# A Revolução dos Algoritmos: da quantificação da guerra à disputa pela atenção, pelo comportamento e pelo poder

Um soldado filma uma trincheira em primeira pessoa; um adolescente repete um gesto em uma praça diante de uma audiência que se formou nas redes; um movimento político divulga uma montagem que transmite uma posição sem exigir que ninguém assista a um discurso; um trabalhador é avaliado por um programa cuja decisão nem ele nem o empregador conseguem explicar com facilidade; um analista militar recebe informações ordenadas por um sistema cujos erros podem ser difíceis de identificar. As situações são historicamente diferentes. O elemento comum é que informações sobre atividades humanas passam por sistemas técnicos que as classificam, estimam sua relevância ou suas consequências e as redistribuem de acordo com objetivos operacionais.

A afirmação de que algoritmos "controlam a sociedade" é provocadora, mas imprecisa. Algoritmo é um procedimento especificado; não constitui necessariamente um modelo de inteligência artificial, um sistema comercial de recomendação ou um ator político. Pessoas continuam escolhendo, resistindo, desconfiando, criando e organizando-se independentemente das plataformas. Entretanto, a distribuição das escolhas possíveis pode ser afetada por quem controla o ambiente informacional, os critérios de seleção, o acesso aos recursos e às oportunidades, e a visibilidade concedida a determinadas condutas. Um algoritmo não precisa emitir ordens para integrar uma estrutura de poder. Pode alterar quais indivíduos ou mensagens serão vistos, quais candidaturas profissionais serão consideradas, quais ações parecerão merecer uma gravação e quais representações de um conflito circularão mais intensamente.

Três transformações explicam a importância histórica da mudança. Primeiro, a ambição de tornar processos complexos calculáveis saiu dos limites da estatística e da administração organizacional e passou a integrar infraestruturas digitais. Segundo, dados comportamentais tornaram-se insumos contínuos para classificação, preços, monitoramento e recomendações, produzindo efeitos que alimentam a rodada seguinte de observações. Terceiro, uma parcela crescente da vida social passou a contar com uma audiência antecipada: alguém pode agir imaginando um vídeo, uma métrica, uma reação ou uma possível recomendação futura. Essas transformações podem melhorar a coordenação, ampliar o acesso ao conhecimento, revelar abusos e reduzir custos; também podem concentrar decisões, premiar indicadores distorcidos, alterar percepções e distribuir riscos sem um sistema igualmente visível de responsabilização.

A autonomia humana permanece dentro de ambientes institucionais cada vez mais definidos por critérios matemáticos de seleção. Plataformas comerciais, empregadores, governos e sistemas militares perseguem objetivos distintos daqueles dos indivíduos afetados; seus indicadores influenciam visibilidade, acesso a recursos e condições de decisão. Experimentos, estudos observacionais, documentos institucionais e teorias filosóficas oferecem evidências de naturezas diferentes. A influência sobre uma expressão emocional não equivale à determinação de um voto, assim como a circulação de imagens de conflito não demonstra que as imagens tenham provocado o conflito.

## 1. Um problema anterior às plataformas: o que a administração consegue medir?

Muito antes de alguém abrir um feed personalizado, os Estados utilizavam inventários, cadastros populacionais, impostos, probabilidades e classificações para administrar territórios e distribuir recursos. A era industrial acrescentou medições de engenharia, planejamento produtivo, contabilidade, cálculos de risco em seguros e avaliação sistemática do trabalho. Esses métodos não formavam uma ideologia única. Tornaram-se poderosos porque medidas formalizadas permitiam coordenar ações a grandes distâncias, comparar alternativas e registrar desempenhos. Também eram seletivos: um cadastro registra categorias reconhecidas pelo administrador; uma medida de produtividade registra o produto que seus criadores decidiram contar.

A Segunda Guerra Mundial acelerou a pesquisa operacional, inclusive os métodos matemáticos de avaliação de logística, radar, distribuição de recursos e decisões de combate. A computação e a teoria da informação do pós-guerra ampliaram a capacidade de representar problemas formalmente. A cibernética examinou comunicação e controle em máquinas e organismos; a teoria estatística da decisão e a administração operacional ofereceram meios de trabalhar com a incerteza. Existiam diferenças fundamentais entre Wiener, Shannon, Simon e os engenheiros que vieram depois. Uma genealogia histórica rigorosa não pode transformar disciplinas distintas em uma linha de descendência direta e inevitável até o TikTok. Sua contribuição comum foi tornar previsão e retroalimentação cada vez mais práticas dentro das organizações.

A quantificação cria uma tentação quando uma métrica é mais fácil de melhorar do que o objetivo que ela deveria representar. Uma empresa pode aumentar o número de interações com clientes sem elevar sua satisfação. Uma agência de segurança pode contar incidentes detectados sem demonstrar que o território se tornou mais seguro. Uma escola pode otimizar notas em avaliações sem medir adequadamente uma compreensão mais ampla. Trata-se de uma vulnerabilidade institucional geral: as pessoas se adaptam aos indicadores pelos quais são avaliadas, e as medidas podem perder parte do significado justamente porque passaram a funcionar como metas. A intensidade desse efeito depende da governança, das evidências independentes e do desenho do indicador.

Os feeds contemporâneos introduzem uma variante particular. Suas medidas não são apenas registros retrospectivos. Visualizações, vídeos ignorados, curtidas, inscrições e taxas de conclusão alimentam processos que alteram a exposição futura. As pessoas também podem adaptar aquilo que produzem para atrair essas métricas. A transformação ocorre quando um mecanismo deixa de apenas **descrever comportamentos e passa a participar das condições em que os comportamentos são recompensados**. A história antiga da burocracia não desaparece; suas possibilidades de intervenção alcançam interações cotidianas.

## 2. Robert McNamara e *Sob a Névoa da Guerra*: quando o indicador encobre a guerra

O documentário *The Fog of War*, dirigido por Errol Morris em 2003, oferece uma abertura adequada à história da sociedade algorítmica porque examina como um administrador de grande capacidade técnica confrontou os limites da racionalidade quantitativa nas decisões militares e políticas. Robert S. McNamara utilizara métodos quantitativos de administração e dirigiu o Departamento de Defesa dos Estados Unidos durante as presidências de Kennedy e Johnson. O filme revisita a Segunda Guerra Mundial, a Crise dos Mísseis de Cuba e o Vietnã com entrevistas e materiais de arquivo. Não constitui uma história dos algoritmos das redes sociais, nem demonstra que os sistemas contemporâneos tenham sido herdados diretamente do Pentágono. Sua relevância está no problema de tratar uma representação quantitativa como se ela fosse o próprio fenômeno representado. [1]

Uma pesquisa do CNA, organização de estudos dos Estados Unidos, identifica três sistemas particularmente importantes na avaliação operacional associada ao período McNamara: as contagens de baixas inimigas, o *Hamlet Evaluation System* e os relatórios *Southeast Asia Analysis Reports*. Seus elaboradores procuravam indicadores comparáveis do progresso da contrainsurgência. Contudo, os dados não conseguiam refletir adequadamente a legitimidade política, as alianças locais, o contexto histórico e as condições mutáveis que moldavam o conflito. O estudo do CNA concluiu que essas avaliações se mostraram pouco confiáveis como medidas de progresso. É um resultado histórico sobre determinado sistema institucional, não uma rejeição geral da estatística em assuntos militares. [2]

A diferença entre *medir uma ação* e *medir o objetivo desejado* é fundamental. Contar baixas descreve uma variável militar sem responder se um governo está conquistando legitimidade duradoura. De maneira semelhante, contabilizar o tempo de permanência de um vídeo na tela pode prever interações sem determinar se o espectador está mais bem informado. Prever corretamente a chance de alguém clicar ou assistir não equivale a alcançar um resultado social ou moralmente satisfatório. Tampouco a deficiência de uma medida implica que todos os modelos sejam inúteis.

Há também uma relação organizacional. Os sistemas de McNamara estavam inseridos em hierarquias que decidiam quais informações chegavam aos comandantes e dirigentes políticos. Feeds e sistemas decisórios atuais pertencem a empresas e instituições que determinam objetivos, restrições, dados de treinamento e formatos dos relatórios. Nos dois casos, surge a questão política de onde se encontra a responsabilidade quando um modelo parece mais preciso do que a incerteza efetiva. A analogia tem limites claros: um sistema avaliava um conflito armado em hierarquia estatal; o outro distribui informações em redes comerciais e sociais. Suas origens, consequências e capacidades de coerção diferem radicalmente.

Painéis gerenciais oferecem uma aparência de completude que raramente corresponde à complexidade de processos políticos e sociais. Categorias padronizadas podem ser reproduzidas com exatidão enquanto a interpretação do conjunto permanece equivocada. No Vietnã, a precisão aparente dos indicadores militares coexistiu com compreensão insuficiente da natureza política do conflito.

