Pesquisa independente · LOGV ResearchArquivo
Wealth & Power · Pesquisa Anual

Global Wealth & Power Map 2025

Onde a riqueza mundial está concentrada, quem controla os gargalos necessários para produzir riqueza futura e como capital, recursos, tecnologia e poder econômico estão migrando.
Regime
Financeirização elevada + reindustrialização estratégica + concentração de gargalos
Risco principal
Fragmentação geoeconômica combinada a concentração de processamento, infraestrutura digital e financiamento
Acompanhar
COFER/USD · ouro de bancos centrais · FDI estratégico · refino de minerais · semicondutores

Marginal Thinking · LOGV Research · 15 setembro 2026 Ano analisado: 2025, com dados posteriores usados apenas quando publicados em 2026 para fechar ou revisar o ano-base.

Tese central: em 2025, a riqueza mundial permaneceu financeiramente ancorada nos Estados Unidos, industrialmente mais multipolar e fisicamente dependente de gargalos concentrados na Ásia. O dólar, os mercados de capitais norte-americanos e os ativos intangíveis dos EUA continuaram no centro do sistema; China e, em nichos específicos, Indonésia ampliaram ou preservaram controle sobre etapas críticas de processamento e manufatura; Estados exportadores de energia e fundos soberanos converteram renda de recursos em participações financeiras, infraestrutura e tecnologia. A principal transferência de poder não foi uma simples troca de “país rico” por outro, mas uma recomposição entre propriedade financeira, capacidade produtiva, processamento, tecnologia e controle de gargalos.


1. Executive Assessment

1.1 O sistema continuou centrado nos Estados Unidos — mas não de forma unidimensional

Fato observado · confiança alta. Os mercados dos EUA responderam por 43,7% da capitalização acionária mundial e 38,1% dos títulos de renda fixa em circulação em 2025. A capitalização global de ações chegou a US$ 157,8 trilhões, +18,9% no ano, e o estoque global de renda fixa a US$ 160,7 trilhões, +10,6%. O crescimento dos preços e da emissão aumentou o peso nominal do capital financeiro, mas não deve ser interpretado integralmente como nova poupança: parte relevante é valorização. Fonte: SIFMA, 2026 Capital Markets Fact Book.

Inferência · confiança alta. O poder financeiro dos EUA resulta menos de “possuir tudo” e mais de operar o principal mecanismo mundial de transformação de poupança em ativos líquidos: dólar, Treasuries, ações, crédito, venture capital e propriedade intelectual formam uma rede difícil de substituir em bloco.

1.2 A diversificação das reservas é real, mas não equivale a colapso do dólar

Fato observado · confiança alta. As reservas cambiais oficiais somavam US$ 13,14 trilhões no 4T25. Após revisão metodológica do COFER, o dólar atingiu 56,42% no 4T25 e voltou a 57,13% no 1T26. Em 2025, movimentos cambiais explicaram parte relevante das variações de participação. Fonte: FMI/COFER.

Inferência · confiança alta. A mudança é melhor descrita como diversificação marginal do que desdolarização abrupta. O dólar perde participação em horizonte longo, mas continua sem substituto único com escala, liquidez e profundidade comparáveis.

1.3 Ouro tornou-se novamente um ativo estratégico de balanço soberano

Fato observado · confiança alta. Bancos centrais compraram 863 toneladas líquidas de ouro em 2025, segundo o World Gold Council — abaixo dos picos recentes, mas muito acima do padrão histórico pré-2022. A pesquisa de 2026 do WGC mostrou 89% dos bancos centrais esperando aumento das reservas globais de ouro nos 12 meses seguintes.

Inferência · confiança média-alta. O ouro não substitui o dólar como meio de liquidação do comércio global; sua função é diferente: reduzir risco de contraparte e sanção no ativo de reserva marginal. Isso favorece uma arquitetura de reservas mais híbrida: moedas conversíveis + ouro + ativos regionais.

