e ENBPar

Política de energia e diplomacia bilateral

Buenos Aires, Argentina
Estado a jusante na bacia

Acordo Tripartite de 1979

Washington, DC, Estados Unidos
Departamento de Estado

Pax Silica e estratégia internacional de IA

Segurança energética do Brasil e Itaipu
História e soberania
  • Guerra do Paraguai
  • Tratado de 1973
  • Anexo C e revisão em 2023
  • Renegociação de 2009-2011
Sistema elétrico
  • Hidrologia e reservatórios
  • Geração e oferta firme
  • Transmissão e conversão
  • Segurança cibernética
Conflito de interesses
  • Brasil e modicidade
  • Paraguai e industrialização
  • Estados Unidos e Pax Silica
  • Empresas de computação
centros de dados
  • Potência anunciada e demanda medida
  • Redata brasileiro
  • Tarifas e custo incremental
  • Água e infraestrutura
Riscos e futuro
  • Eventos climáticos
  • Conflito diplomático
  • Dependência tecnológica
  • Cenários até 2040

Referências

[1] Decreto nº 72.707, de 28 de agosto de 1973, promulgação do Tratado de Itaipu: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1970-1979/decreto-72707-28-agosto-1973-421325-publicacaooriginal-1-pe.html

[2] Itaipu Binacional, resultado final da geração em 2025, publicado em 12/01/2026: https://www.itaipu.gov.py/noticias/energia/central-hidroelectrica-itaipu-registro-una-productividad-record-en-el-ano-2025

[3] Itaipu Binacional, fornecimento de energia à ANDE em 2025, publicado em 09/01/2026: https://www.itaipu.gov.py/noticias/energia/itaipu-suministro-25-768-gwh-de-energia-electrica-a-paraguay-en-el-2025

[4] Crusoe, comunicado empresarial sobre parceria com Araico, 22/10/2026: https://www.crusoe.ai/resources/newsroom/crusoe-araico-hydroelectric-ai-infrastructure-partnership

[5] Ministério das Relações Exteriores do Paraguai, adesão à Pax Silica, 23/10/2026: https://www.mre.gov.py/paraguay-se-suma-a-la-declaracion-de-la-pax-silica/

[6] Agência de Informação Paraguaia, anúncio de Yguazú Digital e parceria Crusoe–Araico, 23/10/2026: https://mediosdelestado.gov.py/ip/2026/10/23/pena-presenta-en-ee-uu-proyecto-yguazu-digital-para-atraer-inversiones-en-infraestructura-digital-y-centros-de-datos/

[7] Empresa de Pesquisa Energética, Balanço Energético Nacional 2026, ano-base 2025: https://dashboard.epe.gov.br/apps/livro-ben/livro/pt/capitulo_1.html

[8] Congresso Nacional, Decreto Legislativo nº 23 de 1973, aprovação do Tratado: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decleg/1970-1979/decretolegislativo-23-30-maio-1973-346403-publicacaooriginal-1-pl.html

[9] Itaipu Binacional, cinquentenário e revisão do Anexo C: https://www.itaipu.gov.py/noticias/institucional/quincuagesimo-aniversario-de-vigencia-del-tratado-de-itaipu-abre-paso-a-la-revision-del-anexo-c

[10] Itaipu Binacional, Anexo C original em português: https://www.itaipu.gov.py/sites/default/files/u123/AnexoC.pdf

[11] Barros, Luiz Eduardo Pinto, estudo acadêmico sobre Argentina e Itaipu (1966–1979), Em Tempo de Histórias: https://periodicostestes.bce.unb.br/index.php/emtempos/article/view/37048

[12] Itaipu Binacional, história institucional e Acordo Tripartite de 1979: https://www.itaipu.gov.py/institucional/sobre-itaipu/nuestra-historia

[13] Banco Interamericano de Desenvolvimento, Monetary and Fiscal History of Brazil, 1960–2016, contexto do choque de 1973: https://publications.iadb.org/publications/english/document/The_Monetary_and_Fiscal_History_of_Brazil_1960-2016_en_en.pdf

[14] Federal Reserve History, Latin American Debt Crisis of the 1980s: https://www.federalreservehistory.org/essays/latin-american-debt-crisis

[15] Columbia Center on Sustainable Investment, Leveraging Paraguay's Hydropower for Economic Development, dívida de Itaipu: https://ccsi.columbia.edu/sites/ccsi.columbia.edu/files/content/docs/our%20focus/extractive%20industries/Leveraging-Paraguays-Hydropower-for-Economic-Development-Final-CCSI.pdf