## 3. Cibernética, estatística e a migração dos sistemas de decisão

O desenvolvimento dos computadores durante o século XX permitiu armazenar, comparar e processar eventos medidos em escalas inviáveis para administrações manuais. Bancos utilizaram modelos de crédito, seguradoras calcularam riscos, fábricas organizaram cronogramas produtivos e órgãos públicos classificaram populações. Os mecanismos de busca posteriormente tornaram a ordenação essencial para encontrar informações; a publicidade online colocou segmentação e medição no centro do financiamento da internet. Sistemas de recomendação combinaram esses caminhos com modelos das interações individuais.

Não houve uma passagem simples da repressão analógica à liberdade digital nem da liberdade ao monitoramento universal. Ordens sociais anteriores já organizavam informações por meio de editores, escolas, igrejas, partidos, redes familiares e emissoras estatais. O que mudou foi a granularidade da mensuração, a velocidade das respostas, a capacidade de atualizar o ambiente informacional de cada indivíduo e o valor comercial do conhecimento de suas reações. A transformação produziu possibilidades de emancipação e de vigilância, distribuídas de forma desigual entre instituições e grupos sociais.

A diferença entre um programa baseado em regras e um recomendador de aprendizado de máquina importa. Uma regra determinística pode apresentar o artigo mais recente em ordem cronológica; um modelo treinado estima a probabilidade de o leitor interagir com diversos artigos candidatos. Ambos são algoritmos, mas produzem incentivos e explicações diferentes. A regra cronológica apresenta transparência em um nível, embora a frequência das publicações continue afetando a visibilidade. Um sistema de recomendação pode descobrir interesses de forma mais eficiente, embora seja difícil examinar a razão de determinada classificação. Nenhuma das arquiteturas garante diversidade de opiniões, exatidão, bem-estar ou neutralidade.

O desenvolvimento também transformou a política da classificação. Quando uma máquina utiliza históricos profissionais para recomendar candidatos, incorpora informações úteis e possíveis desigualdades históricas presentes nos dados. Quando uma plataforma modela o tempo anteriormente gasto assistindo a vídeos, pode reproduzir hábitos que o usuário não escolheria deliberadamente como seus objetivos de longo prazo. Correlações estatísticas passam a orientar distribuição de oportunidades; essa distribuição modifica as observações seguintes. O sistema precisa, portanto, ser avaliado como instituição dinâmica, não apenas como mecanismo estático de previsão.

## 4. Como as recomendações organizam o mundo visível

Uma arquitetura comum de sistemas de recomendação em grande escala separa *geração de candidatos* e *ranqueamento*. Um artigo técnico de 2016, escrito por engenheiros do Google — Paul Covington, Jay Adams e Emre Sargin — descreveu um recomendador do YouTube baseado em aprendizado profundo com essas duas etapas. A primeira estima quais vídeos, entre um catálogo enorme, podem interessar ao usuário; a segunda ordena o conjunto menor de candidatos. Trata-se de arquitetura histórica documentada, não da afirmação de que todas as decisões atuais do YouTube seguem exatamente o desenho de 2016. [3]

A documentação do TikTok fornece descrição complementar dos sinais de recomendação. A empresa identifica interações como conteúdo assistido, ignorado, curtido, compartilhado ou comentado; informações sobre os vídeos, incluindo sons e hashtags; e o contexto do usuário ou dispositivo. Afirma que interações e tempo assistido costumam ter maior importância que determinados outros fatores para muitos usuários. Essa é a descrição pública da própria plataforma, não auditoria independente dos pesos nem de seus objetivos comerciais. O feed permanece personalizado, e a experiência individual não se reduz a fórmula fixa conhecida fora da empresa. [4]

O ciclo econômico começa quando o usuário produz sinais, mas os objetivos operacionais são determinantes. A previsão pode ser otimizada para tempo assistido, interesse estimado, relevância, segurança, novidade, experiência do cliente ou combinações de métricas. O esquema exato de otimização é proprietário e muda. Por isso é incorreto afirmar que todas as redes sociais otimizam exclusivamente indignação ou dependência. É igualmente incorreto imaginar que a escolha de objetivos mensuráveis não produz consequências sociais.

Parte do poder aparece em um restrição crítica de seleção. Um catálogo imenso é praticamente inacessível sem intermediários. Busca, assinaturas, recomendações e laços sociais filtram informações de modos distintos. Os responsáveis pelo sistema controlam não apenas o algoritmo, mas conteúdos permitidos, regras de aplicação, publicidade, monetização de criadores e procedimentos experimentais utilizados para testar mudanças. A instituição relevante é o conjunto dessas decisões, não apenas seu modelo matemático.

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alt: Quatro etapas conectadas como módulos de informação, representando conceitualmente seleção e retroalimentação.
caption: Ilustração original da passagem entre sinais observados, previsões, exposição e resposta subsequente. O desenho não reproduz algoritmos proprietários de uma plataforma.
credit: LOGV / Marginal Thinking
license: CC-BY-4.0
license_url: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
```