1.4 A maior mudança estrutural está no elo entre recursos, processamento e manufatura

Fato observado · confiança alta. A IEA estima que a participação média do maior fornecedor no refino dos minerais críticos acompanhados atingiu 70% em 2025, ante 68% em 2020. China e Indonésia responderam por mais de três quartos do crescimento da oferta refinada entre 2023 e 2025. Desde 2005, a China respondeu por mais de 90% do aumento da capacidade mundial de fundição de cobre, elevando sua participação de cerca de 15% para 50% em 2025.

Inferência · confiança alta. Possuir a jazida não equivale a controlar a renda. O poder econômico desloca-se para quem controla separação, fundição, refino, químicos, componentes, equipamentos e clientes industriais.

1.5 IA transformou eletricidade, chips e data centers em ativos geoeconômicos

Fato observado · confiança alta. Data centers capturaram mais de um quinto do valor de projetos greenfield globais em 2025, segundo a UNCTAD. A IEA estima que a demanda elétrica de data centers cresceu 17% em 2025 e que o capex de cinco grandes empresas de tecnologia superou US$ 400 bilhões. As vendas mundiais de semicondutores atingiram recorde de US$ 791,7 bilhões, +25,6%.

1Inferência · confiança alta. O “ativo de IA” não é apenas software. A cadeia de captura de renda passa por capital
2chips
3data centers
4rede elétrica
5gás/nuclear/renováveis
6cobre
7refrigeração
8terrenos conectados à rede. A restrição marginal migra do algoritmo para infraestrutura física em vários mercados.

1.6 China consolidou um modelo de poder baseado em escala industrial e midstream

Fato observado · confiança alta. A China produziu mais de 80% das baterias em 2025; respondia por aproximadamente 85% da capacidade da cadeia solar e 80% da cadeia de baterias de íons de lítio, com participações ainda maiores em wafers fotovoltaicos e materiais de ânodo. Em propriedade intelectual, a China tinha 5,7 milhões de patentes em vigor em 2024, ante 3,5 milhões nos EUA, embora métricas de patentes não sejam equivalentes a valor econômico.

Inferência · confiança alta. A vantagem chinesa é mais robusta em escala, integração de cadeia e manufatura do que em uma métrica única de riqueza financeira.

1.7 Estados do Golfo converteram renda de hidrocarbonetos em capital global

Fato observado · confiança média-alta. Ativos de investidores estatais continuaram crescendo e estimativas de mercado colocaram SWFs e fundos públicos em níveis recordes em 2025. Dados compilados por Global SWF indicaram cerca de US$ 15,2 trilhões em ativos de investidores soberanos/fundos públicos no agregado reportado, com forte protagonismo do Oriente Médio em tecnologia e IA.

1Inferência · confiança alta. O Golfo opera uma conversão patrimonial: hidrocarbonetos subterrâneos
2fluxo fiscal/exportador
3ativos financeiros globais
4infraestrutura, tecnologia e participações produtivas. Essa é uma das transferências de riqueza mais importantes do sistema porque troca um ativo esgotável por claims sobre renda futura diversificada.

1.8 O mundo ficou mais endividado e, portanto, mais dependente da precificação financeira

Fato observado · confiança alta. A dívida pública global subiu para pouco menos de 94% do PIB em 2025, segundo o FMI, enquanto dívida total pública + privada permanecia acima de 235% do PIB na última leitura consolidada. O crédito bancário transfronteiriço voltou a superar máximas pré-crise financeira: US$ 34,7 trilhões no 1T25, segundo o BIS.

Inferência · confiança alta. Quanto maior a dívida, maior o poder de quem controla moeda de financiamento, mercados de títulos, collateral e canais de liquidez. Isso reforça o peso sistêmico dos EUA mesmo enquanto a produção física se torna mais asiática.