[16] Itaipu Binacional, aprovação brasileira da triplicação de compensação ao Paraguai, 2011: https://www.itaipu.gov.py/noticias/sin-categorizar/brasil-aprobo-triplicar-compensacion-al-paraguay-por-energia-de-itaipu

[17] Câmara dos Deputados, aprovação de aumento da compensação por energia, 06/04/2011: https://www.camara.leg.br/noticias/212411-CAMARA-APROVA-AUMENTO-DO-VALOR-PAGO-AO-PARAGUAI-POR-ENERGIA-DE-ITAIPU

[18] Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, acordo de tarifa para 2024–2026: https://www.mic.gov.py/paraguay-y-brasil-acuerdan-historica-tarifa-de-itaipu-y-anuncian-el-inicio-de-las-negociaciones-del-anexo-c/

[19] Ministério de Minas e Energia do Brasil, acordo estrutural de 2024 e perspectivas para 2027: https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/brasil-e-paraguai-fecham-acordo-estrutural-para-tarifas-de-itaipu

[20] Ministério das Relações Exteriores do Paraguai, negociações de março de 2026: https://www.mre.gov.py/paraguay-y-brasil-avanzan-en-la-revision-del-anexo-c-de-itaipu/

[21] Itaipu Binacional, comunicado dos chanceleres de 19/03/2026: https://www.itaipu.gov.py/noticias/institucional/cancilleres-de-paraguay-y-brasil-destacan-avances-en-la-revision-del-anexo-c-del-tratado-de-itaipu

[22] Associated Press, suspensão de negociações de Itaipu após revelações de espionagem brasileira, 01/04/2025: https://apnews.com/article/24bd56c84442acfc08c5b6985df344f2

[23] Agência de Informação Paraguaia, visita de Christopher Landau e investimentos anunciados, 22/10/2026: https://mediosdelestado.gov.py/ip/2026/10/22/inversiones-en-tecnologia-y-nuevas-fuentes-de-energia-se-formalizaron-en-visita-del-subsecretario-de-ee-uu/

[24] ANDE, tarifas vigentes e categorias de consumo intensivo: https://www.ande.gov.py/tarifas_vigentes.php

[25] ABC Color, questionamentos sobre contrato de energia da parceria Araico–Crusoe, 23/10/2026: https://www.abc.com.py/economia/2026/10/23/araico-y-crusoe-usaran-energia-de-itaipu-para-un-centro-de-ia-la-ande-no-informa-sobre-el-contrato/

[26] Presidência da República, Lei nº 15.504, de 15/09/2026, Redata: https://www.presidencia.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15504.htm

[27] Ministério da Fazenda, sanção e contrapartidas do Redata, 16/09/2026: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2026/setembro/regime-especial-de-tributacao-para-servicos-de-datacenter-e-sancionado

[28] EPE, O consumo de energia elétrica dos centros de dados no Brasil — ponderações e incertezas, 2025: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-458/topico-801/GPL-018.pdf

[29] ONS, dados e documentos sobre restrições de geração e curtailment: https://www.ons.org.br/Paginas/faq_curtailment.aspx

[30] ANEEL, nova regra para cortes de geração aprovada em 06/10/2026: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2026-defeso-eleitoral/aneel-aprova-regra-para-organizar-cortes-de-geracao

[31] Itaipu Binacional, gestão do reservatório e risco de cheia em 23/10/2026: https://www.itaipu.gov.br/noticias/utilidade-publica/itaipu-adota-estrategia-para-conter-elevacao-do-rio-parana-diante-da-previsao-de-chuvas-intensas

[32] Folha de S.Paulo, informação sobre danos climáticos a linhas de transmissão em outubro de 2026: https://c-level.folha.uol.com.br/infraestrutura/2026/10/efeitos-do-el-nino-derrubam-mais-de-290-torres-de-energia-no-brasil-desde-julho.shtml

[33] Câmara dos Deputados, resposta do Ministério de Minas e Energia sobre destinação de energia de Itaipu em 2025: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=3134139&filename=Tramitacao-18-RIC-352-2026

Autoria

Christian Rafael de Souza Silva

Autor · Pesquisador · Marginal Thinking · LOGV Research

christian@marginalthinking.org
Como citar

Silva, Christian Rafael de Souza. “Segurança energética do Brasil: Itaipu, Paraguai, influência dos EUA e a disputa pelos centros de dados de IA.” Marginal Thinking / LOGV Research, 2026-10-25.

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