```flow
Ações observadas → Sinais comportamentais → Seleção e ranqueamento de candidatos → Exposição à informação escolhida → Resposta humana → Novas ações observadas
Incentivos à produção de conteúdo → Escolhas de formato e intensidade → Material disponível para recomendação → Reação da audiência → Revisão dos incentivos do criador
```

As relações representadas no diagrama dependem da ação de usuários, criadores e operadores das plataformas. Exposição não significa concordância, e uma reação registrada não implica mudança duradoura de preferência. Uma audiência selecionada por afinidade prévia pode gerar resultados semelhantes aos de uma audiência persuadida pelo conteúdo, embora os dois processos tenham consequências causais distintas.

## 5. A economia da atenção: o que realmente está sendo vendido?

A atenção é limitada pelas horas acordadas, obrigações concorrentes e capacidades humanas. O conteúdo digital, em contraste, pode ser reproduzido e distribuído a custo marginal baixo. Plataformas que organizam grandes audiências podem vender publicidade segmentada, cobrar assinaturas, intermediar compras ou faturar com serviços associados. Os modelos comerciais são diferentes, mas a distribuição da atenção produz consequências econômicas em todos eles.

O tempo adicional de permanência só se converte em receita mediante mecanismos comerciais específicos. Quantidade de anúncios, preços publicitários, demanda dos anunciantes, retenção, custos de moderação, infraestrutura e assinaturas alteram o resultado financeiro. Conteúdos capazes de elevar o engajamento imediato também podem reduzir a confiança de anunciantes ou ampliar riscos regulatórios. A rentabilidade, portanto, não cresce necessariamente na mesma proporção das visualizações.

A distribuição do valor é desigual. A plataforma controla sua infraestrutura de ranqueamento e as condições de participação. O criador investe tempo e equipamentos sem controlar inteiramente a distribuição. Anunciantes compram acesso probabilístico às audiências; consumidores recebem entretenimento, informações e serviços ao custo de tempo e, por vezes, dados pessoais. Um criador pode alcançar subitamente público nacional, mas a mesma estrutura pode produzir dependência de alterações imprevisíveis no feed. São formas de poder de mercado que podem existir mesmo quando o usuário não paga assinatura monetária.

As plataformas operam mercados de múltiplos participantes interdependentes: usuários, criadores, anunciantes, comerciantes, desenvolvedores e provedores de pagamento. O valor econômico depende da capacidade de cada grupo de acessar outros grupos e dos custos para mudar de serviço. Quem produz conteúdo sem conseguir transferir a própria audiência enfrenta poder de negociação reduzido diante de mudanças nas regras de distribuição. Uma análise de concorrência restrita ao preço da assinatura ignora parte dessa dependência.

A seleção algorítmica também cria o problema das externalidades. O proprietário do feed mede cliques e vendas diretamente, enquanto consequências sobre debate público, sono e confiança institucional aparecem em outras dimensões sociais. Esses efeitos são difíceis de precificar e, por vezes, de atribuir. A regulação precisa enfrentar essa lacuna sem presumir que todo acontecimento social indesejável resultou de um algoritmo lucrativo.

## 6. Do vídeo longo à gramática cultural do vídeo curto

TikTok, Instagram Reels, YouTube Shorts e serviços semelhantes tornaram vídeos verticais, orientados ao celular e rapidamente editáveis parte central da cultura digital. A transformação não consiste apenas na redução da duração. Música, legendas, modelos de edição, remixes, gestos repetidos, movimentos de câmera e acesso imediato ao próximo clipe produzem uma gramática reconhecível. Um fragmento pode circular separado do contexto de origem, e a mesma piada visual ou montagem heroica pode ser reproduzida em diferentes países e comunidades políticas.

A produção audiovisual curta reduziu barreiras à expressão criativa. Uma pequena empresa pode demonstrar serviços sem estúdio profissional; artistas encontram audiências distantes; estudantes aprendem técnicas por sequências acessíveis; civis registram abusos. Entretanto, formatos facilmente compartilháveis também incentivam compressão. Um trecho de vinte segundos comunica indignação ou admiração com eficiência, excluindo eventualmente evidências qualificadoras. É uma característica do ambiente comunicativo, não prova de que todo vídeo curto desinforme.

A cronologia da adoção tecnológica é decisiva. A mobilização bolsonarista de 2018 não pode ser descrita como eleição impulsionada por Instagram Reels ou YouTube Shorts, formatos que se tornaram mais importantes depois. WhatsApp, Facebook, YouTube, imagens e vídeos compartilháveis tinham relevância naquele momento. Em 2022, o ecossistema era diferente: materiais produzidos no TikTok ou Kwai podiam ser baixados e redistribuídos em grupos de WhatsApp. A mesma tendência combinava descoberta algorítmica em um serviço com encaminhamento voluntário por redes interpessoais em outro. [11][14]

As etapas da circulação possuem mecanismos distintos. Um ranqueador determina exposição dentro de um feed; um administrador de grupo pode organizar a participação; uma pessoa escolhe encaminhar uma mensagem; alguém com autoridade social pode interpretá-la; a televisão pode ampliar a controvérsia. Chamar a cadeia inteira de "o algoritmo" esconde os atores e as etapas causais que precisam ser avaliados separadamente.

## 7. Dopamina, previsão de recompensa e os limites científicos de uma metáfora fácil

Nas discussões populares, dopamina frequentemente aparece como botão químico de prazer que os vídeos curtos manipulam até danificar o cérebro. Essa descrição é enganosa. Trabalhos de neurociência associados a Wolfram Schultz e colaboradores examinam neurônios dopaminérgicos como parte de sinais relacionados às recompensas e às diferenças entre recompensas esperadas e obtidas. Tais achados pertencem a um campo maior que envolve aprendizagem, motivação, cognição, contexto e diferentes sistemas de neurotransmissores. Eles não autorizam a conclusão de que um estilo audiovisual específico esgote a dopamina ou provoque necessariamente dano permanente. [9]

Os mecanismos comportamentais continuam merecendo pesquisa. Novidade, recompensas variáveis, intervalos incertos, comparação social e acesso sem fricção podem estimular verificações repetidas. A conduta individual depende de estresse, vínculos sociais, humor, alternativas disponíveis e predisposições anteriores. Alguns usuários podem desenvolver padrões problemáticos; outros participam intencionalmente e encontram benefícios. Para identificar efeito causal, pesquisadores precisam distinguir exposição e autosseleção, considerar dificuldades anteriores e mensurar desfechos em períodos adequados.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 na revista *Psychological Bulletin* reuniu 71 estudos com 98.299 participantes. Encontrou associações entre maior uso de vídeos curtos e indicadores cognitivos menos favoráveis, com correlações aproximadas de -0,38 para atenção e -0,41 para controle inibitório; as associações com saúde mental foram em geral mais fracas e heterogêneas. São correlações sintetizadas de uma literatura metodologicamente variada, não probabilidades de transtornos mentais, reduções de QI ou estimativas de dano permanente. Muitos estudos incluídos eram observacionais; causalidade inversa continua possível. [8]

A preocupação regulatória plausível não é a existência de dopamina, mas o desenho de ambientes que dificultam interromper o uso, especialmente para pessoas vulneráveis. Um serviço pode oferecer controles de tempo e simultaneamente manter uma experiência padrão de continuidade quase automática. As conclusões *preliminares* divulgadas em fevereiro de 2026 pela Comissão Europeia sobre o TikTok trataram de rolagem infinita, reprodução automática, notificações e recomendação personalizada em relação a possíveis falhas na avaliação e mitigação de riscos sob o Regulamento dos Serviços Digitais. Tratava-se de avaliação provisória, não julgamento legal definitivo nem demonstração de desfecho médico universal. [20]

O total de horas de tela representa apenas uma parcela da exposição. Conteúdo consumido, horário, motivos de uso, convivência presencial, condições prévias e alternativas disponíveis alteram os efeitos sobre sono, atenção, trabalho e relações sociais. Um mesmo tempo de utilização pode corresponder a aprendizagem deliberada, comunicação familiar, trabalho criativo ou consumo repetitivo sem finalidade definida.

## 8. Música, cortes acelerados e intensidade cinematográfica

Uma característica marcante dos vídeos curtos é o uso de sucessivas escolhas de edição para atribuir força cinematográfica a ações comuns: graves intensos, música eletrônica acelerada, phonk, funk ou trap, câmera lenta, enquadramento em primeira pessoa, cortes bruscos, legendas sincronizadas e imagens de forte contraste. Essas escolhas podem elevar a excitação emocional, orientar atenção ou atribuir sentido particular a uma cena. Seus efeitos dependem do espectador, do conhecimento anterior, do contexto e do significado social.

Uma montagem de alguém entrando em uma sala pode sugerir autoconfiança; com outra trilha sonora, o mesmo gesto torna-se comédia ou ameaça. A edição altera a narrativa sem modificar o acontecimento subjacente. Isso é especialmente relevante quando gravações são separadas de sua data ou localização. A música pode produzir impressão de triunfo mesmo quando o evento acarretou consequências humanas graves. Em conflitos políticos, a montagem cinematográfica pode fazer o instante de confronto parecer toda a história da disputa.

Gêneros musicais, batidas intensas e cortes acelerados influenciam a interpretação audiovisual, mas não determinam isoladamente agressividade ou coragem física. Seu efeito expressivo resulta da combinação com as imagens, com convenções culturais e com a experiência prévia do espectador. A amplificação emocional de uma montagem pode alterar a percepção de um acontecimento sem modificar as razões pelas quais ele ocorreu.

As mesmas técnicas podem cumprir funções socialmente úteis: facilitar explicações científicas, permitir que testemunhas comuniquem perigos, ampliar experimentação artística ou oferecer humor e conexão. O uso ambivalente é precisamente a razão pela qual proibir um estilo estético seria substituto inadequado para investigar os comportamentos e incentivos subjacentes.

## 9. A câmera como segunda audiência: agir antecipando visibilidade

Na sociologia de Erving Goffman, a vida social envolve performances e administração das impressões transmitidas aos outros. Câmeras não inventaram essa tendência humana. Redes digitais, porém, tornam a audiência potencialmente persistente, distante e difícil de prever. Alguém age diante das pessoas fisicamente presentes e pode imaginar, simultaneamente, um público muito maior que assistirá posteriormente a uma gravação editada.

Isso modifica a função da câmera. Em um nível, ela documenta uma ação; em outro, permite que alguém se dirija a um público futuro; em um terceiro, pode integrar o motivo pelo qual a própria ação acontece. Distinguir essas situações é importante. Um manifestante pode filmar violência policial para obter responsabilização. Uma pessoa pode encenar gesto inofensivo para divertir amigos. Um infrator pode buscar notoriedade. A presença da gravação, isoladamente, não demonstra qual motivação estava presente.

Os mecanismos são sociais e técnicos. Comentários, visualizações e imitações fornecem informações imperfeitas sobre estima coletiva. Um criador pode antecipar reconhecimento e adaptar sua performance; espectadores podem reproduzir gestos por sinalizarem pertencimento. Essas possibilidades podem ser descritas como *ação condicionada pela audiência*, em vez de afirmar que a plataforma remove a autonomia. A agência individual continua ativa justamente porque os participantes interpretam e utilizam o sistema.

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caption: Uma câmera conectada pode documentar uma ação e também criar uma audiência antecipada diante da qual a ação é realizada. Nenhuma pessoa real nem acontecimento específico é representado.
credit: LOGV / Marginal Thinking
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```

Um experimento de Lauren Sherman e colegas apresentou a 32 adolescentes uma interface simulada semelhante ao Instagram, enquanto avaliava imagens cerebrais. Os participantes demonstraram maior tendência a aprovar fotografias exibidas com muitas curtidas; as respostas envolveram influência social e redes neurais associadas à recompensa e à atenção. O desenho sustenta um mecanismo delimitado de endosso por pares; não demonstra que métricas das redes causem comportamentos violentos ou efeitos iguais em todas as idades. [10]

O reconhecimento entre pares, a remuneração econômica e a obrigação de manter uma reputação pública são incentivos distintos. Aprovação de amigos produz prestígio local; monetização pode transformar alcance em renda; a manutenção de uma persona amplia a pressão para publicar conteúdos semelhantes aos anteriores. A intensidade da exposição pública modifica a relação entre essas dimensões sem tornar todas as performances instrumentos de obtenção de dinheiro.

## 10. Da reputação ao placar: a economia simbólica da “aura”

A expressão *farmar aura* transporta para a sociabilidade digital a lógica de acumulação dos jogos eletrônicos. Em jogos, *farmar* é repetir ações para obter recursos ou pontos; na linguagem das redes, *aura* designa uma qualidade imprecisa, porém reconhecível socialmente: presença, confiança, carisma, elegância ou capacidade de produzir uma cena memorável. A combinação transforma prestígio em algo que pode ser narrado como pontuação. O valor não está no gesto isolado, mas na reação esperada de quem assiste e reconhece uma convenção cultural compartilhada.