1.9 Ativos intangíveis tornaram-se um reservatório de riqueza comparável aos grandes ativos físicos

Fato observado · confiança média-alta. A WIPO estima que o investimento global em intangíveis ultrapassou US$ 10 trilhões em 2025, com os EUA respondendo por quase metade. Estimativas de valor de ativos intangíveis corporativos aproximaram-se de US$ 100 trilhões em 2025, mas são avaliações e não devem ser somadas diretamente a capitalização de mercado.

Inferência · confiança alta. Software, dados, marcas, design, P&D e propriedade intelectual ampliam a diferença entre “onde a fábrica está” e “quem captura a margem”.

1.10 Regime de 2025

Regime: financeirização elevada + reindustrialização estratégica + concentração de gargalos + securitização de cadeias de suprimento.

O mundo não convergiu para dois blocos econômicos perfeitamente separados. O que surgiu foi uma rede mais cara e redundante, na qual governos tentam reduzir dependências em chips, minerais, energia e infraestrutura digital sem abrir mão das eficiências do comércio global.


2. Metodologia, cobertura e limites

Este relatório usa quatro conceitos que não podem ser confundidos:

  1. Estoque: valor existente em uma data — ações, títulos, reservas, ouro, capacidade industrial ou reservas minerais.
  2. Fluxo: movimento durante um período — FDI, emissão, compra de ouro, comércio, investimento ou crédito.
  3. Valorização: mudança de preço ou câmbio sem transferência física ou de propriedade.
  4. Mudança de controle: aquisição, nacionalização, sanção, reorganização societária ou deslocamento de capacidade que altera quem decide sobre um ativo.

Não existe um “balanço patrimonial mundial” único e consolidado. Somar US$ 157,8 tri de ações, US$ 160,7 tri de títulos, imóveis, ouro, recursos naturais e intangíveis produziria dupla ou tripla contagem. A ação já capitaliza fábricas, patentes e fluxos futuros; um título é simultaneamente ativo do credor e passivo do devedor; o valor de uma jazida pode estar incorporado no valor da empresa que a controla.

Por isso, os números deste relatório são mapas de poder por camada, não parcelas aditivas de uma mesma pizza.

Horizontes de 5, 10 e 20 anos são utilizados apenas quando a metodologia permaneceu suficientemente comparável. Mudanças de classificação — como a revisão do COFER — são tratadas como quebras metodológicas e não como fluxos econômicos.


3. Balanço global de ativos financeiros

Camada2025MudançaLeitura de poder
Capitalização acionária globalUS$ 157,8 tri+18,9% a/aEUA 43,7% do total
Renda fixa global em circulaçãoUS$ 160,7 tri+10,6% a/aEUA 38,1% do total
Reservas cambiais oficiaisUS$ 13,14 tri (4T25)leve alta t/tdólar ainda dominante
FDI globalUS$ 1,6 tri+6% na leitura final UNCTAD>80% nos 20 maiores destinos
Crédito bancário cross-borderUS$ 34,7 tri no 1T25acima do pico pré-GFCdólar/euro seguem centrais
Camada · Mudança
Capitalização acionária global
+189%
Renda fixa global em circulação
+106%
Reservas cambiais oficiais
0%
FDI global
+6%

A principal conclusão não é que “finanças valem mais que a economia real”, mas que a propriedade financeira é o mecanismo jurídico de apropriação da renda da economia real. A geografia dos mercados de capitais importa porque define onde empresas se financiam, onde investidores estacionam poupança e qual jurisdição recebe fees, impostos, talento e informação.

Em 2024, ações globais somavam US$ 126,7 trilhões e renda fixa US$ 145,1 trilhões. A expansão para 2025 foi extraordinária, sobretudo em ações. Parte representa lucro esperado e reprecificação, não formação de capital físico.

Horizonte 20 anos. O peso relativo dos EUA nos mercados financeiros permaneceu desproporcional ao seu peso no PIB mundial. Ao mesmo tempo, China desenvolveu mercados domésticos enormes, mas controles de capital, menor conversibilidade e diferenças institucionais limitam seu papel como reservatório global equivalente.


4. Dívida e crédito

O FMI estima dívida pública global pouco abaixo de 94% do PIB em 2025 e projeta 100% em 2029 no cenário-base de abril de 2026. A dívida total global permanece muito maior quando setor privado é incluído.

O BIS registrou US$ 34,7 trilhões de crédito bancário transfronteiriço no 1T25, acima do pico pré-2008. No 3T25, claims bancários cross-border aumentaram US$ 832 bilhões ajustados por câmbio e quebras; no 4T25, mais US$ 994 bilhões.

A distribuição, contudo, divergiu: no 3T25, crédito para Ásia emergente caiu 6% a/a, enquanto Europa emergente, África/Oriente Médio e América Latina cresceram.

Implicação: poder financeiro não está apenas no tamanho do estoque de dívida, mas em quem fornece a moeda marginal de financiamento e quem controla o collateral. Sanções, liquidez em dólar e acesso a clearing passaram a ter valor geopolítico explícito.


5. Reservas cambiais e moedas de reserva

O COFER do FMI registrou US$ 13,14 trilhões de reservas cambiais no 4T25. A participação do dólar caiu em horizonte longo: estava acima de 70% no fim dos anos 1990 e ficou na faixa de 56–58% em 2025/26. Isso é uma transformação de duas décadas, mas lenta.

Em 2025, movimentos de EUR, JPY e outras moedas contra o dólar distorceram comparações trimestrais. A queda do dólar para 56,32% no 2T25, por exemplo, foi explicada em boa medida pela valorização de outras moedas de reserva.

Conclusão:

  • dólar: continua núcleo de liquidez e collateral;
  • euro: segundo polo, mas sem mercado fiscal unificado equivalente ao Treasury;
  • renminbi: importante em comércio bilateral e financiamento ligado à China, mas controles de capital limitam função de reserva universal;
  • ouro: cresce como hedge soberano não-passivo;
  • moedas menores: ganham participação marginal por diversificação.

6. Ouro oficial

Os bancos centrais compraram 863 t líquidas em 2025. O movimento deve ser interpretado em três camadas:

  1. quantidade: compra física líquida;
  2. preço: valorização aumenta participação do ouro sem nova compra;
  3. estratégia: ouro não é passivo de outro Estado.

A demanda soberana elevada desde 2022 sugere mudança de regime. Não é evidência de que bancos centrais estejam abandonando reservas cambiais, mas de que estão elevando o valor de ativos sem risco direto de contraparte.

Ganhadores: produtores de ouro, países com grande estoque oficial e sistemas de negociação/custódia. Perdedores relativos: emissores de reservas tradicionais na margem, caso a diversificação persista.


7. Fundos soberanos e capital estatal

Fundos soberanos transformam renda extraordinária, reservas e poupança pública em propriedade global. O movimento mais relevante de 2025 foi a intensificação da exposição a tecnologia, infraestrutura digital, private markets e IA.

O Oriente Médio ganhou importância por três razões: superávits de hidrocarbonetos, escala dos fundos e capacidade de executar transações grandes sem depender do ciclo político trimestral de empresas listadas.

A Noruega continua modelo distinto: converte petróleo em portfólio financeiro global amplamente diversificado. Singapura combina reservas, holdings estatais e estratégia de hub. China usa múltiplos veículos estatais e bancos de política, tornando comparações simples de AUM incompletas.

Leitura de 20 anos: a ascensão dos SWFs significa que uma parcela maior da propriedade global é intermediada por Estados, mesmo em economias de mercado.


8. Capital privado e investimento direto

A UNCTAD estima FDI global de US$ 1,6 trilhão em 2025, +6% na leitura final do World Investment Report 2026. Mais de 80% foi para os 20 maiores países receptores.

O dado estrutural mais importante está na composição: setores estratégicos passaram de 16% do valor de projetos greenfield em 2020 para 44% em 2025. Data centers sozinhos responderam por mais de um quinto do greenfield mundial.