A lógica possui antecedentes anteriores à internet. Competição por reputação, exibição pública de coragem, apresentação de si e busca por reconhecimento atravessam diferentes sociedades. A novidade das plataformas está na possibilidade de transformar uma performance pequena em material reproduzível, recortável e distribuído por sistemas cuja audiência não precisa coincidir com o círculo social do autor. Um gesto realizado diante de três amigos pode ser avaliado posteriormente por milhares de desconhecidos. O reconhecimento deixa de depender exclusivamente da presença física, embora continue influenciado por vínculos sociais, humor e convenções de grupo.

A cultura da *aura* também revela a aproximação entre repertórios do cinema, dos videogames e da vida comum. Caminhar diante de uma câmera, permanecer imóvel, lançar um olhar calculado ou reproduzir a postura de um personagem são ações corriqueiras que adquirem significado diferente quando acompanhadas de música, enquadramento e edição. Os comentários podem tratá-las como feitos excepcionais, atos ridículos ou paródias conscientes. Uma mesma gravação admite interpretações opostas; a circulação elevada não significa aprovação unânime.

Em 2026, manifestações dessa linguagem foram documentadas em encontros e competições presenciais na América Latina, inclusive no Brasil. A passagem das telas às praças mostra a capacidade de um código cultural compartilhado de coordenar participantes sem organização institucional complexa. A audiência online fornece referências, a reunião presencial oferece espaço de execução e as filmagens posteriores permitem reintroduzir o evento no circuito de circulação. A sequência constitui uma forma de intercâmbio entre espaço físico e reputação digital, não a simples substituição da convivência presencial por dispositivos. [24]

O mecanismo econômico é indireto. Para a maioria dos participantes, a recompensa é simbólica: riso, prestígio entre amigos, reconhecimento ou sentimento de pertencimento. Para criadores com grande audiência, a circulação também pode converter-se em seguidores, oportunidades comerciais e receitas publicitárias. Métricas visíveis oferecem sinais quantitativos de uma avaliação que permanece socialmente ambígua. O número de reproduções expressa alcance e decisões de distribuição, não uma medida objetiva de carisma; ainda assim, torna-se referência para novas performances.

A presença da câmera modifica sobretudo a relação temporal entre ação e julgamento. A performance é realizada no presente, mas pode ser orientada pela expectativa de uma reação futura. Seu sucesso depende da combinação entre familiaridade do público com a tendência, momento de publicação, edição, rede inicial de contatos e decisões de distribuição. A continuidade das imitações evidencia o peso de convenções coletivas: aquilo que parece espontâneo frequentemente depende de um repertório previamente aprendido.

Essa gramática de reconhecimento não possui consequência social única. Encontros documentados de *aura* incluem brincadeira, dança, paródia e formas de convivência não violentas. Em outras situações, a expectativa de notoriedade pode somar-se a disputas entre pares e à disposição para assumir riscos. Entre os dois extremos, porém, não existe passagem automática. A relação entre audiência e comportamento perigoso depende do contexto, das motivações e das recompensas atribuídas ao ato. Uma montagem cinematográfica semelhante pode representar uma dança, uma competição esportiva, uma manifestação ou um confronto real sem que os acontecimentos compartilhem a mesma causa.

**Métricas e linguagens de plataformas se converteram em categorias cotidianas de reputação.** O indivíduo não precisa calcular matematicamente seu comportamento para agir dentro de um ambiente em que reconhecimento é continuamente contado, comparado e exibido. A cultura da *aura* é uma expressão desse processo: o prestígio continua sendo concedido por pessoas, mas a circulação que lhe dá escala é organizada por sistemas técnicos.

## 11. Adolescência, identidade e o problema da formação de competências

A adolescência é um período em que relações entre pares, identidade e reconhecimento frequentemente possuem importância especial, mas os jovens não formam uma categoria psicológica homogênea. O significado social de uma plataforma pode diferir profundamente entre um adolescente à procura de amizades, um adulto que trabalha como criador, um estudante em busca de informações e uma pessoa socialmente isolada. Mesmo em um grupo demográfico semelhante, saúde mental anterior, ambiente familiar, escola e oportunidades de convivência presencial alteram resultados.

Um ambiente de comparação contínua pode intensificar sentimentos de inadequação em determinados contextos e, em outros, proporcionar apoio social a comunidades minoritárias ou indivíduos geograficamente isolados. A qualidade científica exige, portanto, separar uso problemático de participação comum, além de diferenciar sintomas autorrelatados e resultados de saúde medidos de maneira independente. Correlações agregadas na literatura dos vídeos curtos não podem ser utilizadas como diagnósticos clínicos individuais. [8]

A formação de competências depende de prática, erro, retorno e responsabilidade progressiva. Recomendações que repetem preferências anteriores podem tornar a navegação mais confortável e reduzir encontros com materiais desconhecidos, dependendo do desenho do sistema. Em contrapartida, recursos de busca, tutoria e recomendação também podem facilitar a descoberta de novos conhecimentos. Os resultados educacionais dependem da qualidade da atividade realizada, não apenas do formato da interface.

A dimensão social importa tanto quanto a cognitiva. Alguém pode especializar-se em produzir uma persona online reconhecível e, ao mesmo tempo, dispor de oportunidades limitadas de reconhecimento profissional, renda estável ou influência institucional. Trata-se de possível descompasso entre prestígio digital e poder material. Essa diferença pode favorecer frustração, empreendedorismo, participação cívica ou afastamento social; nenhum desfecho é inevitável.

## 12. Experimentos do Facebook: a influência foi demonstrada, o controle total não

O estudo de 2012 *A 61-million-person experiment in social influence and political mobilisation* utilizou mensagens aleatorizadas exibidas no Facebook durante as eleições parlamentares norte-americanas de 2010. Os pesquisadores identificaram efeitos sobre expressão política, procura de informações e comparecimento às urnas; a transmissão por laços sociais próximos foi especialmente relevante. O resultado experimental demonstra que o desenho de mensagens em uma plataforma pode modificar comportamentos específicos. Não demonstra que um algoritmo de recomendação possa escolher livremente a preferência política de alguém ou determinar o resultado de uma eleição. [5]

Em um experimento publicado em 2014 na *PNAS*, com 689.003 usuários do Facebook, pesquisadores alteraram a presença de publicações positivas ou negativas nos feeds e examinaram mudanças nas expressões emocionais posteriores. O efeito relatado constitui evidência de contágio emocional em ambiente online. O estudo também provocou controvérsia sobre consentimento e ética em pesquisa; as magnitudes dos efeitos e a definição do desfecho limitam extrapolações para saúde mental clínica ou manipulação política de massas. [6]

As evidências experimentais apresentam limites relevantes. Uma pesquisa publicada em 2023 na revista *Science* distribuiu experimentalmente usuários consentidos do Facebook e Instagram entre feeds em ordem cronológica inversa e a classificação algorítmica padrão durante a campanha eleitoral norte-americana de 2020. Exposição e atividade mudaram de maneira importante, mas não foram identificadas alterações significativas em medidas centrais de polarização e atitudes políticas no período de três meses. Isso não prova ausência de efeitos de longo prazo; contraria a suposição de que qualquer alteração substancial na exposição necessariamente modifica rapidamente a opinião política. [7]

| Estudo | Intervenção ou exposição observada | Resultado sustentado pelo desenho | O que não foi estabelecido |
| --- | --- | --- | --- |
| Bond e colegas, 2012 | Mensagens aleatorizadas de mobilização para 61 milhões de usuários | Efeitos específicos na participação e transmissão social | Controle sobre identidade política ou resultado eleitoral |
| Kramer e colegas, 2014 | Alterações de exposição emocional para 689.003 usuários | Mudanças na expressão emocional escrita agregada | Transtorno clínico ou obediência comportamental geral |
| Experimento de feed cronológico, 2023 | Mudança de ordenação durante a eleição norte-americana de 2020 | Mudanças importantes de experiência sem alteração significativa de atitudes centrais no curto prazo | Ausência de todos os efeitos prolongados ou de grupos específicos |
| Nguyen e colegas, 2025 | Meta-análise de estudos sobre vídeos curtos | Associações com atenção, inibição e bem-estar | Dano cognitivo universal ou direção causal única |

O desenho das redes sociais pode alterar a atenção e determinados comportamentos, mas magnitude, duração, direção e consequências variam segundo o contexto. As intervenções experimentais disponíveis identificam efeitos específicos, sem atribuir às plataformas um domínio irrestrito sobre preferências políticas.

## 13. O caso político brasileiro: um conflito social existente encontra nova infraestrutura comunicacional

A ascensão de Jair Bolsonaro, de deputado federal com longa trajetória parlamentar à Presidência da República em 2018, constitui um dos casos mais importantes para investigar a interação entre insatisfações políticas e comunicação em rede. As causas não se reduzem aos memes. O Brasil chegou à eleição depois das manifestações de 2013, crise econômica, escândalos de corrupção, debates polarizados sobre instituições, impeachment de Dilma Rousseff e contestação da representação política. Um estudo fundamentado no painel eleitoral brasileiro de 2018 identificou antipetismo, preferências culturais conservadoras, posicionamentos rigorosos sobre lei e ordem e liberalismo econômico entre os fatores associados ao apoio a Bolsonaro. O ambiente tecnológico ofereceu mecanismos de organização e expressão; não fabricou a totalidade dessas preferências. [13]

A comunicação de Bolsonaro também possuía características próprias. Comunidades favoráveis ao candidato divulgaram imagens irônicas, representações heroicas, trechos de entrevistas, denúncias contra adversários e símbolos sintéticos capazes de comunicar filiação política sem argumentação extensa. Uma frase curta ou uma imagem podiam funcionar simultaneamente como humor, persuasão e sinal de pertencimento. A pesquisa de Viktor Chagas sobre memes nos primeiros meses do governo analisa suas características nacionalistas, ideológicas e retóricas. O corpus corresponde a um período e amostra específicos, não à totalidade dos materiais da campanha de 2018, mas documenta funções políticas de imagens que circularam entre apoiadores. [12]

A arquitetura de 2018 era multiplataforma, e não uma eleição conduzida exclusivamente pelo TikTok. Em pesquisa revisada por pares, Victor Piaia e Marcelo Alves examinaram **194.710 mensagens de 21 grupos de WhatsApp favoráveis a Bolsonaro**, coletadas de 5 de setembro a 11 de novembro de 2018. Número relativamente pequeno de participantes respondeu por grande parcela das postagens; links para YouTube e Facebook tiveram destaque; e algumas ações organizadas de campanha foram identificadas. A amostra descreve os grupos monitorados, não cada apoiador, cada grupo brasileiro de WhatsApp ou a probabilidade de alguém votar devido a uma mensagem. A principal contribuição do estudo é mostrar como encaminhamento interpessoal e plataformas públicas constituíam um sistema comunicacional interligado. [11]

Havia razões diferentes para participar. Alguns usuários compartilhavam materiais por convicção política; outros procuravam comunidade, opunham-se a determinado partido ou acompanhavam redes familiares confiáveis. Um influenciador podia enxergar mercado para audiência enquanto um participante considerava o encaminhamento um dever cívico. A mobilização envolvia tanto apoiadores genuínos quanto atividade estrategicamente organizada; as duas realidades não são excludentes. Evidência de algumas contas coordenadas não prova que todos os apoiadores tenham sido manipulados, e convicções autênticas não excluem amplificação organizada.

A ascensão nacional de Bolsonaro ocorreu em conjuntura marcada por antipetismo, conflitos institucionais, crise econômica e rejeição à representação partidária tradicional. Redes digitais modificaram as condições de circulação de discursos e símbolos políticos ao reduzir custos de organização e permitir compartilhamento persistente entre grupos dispersos. Sua contribuição específica para o resultado eleitoral permanece separada das preferências que já existiam antes da campanha: os dados observacionais disponíveis identificam redes e associações, não o resultado de uma eleição alternativa sem plataformas.

## 14. De 2018 a 2022: vídeos entre plataformas e persistência da identidade

Entre as eleições de 2018 e 2022, vídeos curtos ganharam importância no ecossistema brasileiro de comunicação. Cortes de podcasts, discursos, entrevistas e encontros de rua circularam entre plataformas; trilhas sonoras e legendas reformularam fragmentos para novas audiências. Uma gravação podia funcionar como material político primário, comentário, paródia ou evidência, dependendo de quem recortava, intitulava ou distribuía. O intermediário entre o acontecimento original e a audiência final frequentemente era uma sequência de criadores, recomendadores e integrantes de grupos.

Uma investigação da Agência Pública, com dados do projeto Eleições Sem Fake da Universidade Federal de Minas Gerais, examinou vídeos com alta interação que circulavam em grupos bolsonaristas de WhatsApp entre julho e agosto de 2022. A reportagem constatou que 41,3% dos vídeos de maior interação na amostra tinham origem no TikTok ou no Kwai; entre 133 vídeos desse tipo examinados, 108 haviam sido produzidos no TikTok, 24 no Kwai e ao menos um apresentava marcas das duas aplicações. São **resultados dependentes da amostra**, não percentuais de todos os vídeos eleitorais, de todo o tráfego brasileiro do WhatsApp nem efeitos causais sobre o voto. A investigação também identificou afirmações enganosas em parte do material. [14]