Isso indica concentração dupla:

  • geográfica: poucos destinos capturam a maior parte do capital;
  • setorial: IA, semicondutores, minerais críticos e transição energética absorvem parcela crescente dos grandes projetos.

Mudança de poder: capital está migrando para ativos que combinam barreira física, tecnológica e regulatória.


9. Imóveis, terra e infraestrutura

Não existe série mundial anual de imóveis, terra e infraestrutura com qualidade suficiente para ser agregada aqui sem falsa precisão. Imóveis residenciais são o principal ativo de famílias em muitos países, mas metodologias de preço, cobertura cadastral e alavancagem diferem fortemente.

A leitura estrutural mais defensável é qualitativa:

  • imóveis em centros financeiros continuam funcionando como reserva privada internacional;
  • infraestrutura energética e digital ganhou prêmio estratégico;
  • terrenos com conexão elétrica e fibra passaram a capturar renda associada a data centers;
  • corredores logísticos e portos adquiriram valor adicional com fragmentação geopolítica.

Esses ativos não são somados ao balanço financeiro para evitar dupla contagem.


10. Energia: reserva não é poder sem produção, transporte e conversão

1O mapa energético deve ser lido em cinco etapas: reserva
2produção
3processamento
4transporte
5consumo.

Os EUA consolidaram a transformação iniciada pelo shale: em 2025 permaneceram o maior produtor de petróleo bruto, com cerca de 13,6 milhões b/d nas estimativas EIA citadas em 2026. Oriente Médio continua central em reservas de baixo custo e capacidade exportadora. Rússia mantém grande base de hidrocarbonetos, mas enfrenta restrições de acesso a capital, tecnologia e mercados ocidentais.

Na eletricidade, fontes de baixa emissão — renováveis + nuclear — atingiram 43% da geração global em 2025, maior participação em cinquenta anos, segundo a IEA. Ao mesmo tempo, gás natural e nuclear também cresceram, mostrando que a demanda incremental não está sendo atendida por uma única tecnologia.

A ascensão de data centers torna capacidade firme de geração, rede, transformadores e interconexão ativos estratégicos. Nos EUA, a IEA estima que data centers podem responder por metade do crescimento da demanda elétrica até 2030.


11. Minerais estratégicos

O maior erro é mapear apenas reservas geológicas.

EloExemplos de controle
ReservaChile/Argentina/Bolívia em lítio; RDC em cobalto; vários produtores em cobre
MineraçãoAustrália, Chile, RDC, Indonésia, China e outros, conforme mineral
Refino/processamentoforte concentração chinesa; Indonésia em níquel
ComponentesChina dominante em vários materiais de bateria e solar
Demanda industrialChina, EUA, Europa, Japão, Coreia e cadeias globais

A IEA mostra que a concentração média no maior refinador dos minerais acompanhados subiu para 70% em 2025. China e Indonésia capturaram mais de 75% do crescimento recente da oferta refinada.

Cobre: China passou de ~15% da capacidade global de fundição em 2005 para ~50% em 2025. Níquel: Indonésia tornou-se o principal polo incremental de refino. Terras raras: projetos nos EUA e Malásia reduziram modestamente a concentração, mas China ainda tinha cerca de 85% do refino em 2025. Baterias: China produziu mais de 80% das baterias em 2025 e hospedava mais de 85% da capacidade global de reciclagem de baterias de EV.

Conclusão: a renda marginal migrou da simples posse da jazida para o midstream.


12. Agricultura, água e terra produtiva

Agricultura é estratégica porque converte terra, água, fertilizantes, energia e logística em segurança alimentar. Porém, uma avaliação monetária mundial de “riqueza agrícola” seria altamente dependente de preços de terra e direitos de água não comparáveis.

O poder está distribuído:

  • Américas: soja, milho, carnes e grande disponibilidade de terra agricultável;
  • região do Mar Negro: grãos e fertilizantes, com alta sensibilidade geopolítica;
  • China: enorme demanda, produção doméstica e política de estoques;
  • Índia: grande produção agrícola e crescente peso demográfico;
  • Golfo/Norte da África: maior dependência estrutural de importações e água.

O elo menos visível é fertilizante. Enxofre/ácido sulfúrico, gás natural, fosfato e potássio conectam energia, mineração e alimentos. A IEA destacou em 2026 que restrições de enxofre afetam simultaneamente fertilizantes e processamento mineral.


13. Capacidade industrial e logística

A capacidade de capturar renda futura depende de produzir em escala e entregar.

A China permanece o maior polo de manufatura mundial e domina vários segmentos intermediários. EUA preservam liderança em capital, software, design e segmentos tecnológicos de alta margem. Europa mantém ativos industriais sofisticados, mas enfrenta energia mais cara, fragmentação regulatória e menor escala digital. Índia e Sudeste Asiático ganham participação em manufatura e FDI, mas partem de bases diferentes.

Mais de 80% do comércio mundial de mercadorias em volume é transportado por mar. A UNCTAD estimou crescimento de apenas 0,5% do comércio marítimo em 2025, após 2,2% em 2024, num ambiente de rotas mais longas, risco geopolítico e custos de adaptação.

Inferência: logística deixa de ser mero custo e passa a ser ativo de segurança nacional.


14. Semicondutores, baterias, computação, data centers e IA

Semicondutores

Vendas mundiais: US$ 791,7 bilhões em 2025, +25,6%. O valor econômico está fragmentado entre design, EDA, equipamentos, foundries, memória, packaging e materiais. Nenhum país controla sozinho toda a cadeia.

  • EUA: design, software, equipamentos e capital;
  • Taiwan: foundry avançada;
  • Coreia: memória e manufatura;
  • Japão/Europa: equipamentos, materiais e nichos;
  • China: grande mercado, capacidade madura e investimento acelerado em autonomia.

Baterias

China fabricou bem mais de 80% das baterias globais em 2025. Em 2024, tinha 85% da capacidade global de fabricação; projetos internacionais podem reduzir a parcela, mas a IEA não vê diversificação radical antes de 2030.

Data centers e IA

A demanda elétrica dos data centers cresceu 17% em 2025. O capex de cinco grandes empresas de tecnologia superou US$ 400 bilhões. Data centers receberam mais de 20% do valor global de greenfield.

Isso cria um novo mapa:

1capital norte-americano
2chips asiáticos/equipamentos globais
3data centers
4redes elétricas locais
5energia
6cobre/transformadores
7serviços digitais globais.

O local do data center captura construção, energia e impostos; o proprietário da plataforma captura a renda digital; fabricantes de chips e equipamentos capturam rents tecnológicos; produtores de energia/minerais capturam renda física. A mesma cadeia distribui riqueza por jurisdições diferentes.


15. Tecnologia e ativos intangíveis

A WIPO estima investimento intangível global superior a US$ 10 trilhões em 2025, crescendo mais rapidamente que investimento tangível; os EUA responderam por quase metade.

Em 2024, China tinha 5,7 milhões de patentes em vigor, EUA 3,5 milhões e Japão 2,1 milhões. Quantidade de patentes, porém, não mede qualidade, lucro ou capacidade de internacionalização.

A leitura conjunta é mais útil:

  • EUA: maior concentração de valor em software, plataformas, marcas, corporate R&D e capital de risco;
  • China: enorme escala de patentes, engenharia, manufatura e aplicação industrial;
  • Europa/Japão/Coreia: fortes nichos industriais, científicos e de propriedade intelectual.

Mudança em 20 anos: valor migrou de ativos exclusivamente físicos para combinações de código, dados, propriedade intelectual, rede de usuários e capacidade computacional.