```chart
type: bar
title: Marcas de origem em 133 vídeos curtos examinados em grupos bolsonaristas de WhatsApp, julho–agosto de 2022
unit: quantidade de vídeos na subamostra de 133; não representa todo o conteúdo eleitoral
TikTok | 108
Kwai | 24
Ambas as marcas | 1
```

Fonte: investigação Agência Pública / UFMG Eleições Sem Fake, 12 de setembro de 2022 [14]. A identificação da plataforma descreve a origem de edição e distribuição de uma subamostra selecionada. As barras não podem ser extrapoladas para percentuais de votos ou alcance nacional.

O resultado revela uma divisão de funções. Um vídeo pode ser encontrado mediante classificação algorítmica em uma plataforma e posteriormente distribuído no WhatsApp por pessoas que se conhecem. A segunda etapa pode adquirir autoridade da confiança interpessoal, e não da fórmula oculta de um feed. Uma montagem política também pode percorrer o caminho inverso, de um grupo de mensagens até a publicação de um influenciador. A rede comunicacional resultante não possui necessariamente um decisor central.

Movimentos políticos contrários a Bolsonaro também utilizaram memes, vídeos, influenciadores e grupos de mensagens. Seus conteúdos, formas de organização e audiências eram diferentes, mas nada na tecnologia sustenta que a política digital seja exclusiva de uma posição ideológica. Uma pesquisa comparativa precisaria examinar amostras equivalentes de campos diferentes, em vez de acumular apenas os exemplos mais marcantes de um deles.

A consequência política de longo prazo é a sobrevivência de identidades fora das eleições. Frases, símbolos e histórias compartilhadas persistem apesar de mudanças de partidos e de ocupantes dos cargos públicos. Essa continuidade pode mobilizar participação legal, protestos ou outras ações. Entender quais desfechos ocorreram exige examinar mensagens e instituições concretas, não presumir que a identidade digital seja inerentemente antidemocrática ou emancipadora.

## 15. Janeiro de 2023 em Brasília: comunicação, coordenação e limites da atribuição

Os ataques às sedes dos três Poderes do Brasil em 8 de janeiro de 2023 exigem investigar a passagem de reivindicações e coordenação online a um acontecimento físico. Os mecanismos relevantes incluem circulação de narrativas que contestavam o resultado eleitoral, logística da mobilização, transporte, vínculos sociais, convocações e decisões dos participantes. Esses fatores não devem ser comprimidos na afirmação de que um algoritmo de recomendação provocou diretamente os ataques.

Um relatório do InternetLab sobre comunicações no Telegram associadas ao período reuniu **592.644 publicações entre 1º e 8 de janeiro de 2023**, incluindo textos, imagens, áudios e vídeos. Os pesquisadores analisaram mensagens repetidas, imagens relevantes e padrões de comunicação e organização. O corpus é expressivo, mas tem limites definidos: não compreende todas as conversas privadas, não representa um mapa individual das motivações e não comprova participação criminosa de qualquer integrante de grupo monitorado. [15]

O percurso entre circulação digital e ação presencial compreende etapas diferentes: contato com uma afirmação, concordância, encaminhamento, coordenação e participação em um acontecimento. Cada transição possui condições próprias. Compartilhar informação falsa não equivale a participar de uma agressão, e o volume elevado de mensagens não permite calcular uma taxa direta de conversão em manifestantes. Registros de conversas, deslocamentos, depoimentos e decisões judiciais documentam aspectos distintos da organização, mas não podem substituir-se mutuamente.

A moderação privada e a responsabilidade pública ocupam esferas diferentes. Plataformas podem retirar publicações, reduzir alcance e bloquear contas; instituições estatais respondem pela segurança pública, aplicação das leis e garantias individuais. Medidas contra incitação à violência podem limitar danos, mas decisões opacas de moderação também criam riscos de excessos e erros. Transparência, possibilidade de recurso e controle judicial são requisitos especialmente relevantes quando a circulação digital participa de conflitos políticos.

## 16. França em 2023: o acontecimento organizado, filmado e redistribuído

Os distúrbios franceses posteriores à morte de Nahel Merzouk por um policial em Nanterre, em 27 de junho de 2023, oferecem um caso diferente. O fato desencadeador, a história das relações entre polícia e comunidades, as desigualdades territoriais e o contexto político não podem ser substituídos por teoria sobre TikTok ou "dopamina". A circulação digital integrou a **forma, o momento, a visibilidade e a coordenação** de parte dos distúrbios posteriores, sem substituir as causas sociais e políticas de sua eclosão.

Uma investigação do Senado francês, em 2024, examinou os distúrbios e o papel das plataformas. Documentou funções distintas para redes públicas, mensagens interpessoais e ferramentas de localização. Segundo valores de uma amostra examinada em relatório conjunto de órgãos de inspeção e citada pelo Senado, Snapchat foi mencionado com frequência de **36%**, comparado a X, 5%; TikTok, 4%; Instagram, 2%; Telegram, 2%; WhatsApp, 1%; e Facebook, 0,6%. São taxas de menção em amostra determinada, não distribuição que some 100%, participações de mercado ou percentuais de todos os participantes que utilizaram cada serviço. A importância relativa do Snapchat é particularmente relevante: a plataforma logística de maior destaque em um acontecimento não precisa ser aquela cujos vídeos são mais visíveis aos observadores distantes. [16]

```chart
type: bar
title: Plataformas mencionadas em amostra de órgãos de inspeção sobre os distúrbios franceses de 2023, citada pelo Senado em 2024
unit: % de referências no material amostrado; não representa distribuição completa das plataformas
Snapchat | 36
X (Twitter) | 5
TikTok | 4
Instagram | 2
Telegram | 2
WhatsApp | 1
Facebook | 0.6
```

Fonte: Senado francês, relatório sobre os distúrbios de junho de 2023, publicado em 2024 [16]. O denominador corresponde à amostra específica da investigação. Canais não mencionados, sobreposições e respostas ausentes impedem ler os valores como distribuição completa.

O Senado descreveu uma etapa inicial de circulação do vídeo e convocações para encontros, seguida de usos logísticos mais variados de serviços de mensagens, incluindo recursos associados ao Snapchat. Representantes das plataformas relataram cronologias diferentes de atividade. A instituição também examinou imitação, visibilidade e competição por atenção online, sem excluir a importância de circunstâncias sociais e urbanas. Isso é muito mais específico do que afirmar que todos os distúrbios se tornaram "cinematográficos" porque os jovens apreciam montagens. [16]

A gravação de um conflito pode preservar provas, denunciar abusos, mobilizar apoio ou exibir coragem. Essas motivações coexistem em graus diferentes e não podem ser inferidas apenas do enquadramento cinematográfico. Quando a antecipação de reconhecimento integra a decisão de agir, aparecem incentivos adicionais à disputa presencial. A documentação de tal mecanismo depende da sequência dos acontecimentos, dos registros dos participantes e do contexto social, pois um vídeo publicado depois de um tumulto não explica, por si, sua origem.

Os casos francês e brasileiro iluminam mecanismos distintos. Um se relaciona à identidade política de longo prazo, seguida por ataque institucional; o outro, a protestos e distúrbios rapidamente desencadeados por morte provocada por policial. Ambos envolveram comunicação em rede, mas suas histórias e mecanismos permanecem específicos. Tratá-los como expressões equivalentes de tendência algorítmica seria ignorar precisamente as estruturas sociais que uma explicação adequada precisa recuperar.

## 17. Comparação internacional: os mesmos aparelhos, mecanismos sociais diferentes

Brasil, França, Ucrânia e Estados Unidos reúnem configurações institucionais distintas sob equipamentos digitais semelhantes. No Brasil, a transmissão de símbolos partidários e mensagens de grupo se associa a disputas eleitorais; na França, redes de comunicação circularam durante distúrbios desencadeados por morte provocada por policial; na Ucrânia, a imagem em primeira pessoa integra documentação, propaganda e arrecadação durante guerra; nos Estados Unidos, experimentos permitiram medir intervenções específicas em feeds. A tecnologia fornece capacidades compartilhadas, enquanto condições históricas e sociais moldam os usos.