16. Mapa de dependências

Mapa de dependências
01

RECURSOS NATURAIS

02

PROCESSAMENTO / REFINO

forte concentração asiática
03

COMPONENTES

bateriaswafers / chipstransformadoresequipamentos
04

CAPACIDADE PRODUTIVA

05

TECNOLOGIA / SOFTWARE / DADOS

06

LUCROS, ROYALTIES, JUROS E IMPOSTOS

07

CAPITAL FINANCEIRO / FUNDOS SOBERANOS / POUPANÇA

O poder aparece onde há gargalo difícil de substituir. Em 2025, esses gargalos incluíam mercados de capital em dólar, fabricação avançada de chips, equipamentos semicondutores, refino mineral, baterias, redes elétricas e capacidade de computação.


17. Wealth Transfer Matrix 2025

OrigemDestinoMecanismoDireção de poderConfiança
Exportadores de hidrocarbonetoscarteiras globais/tecnologiaSWFsrecurso esgotável → claims financeirosAlta
Poupança mundialEUAações, Treasuries, private capitalreforço do centro financeiroAlta
Mineradores globaisChina/Indonésiaprocessamento/refinorenda deslocada para midstreamAlta
Capital globalEUA e hubs digitaisdata centers/IAconcentração em infraestrutura computacionalAlta
Bancos centraisourocompra + valorizaçãodiversificação de risco soberanoAlta
Europa/Ásia/EUAcadeias redundantesfriend-shoring/capexeficiência → resiliênciaMédia-alta
ChinaexteriorEVs, baterias, manufatura e projetosexportação de escala industrialAlta
EUAenergia/rede/chipscapex de IAsoftware → infraestrutura físicaAlta

A matriz não implica fluxo líquido simples. Por exemplo, investimento do Golfo nos EUA transfere capital financeiro aos vendedores dos ativos, mas concede ao fundo soberano um claim sobre renda futura americana.


18. Quem ganhou e perdeu participação relativa

Estados Unidos — ganho financeiro e tecnológico; vulnerabilidade física seletiva

Ganharam com valorização acionária, profundidade dos mercados, IA, intangíveis e energia doméstica. Continuam dependentes de cadeias externas em minerais, componentes e manufatura intermediária.

China — ganho industrial e de gargalos; menor poder monetário internacional

Aumentou/defendeu participação em refino, baterias, solar e manufatura. Sua moeda e mercados não substituíram o dólar como infraestrutura financeira global.

Golfo — ganho patrimonial estratégico

Converteu hidrocarbonetos em ativos globais e ganhou importância como financiador de tecnologia e infraestrutura.

Índia e Sudeste Asiático — ganho de opção

Recebem diversificação de cadeias e FDI, mas ainda dependem de insumos, máquinas e capital de polos maiores.

Europa — forte estoque de riqueza, pressão relativa sobre crescimento e energia

Mantém indústria, poupança e instituições robustas, mas enfrenta menor escala digital, energia mais cara e desafios de investimento.

América Latina e África — grande estoque de recursos, captura desigual do valor

A oportunidade é deslocar-se de exportador de minério/commodity para processamento, energia, logística e manufatura. Sem isso, a renda permanece concentrada em royalties e ciclos de preço.


19. Mudança na captura de renda futura

A questão central não é “quem tem mais riqueza hoje?”, mas quem possui direitos sobre fluxos de caixa futuros e controla insumos não substituíveis.

Em 2025, quatro modelos coexistiram:

  1. Modelo financeiro-tecnológico dos EUA: capital + software + IP + plataformas + energia crescente.
  2. Modelo industrial-midstream chinês: escala + manufatura + processamento + infraestrutura + mercado doméstico.
  3. Modelo patrimonial soberano do Golfo/Noruega/Singapura: converter renda/ativos nacionais em portfólio global.
  4. Modelo de recurso sem integração: países ricos em minerais/energia que capturam apenas parcela inicial da cadeia.

O quarto modelo é o mais vulnerável. O maior prêmio econômico dos próximos anos tende a ir a países capazes de ligar recurso a processamento, energia barata, infraestrutura, capital humano e acesso a mercados.