```map
title: Mecanismos distintos de transmissão em contextos investigados
Brasil | Memes eleitorais, encaminhamento interpessoal, identidade política e mobilização documentada separadamente | Estudos sobre WhatsApp de 2018 e 2022; pesquisa de Telegram sobre janeiro de 2023
França | Morte provocada por policial, seguida de distúrbios, circulação pública de vídeos e mensagens logísticas | Investigação do Senado em 2024; observações sobre plataformas limitadas à amostra
Ucrânia | Documentação da guerra, testemunhos em primeira pessoa, mobilização de apoio e formatos de entretenimento das redes | Análise acadêmica de 97 vídeos de criadores ucranianos; ausência de taxa causal de alistamento demonstrada
Estados Unidos | Intervenções experimentais em plataformas e respostas políticas e emocionais mensuradas | Experimentos do Facebook em 2012 e 2014; evidência contrária sobre feeds cronológicos publicada em 2023
```

As ocorrências registradas nos quatro países não representam etapas de um processo comum nem um padrão de resposta de suas populações. As diferenças entre eventos e funções das plataformas limitam qualquer comparação direta. A mesma capacidade de compartilhar vídeos pode apoiar persuasão eleitoral, documentação de testemunhas, responsabilização pública, financiamento coletivo ou coordenação ilegal, de acordo com a situação.

Registros documentais demonstram que determinada mensagem ou gravação existiu. Dados de plataformas descrevem interações dentro dos limites de acesso; entrevistas revelam motivações declaradas, com riscos de memória seletiva; experimentos estimam efeitos sob intervenções específicas; registros administrativos e judiciais documentam desfechos e responsabilidades. Atribuir uma mudança social ampla a mecanismos algorítmicos depende da convergência dessas fontes, não da intensidade visual de uma gravação.

## 18. Ucrânia: testemunho, propaganda e a perspectiva da guerra em primeira pessoa

A invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022 criou ambiente no qual civis, soldados, jornalistas, instituições e propagandistas produziram e divulgaram imagens do conflito. Gravações por celulares e redes sociais ofereceram oportunidades de mostrar aspectos antes pouco acessíveis da sobrevivência, evacuação e combate cotidianos. As mesmas imagens podiam ser separadas de seu contexto, encenadas para comunicação, manipuladas ou utilizadas em narrativas seletivas. Verificar autenticidade e data é essencial porque uma gravação visceral em primeira pessoa pode continuar sendo enganosa sobre lugar, momento ou responsabilidade.

A pesquisa de Tom Divon e Moa Eriksson Krutrök, de 2025, sobre **97 vídeos de criadores ucranianos no TikTok** identifica três modalidades: testemunhos em primeira pessoa, memes utilizados para comunicar experiências de guerra e entretenimento político lúdico relacionado a engajamento e arrecadação de recursos. Os autores investigam como formatos característicos das plataformas mediam a visibilidade do conflito e podem favorecer participação cívica. A amostra compreende vídeos e criadores selecionados, não toda a comunicação em guerra, todos os combatentes nem desfechos de recrutamento. [17]

Pesquisas sobre a autorrepresentação de soldados ucranianos no TikTok também mostram como integrantes das forças armadas apresentam identidades nacionais e de gênero por meio de convenções audiovisuais. A proximidade da câmera móvel pode tornar o combate distante psicologicamente imediato, mas um clipe dificilmente apresenta todos os custos logísticos, éticos e humanos do acontecimento. Uma montagem musical com enquadramento confiante pode construir figura heroica sem medir a disposição posterior do espectador para alistar-se. [18]

O recrutamento militar envolve fatores que não aparecem em montagens de combate: patriotismo, obrigação legal, vínculos familiares, condições materiais, campanhas oficiais e circunstâncias de segurança. Comentários de admiração em vídeos POV registram reações à imagem, mas não decisões efetivas de alistamento. A passagem entre exposição audiovisual e ingresso em forças armadas permanece indeterminada sem vincular histórias individuais de consumo, relatos dos recrutas e registros administrativos comparáveis.

A comunicação em guerra também expõe assimetria moral. Algumas imagens documentam atrocidades ou ajudam civis a receber assistência; outras podem glorificar violência ou criar riscos de segurança operacional. O mesmo sistema de distribuição que apoia testemunhos pode espalhar propaganda e gravações falsas. Tratar todo vídeo militar como perigoso prejudicaria a documentação; aceitar toda cena espetacular como autêntica recompensaria manipulação.

## 19. Do vídeo da guerra às decisões assistidas por algoritmos no combate

Imagens de trincheiras constituem apenas uma interface entre algoritmos e conflitos. Forças armadas também empregam sistemas computacionais em logística, integração de sensores, classificação de imagens, avaliação de ameaças, simulação e apoio à decisão. As consequências diferem em escala e responsabilidade daquelas produzidas por um feed social. Um sistema que prioriza possíveis alvos ou sinais pode influenciar decisões de vida ou morte mesmo quando um ser humano mantém formalmente a decisão final.

Sistemas militares percorrem estágios de desenvolvimento e aplicação com graus diferentes de evidência: a capacidade *declarada* por fabricantes, a capacidade *demonstrada* em testes delimitados, a tecnologia *implantada* em operações e sua eficácia *verificada em escala*. Um vídeo promocional de drone não comprova autonomia operacional, identificação correta de alvos nem desempenho consistente em ambientes adversos. Documentos datados, avaliações independentes e circunstâncias concretas de uso são necessários para estabelecer o alcance de uma alegação técnica.

O segundo risco está na compressão do tempo de decisão. Sistemas que entregam mais alertas e recomendações mais rápidas podem melhorar a defesa enquanto aumentam pressão para que operadores aceitem classificações automatizadas. Dados de treinamento imperfeitos, engano adversarial, atribuição incerta e responsabilidades mal definidas podem produzir erros graves. A velocidade pode ser valiosa justamente quando existe tempo para verificar; reduzir esse tempo sem melhorar a verificação pode piorar as decisões.

O argumento retorna a McNamara sem confundir períodos históricos. No Vietnã, o problema envolvia interpretar indicadores quantitativos de processo político-militar amplo. Sistemas militares automatizados contemporâneos podem atuar em cadeias técnicas cujas entradas e decisões intermediárias são opacas aos participantes. A vulnerabilidade institucional comum está no excesso de confiança em representação que não incorpora o contexto inteiro. As tecnologias e responsabilidades jurídicas diferem, mas ambas exigem responsabilização humana significativa e auditoria independente.

## 20. Algoritmos além do feed: trabalho, renda, crédito e administração pública

O algoritmo de maior consequência na vida de alguém talvez nunca recomende vídeos. Um sistema de pontuação de crédito pode alterar acesso a financiamento; um programa de recrutamento pode filtrar candidaturas; a organização automatizada de escalas pode modificar jornadas; a detecção de fraude pode interromper pagamentos; sistemas de navegação podem determinar quais bairros receberão mais tráfego. Esses instrumentos distribuem oportunidades, tempo e recursos. Seu impacto social pode ser mais imediato do que sua visibilidade cultural sugere.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico divulgou, em dezembro de 2025, pesquisa empresarial sobre gestão algorítmica em diversas economias avançadas. A adoção de ao menos uma ferramenta desse tipo foi declarada por **90% dos gestores pesquisados nos Estados Unidos**, diante de média de **79% nos quatro países europeus estudados** e **40% no Japão**. Os valores descrevem empresas representadas por levantamento empresarial e a adoção de pelo menos uma ferramenta de gestão. Não representam a parcela de trabalhadores integralmente administrada por IA autônoma nem a quantidade de decisões automatizadas sem supervisão humana. Os entrevistados relataram benefícios percebidos e preocupações com responsabilização, transparência e saúde ocupacional. [19]

O mecanismo econômico difere da publicidade. Um gestor pode buscar distribuição mais consistente de tarefas, controle de fraudes ou produtividade. Entretanto, o trabalhador pode receber classificação cujas fontes de dados e possibilidades de correção não são visíveis. Quando empregadores compartilham sistemas externos de avaliação, erros e vieses podem se propagar por múltiplas seleções. Quando cada trabalhador é avaliado por métrica estreita, as pessoas podem concentrar esforços nessa medida em detrimento da qualidade do serviço ou da segurança.

As perguntas de governança são concretas: a pessoa afetada consegue saber que foi empregada automação, contestar um erro, obter revisão humana, examinar evidências relevantes e receber reparação? O modelo é preciso nas populações atendidas? Os ganhos de desempenho foram verificados ou são somente percebidos pelos gestores? Esses direitos e testes frequentemente informam mais do que uma promessa genérica de IA ética.

Os casos do trabalho e da administração pública também revelam o limite da palavra *controle*. Um ranqueador não precisa controlar as crenças de alguém para influenciar seu acesso a entrevista profissional, conta bancária ou serviço público. Os mecanismos de poder podem ser distributivos, procedimentais e materiais, não necessariamente psicológicos.

## 21. Peter Thiel, René Girard e a teologia política do poder tecnológico

As discussões de Peter Thiel sobre o Anticristo entre 2025 e 2026 pertencem à história intelectual do poder tecnológico contemporâneo, não constituem evidência de que ele coordene secretamente as recomendações das redes sociais. Reportagens documentaram palestras privadas em São Francisco em 2025 e em Roma em março de 2026, dedicadas a teologia apocalíptica, riscos de autoridade política global e receios relacionados a tentativas de conter tecnologias catastróficas. A cobertura da época registrou também críticas fortes de pensadores religiosos às interpretações apresentadas. São relatos atribuídos de declarações de Thiel, não profecias verificadas independentemente nem doutrina filosófica consensual. [22][23]

A teoria do desejo mimético e da rivalidade de René Girard influenciou o pensamento de Peter Thiel. Nela, modelos sociais participam da formação dos desejos e das relações competitivas. Nas plataformas, comportamentos repetidos, disputas por prestígio e sinais de aprovação fornecem um campo de comparação possível para essa teoria. A influência intelectual de Girard sobre um investidor não implica que os sistemas técnicos de recomendação tenham sido desenvolvidos com base nessa filosofia.

As preocupações de Thiel também expõem paradoxo de governança. A retórica do perigo existencial pode justificar maior controle central; a retórica de inovação sem limites pode justificar discricionariedade privada acentuada. Nenhuma das posições resolve quem possui autoridade legítima, quem suporta os riscos e quais evidências devem limitar uma decisão. As questões se relacionam ao aceleracionismo e às disputas sobre velocidade tecnológica e poder do Estado, mas não se resumem a oposição entre progresso e medo.

Guy Debord descreveu relações sociais mediadas por representações; Erving Goffman examinou a apresentação de si e as performances cotidianas. Ambos oferecem vocabulário para interpretar a circulação de imagens e a antecipação da audiência, mas não identificam, por si, o efeito causal de uma gravação sobre distúrbios políticos ou conflitos militares. Esse efeito varia conforme instituições, participantes e acontecimentos observáveis.

## 22. O que os reguladores podem governar sem presumir governo sobre a mente

As escolhas regulatórias abrangem transparência e avaliação independente de riscos, direito de recurso, limites a determinadas formas de perfilamento, desenho adequado a faixas etárias e obrigações específicas para plataformas muito grandes. Os instrumentos respondem a problemas diferentes. Exigir a divulgação de por que alguém recebeu uma recomendação não dá aos observadores externos a capacidade de reproduzir todas as classificações. Restrições à reprodução automática podem reduzir consumo sem fricção e, ao mesmo tempo, afetar conveniência ou acessibilidade. Intervenção de moderação contra incitação explícita precisa ser diferenciada de restrição à dissidência legal.