20. Cenários 2026–2030 e indicadores de alerta

Cenário-base — multipolaridade produtiva com centro financeiro ainda americano

Inferência · confiança média-alta. Cadeias tornam-se mais redundantes, mas não se separam totalmente. EUA mantêm primazia financeira e digital; China preserva grande parte do midstream industrial; Índia, Sudeste Asiático, Golfo e América Latina capturam projetos específicos.

Indicadores: participação do dólar no COFER; FDI estratégico; participação chinesa no refino; capacidade de baterias fora da China; participação de foundries avançadas por país; capex de data centers; spreads soberanos.

Cenário 2 — fragmentação acelerada

Sanções, controles de exportação e conflitos forçam duplicação de cadeias. Custos sobem; estoques estratégicos aumentam; ouro e ativos domésticos ganham peso.

Indicadores: controles sobre chips/minerais; crescimento do comércio intra-bloco; restrições a capital; fretes; estoques governamentais; divergência de padrões tecnológicos.

Cenário 3 — choque de infraestrutura de IA

Demanda por computação supera expansão de rede/energia. O gargalo passa a ser MW conectável, transformadores, gás, nuclear, cobre e refrigeração. Valuation migra parcialmente de software para infraestrutura.

Indicadores: filas de conexão; preços de PPAs; capex de utilities; prazos de transformadores; cobre; capacidade de turbinas; consumo elétrico de data centers.

Cenário 4 — diversificação monetária mais rápida

O dólar perde participação mais rapidamente por sanções, déficits ou diversificação soberana, mas sem sucessor único. Ouro e moedas secundárias ganham.

Indicadores: COFER ajustado por FX; TIC; compras oficiais de ouro; emissão internacional por moeda; uso de RMB/euro no comércio; spreads de Treasury.

Cenário 5 — superciclo de recursos seletivo

Subinvestimento em cobre, redes e minerais específicos encontra expansão de eletrificação/IA. A renda migra para produtores com capacidade licenciada e infraestrutura, não necessariamente para quem possui maior reserva geológica.

Indicadores: capex mineiro, teor de minério, lead times, inventories, treatment charges, novos projetos e concentração de refino.


Conclusão estratégica

A fotografia de 2025 não mostra uma substituição simples dos Estados Unidos pela China nem “fim do dólar”. Mostra uma especialização do poder mundial.

Os Estados Unidos concentram o principal reservatório financeiro, grande parte da propriedade intelectual e das plataformas digitais, e ampliaram sua posição energética. A China concentra uma parcela excepcional do processamento mineral, baterias, solar e manufatura, convertendo escala física em poder de cadeia. Taiwan, Coreia, Japão e Europa controlam gargalos tecnológicos específicos que não podem ser replicados rapidamente. Estados do Golfo convertem renda de hidrocarbonetos em propriedade global. América Latina, África e Austrália possuem recursos críticos, mas a captura de valor depende de mover-se para processamento e infraestrutura.

A transferência de riqueza mais importante de 2025 ocorreu em quatro direções:

1poupança global
2ativos financeiros e tecnológicos dos EUA; renda de recursos
3fundos soberanos e portfólios globais; mineração
4processamento/refino asiático; capital tecnológico
5chips, data centers, eletricidade e infraestrutura física.

Portanto, a variável que melhor antecipa poder econômico futuro não é o estoque bruto de recursos nem a capitalização de mercado isoladamente. É a capacidade de controlar simultaneamente financiamento, gargalos produtivos, tecnologia, energia e canais de captura da renda.


Fontes principais e notas de qualidade

Política de evidência: números de 2025 publicados/revisados em 2026 foram usados para fechar o ano-base. Notícias de 2026 não foram tratadas como fatos de 2025, exceto quando descrevem revisões estatísticas do período. Estimativas privadas são identificadas e não recebem o mesmo peso de séries oficiais.

Autoria

Christian Rafael de Souza Silva

Autor · Pesquisador · Marginal Thinking · LOGV Research

christian@marginalthinking.org
Como citar

Silva, Christian Rafael de Souza. “Global Wealth & Power Map 2025.” Marginal Thinking / LOGV Research, 2026-09-15.

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