As conclusões preliminares da Comissão Europeia de fevereiro de 2026 sobre o TikTok mencionaram rolagem infinita, reprodução automática, notificações e forte personalização sob o Regulamento dos Serviços Digitais. O documento é uma alegação regulatória datada com preocupações específicas sobre riscos; a plataforma preservava o direito de resposta, e a própria divulgação afirmava que o resultado definitivo não estava antecipado. Confundir conclusões preliminares com sanção final distorceria as evidências. [20]

No Brasil, a Lei nº 15.211 de 2025, o chamado *ECA Digital*, entrou em vigor em **17 de março de 2026**, ao lado de alterações institucionais relacionadas à autoridade nacional de proteção de dados. A norma estabelece obrigações de proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais. Sua operação jurídica, capacidade de fiscalização e efeitos mensuráveis precisam ser avaliados com o tempo, não presumidos apenas pela existência da lei. [21]

A concentração do poder regulatório apresenta riscos próprios. Grandes empresas podem financiar com maior facilidade estruturas complexas de conformidade, enquanto concorrentes menores enfrentam barreiras. Governos podem invocar segurança para impor vigilância excessiva ou silenciar a oposição. Governança eficaz requer, portanto, tribunais independentes, obrigações proporcionais, metodologias públicas, participação dos grupos afetados e decisões revisáveis. Auditar sistemas não deve se converter em licença para monitorar todas as conversas privadas.

Autonomia informacional, concorrência, direitos trabalhistas, proteção infantil, prestação de contas e segurança operacional exigem instrumentos diferentes. A publicidade de critérios de classificação permite fiscalização, mas não substitui contestação individual; auditorias de risco não equivalem a autorização para vigilância indiscriminada. A legitimidade da governança depende da possibilidade de revisar decisões relevantes tanto das empresas quanto do Estado.

## 23. As configurações futuras do poder algorítmico

A etapa seguinte da sociedade algorítmica não pode ser deduzida por extrapolação linear do tempo assistido ou da capacidade dos modelos. Três interpretações merecem atenção.

**Assistência difundida e pluralismo.** Modelos mais baratos e interfaces transparentes podem ampliar acesso à educação, a informações públicas, a instrumentos criativos e a capacidades produtivas. Usuários escolhem diferentes métodos de ordenação, criadores transferem canais de distribuição e trabalhadores contestam decisões automatizadas. As evidências favoráveis seriam maior entrada de concorrentes, alternativas acessíveis, aprendizagem mensurável, custos menores de substituição e melhora do devido processo. O cenário enfraquece se a infraestrutura se concentrar e as pessoas não conseguirem escapar de processos opacos de distribuição.

**Seleção concentrada e dependência.** Número pequeno de fornecedores de infraestrutura pode controlar passagens importantes para informação, trabalho e participação econômica. Regras de plataforma tornam-se condições quase institucionais de participação. A evidência seria concentração duradoura, interoperabilidade decrescente, renda instável dos criadores, impossibilidade de contestar classificações relevantes e queda observada da descoberta independente. A difusão de padrões abertos, novos concorrentes e direitos efetivos de contestação reduziria essa dependência.

**Ambientes informacionais fragmentados e securitizados.** Estados podem intensificar controle sobre dados, plataformas e IA em nome de preocupações militares, de segurança e soberania. Populações diferentes podem experimentar ambientes informacionais separados sob regimes técnicos e regulatórios distintos. As evidências seriam restrições transfronteiriças crescentes, acesso nacionalmente diferenciado a modelos, controles de conteúdo e exigências de verificação. Interoperabilidade internacional, governança verificável e circulação independente de informação limitariam a fragmentação.

Os caminhos podem coexistir: educação pode ficar mais acessível enquanto algoritmos de emprego se tornam opacos; moderação pode melhorar a segurança enquanto a vigilância estatal se amplia em outro lugar. Não se atribuem probabilidades numéricas porque o modelo causal e os intervalos de incerteza necessários não foram estabelecidos. O futuro do poder algorítmico depende de escolhas institucionais, não constitui consequência inevitável de computação mais rápida.

## 24. A extensão e os limites do poder algorítmico

O alcance do poder algorítmico aparece quando resultados sociais relevantes dependem de decisões sobre mensuração, classificação e distribuição, sobretudo quando os afetados não conseguem examinar ou contestar essas decisões. Uma mudança comprovada em exposição informacional pode ocorrer sem alteração de preferência política; uma classificação de crédito pode limitar o acesso a recursos sem transformar convicções. O tipo de poder depende da variável efetivamente alterada e da instituição que controla o procedimento.

| Mecanismo | Evidência adequada | Explicação alternativa mais importante | Teste que enfraqueceria a hipótese |
| --- | --- | --- | --- |
| Recomendações mudam atitudes políticas | Exposição aleatorizada com grupos comparáveis e medidas repetidas de atitudes | Usuários escolhem conteúdos porque já possuem determinada posição | Ausência de diferença após alteração comprovada de exposição por tempo adequado |
| Vídeos curtos prejudicam atenção | Estudo longitudinal ou controlado com resultados cognitivos confiáveis | Pessoas com dificuldades anteriores de concentração procuram mais vídeos | Efeitos aparentes desaparecem após controle de condições prévias e variáveis de confusão |
| Filmagem pública estimula performance arriscada | Ações datadas, testemunhos sobre audiência esperada e eventos comparáveis | Competição entre pares ou conflitos locais já motivavam a ação | Frequências semelhantes sem incentivos de audiência |
| Memes organizam comunidades políticas | Circulação rastreável, pesquisas de identidade e evidências de coordenação | Identidades políticas anteriores explicam o compartilhamento | Redes mudam sem mudanças correspondentes de identidade ou mobilização |
| Vídeos de guerra provocam alistamento | Exposição e motivos de recrutas associados a dados administrativos | Patriotismo, mobilização legal e incentivos materiais | Alistamento invariável entre grupos expostos corretamente comparados |
| Decisões automatizadas reproduzem desigualdade | Resultados auditados de seleção, correção de erros e desempenho por grupo | Desigualdades estruturais anteriores à automação | Equalização de resultados após adoção controlada e correção |

A continuidade histórica alcança o dilema ilustrado por McNamara: um sistema pode tornar-se extraordinariamente eficiente em medir aquilo que foi instruído a contar e muito menos capaz de representar a totalidade do problema humano. A diferença atual está em que as métricas operam crescentemente em sistemas de retroalimentação que distribuem visibilidade, recompensas e oportunidades sociais antes da decisão seguinte.

As infraestruturas algorítmicas não aboliram política, desejo, classes sociais, instituições nem cultura. Oferecem ambientes pelos quais todas essas realidades são cada vez mais expressas e disputadas. Sua importância está na combinação do cálculo com expectativas humanas: pessoas sabem que outras pessoas, máquinas e mercados podem observar suas ações, e algumas adaptam suas condutas a essa possibilidade. A questão pública decisiva passa a ser **quem pode definir os critérios pelos quais a vida social se torna visível, valiosa e consequente — e quem pode recusá-los ou contestá-los**.

## Referências

[1] Sony Pictures Classics, *The Fog of War*, documentário de Errol Morris (2003): https://www.sonypictures.com/movies/thefogofwar

[2] Emily Mushen e Jonathan Schroden, CNA, *Are We Winning? A Brief History of Military Operations Assessment* (2014): https://www.cna.org/analyses/2014/are-we-winning

[3] Paul Covington, Jay Adams e Emre Sargin, *Deep Neural Networks for YouTube Recommendations* (2016): https://research.google/pubs/deep-neural-networks-for-youtube-recommendations/

[4] Central de Ajuda do TikTok, *Como o conteúdo é recomendado no TikTok* (consulta em 2 de novembro de 2026): https://support.tiktok.com/pt_BR/using-tiktok/exploring-videos/how-tiktok-recommends-content

[5] Bond e colaboradores, *A 61-million-person experiment in social influence and political mobilisation*, *Nature* (2012): https://www.nature.com/articles/nature11421

[6] Kramer, Guillory e Hancock, *Experimental evidence of massive-scale emotional contagion through social networks*, *PNAS* (2014): https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4066473/

[7] Guess e colaboradores, *How do social media feed algorithms affect attitudes and behavior in an election campaign?*, *Science* (2023): https://doi.org/10.1126/science.abp9364

[8] Nguyen e colaboradores, *Feeds, feelings, and focus: A systematic review and meta-analysis examining the cognitive and mental health correlates of short-form video use*, *Psychological Bulletin* (2025): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41231585/

[9] Schultz, Dayan e Montague, *A neural substrate of prediction and reward*, *Science* (1997): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9054347/

[10] Sherman e colaboradores, *The Power of the Like in Adolescence*, *Psychological Science* (2016): https://www.psychologicalscience.org/journals/psychological-science/0956797616645673/

[11] Victor Piaia e Marcelo Alves, *Abrindo a caixa preta: análise exploratória da rede bolsonarista no WhatsApp*, *Intercom* (2020): https://www.scielo.br/j/interc/a/JB3zHccN7KnHJXTwsRj8WjF/?format=html

[12] Viktor Chagas, *Meu malvado favorito: os memes bolsonaristas de WhatsApp e os acontecimentos políticos no Brasil*, *Estudos Históricos* (2021): https://www.scielo.br/j/eh/a/vXzQKJb4KJY4LV7ZXXGSzvH/?format=html&ilang=pt_BR

[13] *The Bolsonaro Voter: Issue Positions and Vote Choice in the 2018 Brazilian Presidential Elections*, *Latin American Politics and Society* (2020): https://www.cambridge.org/core/journals/latin-american-politics-and-society/article/bolsonaro-voter-issue-positions-and-vote-choice-in-the-2018-brazilian-presidential-elections/98B69A9646D6CCB18253339E5DAE5FF5

[14] Laura Scofield e Nathallia Fonseca, Agência Pública / UFMG Eleições Sem Fake, *TikTok e Kwai levam desinformação sobre urnas e Forças Armadas ao WhatsApp* (12 de setembro de 2022): https://apublica.org/sentinela/2022/09/tiktok-e-kwai-levam-desinformacao-sobre-urnas-e-forcas-armadas-ao-whatsapp/

[15] InternetLab, *Desdobramentos dos ecossistemas de (des)informação política ao longo dos períodos pré e pós eleitoral* (2023): https://internetlab.org.br/pt/pesquisa/desdobramentos-dos-ecossistemas-de-desinformacao-politica-ao-longo-dos-periodos-pre-e-pos-eleitoral/

[16] Senado francês, *Émeutes de juin 2023 : comprendre, évaluer, réagir*, relatório (2024): https://www.senat.fr/rap/r23-521/r23-521_mono.html

[17] Tom Divon e Moa Eriksson Krutrök, *The rise of war influencers: Creators, platforms, and the visibility of conflict zones* (2025): https://doi.org/10.1177/29768624251325721

[18] *War, social media and gender: an analysis of the use of TikTok by Ukrainian soldiers* (2025): https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/23337486.2025.2472100

[19] OCDE, *How widespread is algorithmic management in workplaces?* (19 de dezembro de 2025): https://www.oecd.org/en/publications/how-widespread-is-algorithmic-management-in-workplaces_cda7a114-en.html

[20] Comissão Europeia, *Commission preliminarily finds TikTok's addictive design in breach of the Digital Services Act* (6 de fevereiro de 2026): https://digital-strategy.ec.europa.eu/en/news/commission-preliminarily-finds-tiktoks-addictive-design-breach-digital-services-act

[21] Ministério da Justiça e Segurança Pública, legislação e aplicação do *ECA Digital* (2026): https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-protecao/sedigi/eca-digital/eca-digital-1

[22] Reuters, *Thiel's secretive Rome conference draws Church attention* (15 de março de 2026): https://www.reuters.com/technology/thiels-secretive-rome-conference-draws-church-attention-2026-03-15/

[23] The Washington Post, *Inside billionaire Peter Thiel's private lectures: Warnings of the Antichrist and U.S. destruction* (10 de outubro de 2025): https://www.washingtonpost.com/technology/2025/10/10/peter-thiel-antichrist-lectures-leaked/

[24] Associated Press, *Aura farming trend inspired by video games is sweeping Latin America* (2026): https://apnews.com/article/5b82900616f7c4dc2a34566322ccc070
